A modernidade nos trouxe inúmeros
benefícios incontestáveis, facilidades encantadoras, concessões empolgantes,
mas é inegável que também nos trouxe uma sobrecarga preocupante.
Sobrecarregamos nosso tempo com tarefas, nosso cotidiano com horários rígidos,
nossa saúde com estresse, nosso lado emocional com uma exigência desumana.
Precisamos ser felizes, precisamos ser reconhecidos – Não! Reconhecimento é
pouco. Precisamos ser admirados! – , precisamos ser amados, precisamos ser bem
humorados, precisamos ser resilientes e ainda precisamos estar bonitos, bem
arrumados, organizados e sempre simpáticos. Com as crianças não tem sido
diferente.
Tenho percebido que a grande
diferença entre ser criança e ser adulto hoje em dia está na idade. As
exigências estão cada vez mais iguais. A tendência à cobrança, também. As
crianças contemporâneas são exigidas e são exigentes num grau máximo. Crianças
brincam quando sobra tempo. Fazem as tarefas da escola entre uma aula de Inglês
e uma de Tênis – quando há possibilidade desse intervalo. Vão à casa dos
colegas pra almoçar – seu único tempo livre do dia! Veem filmes entre uma
horinha na Estética e outra na Natação. Vão ao pátio com os amigos quando – Áh,
esqueçam! Elas não vão ao pátio! Se sobra algum raro tempo, vão para a frente
do computador ou dos tablets (refúgio dos filhos que nada sabem fazer com o
tempo livre – afinal ele é quase inexistente mesmo...).
Muitas vezes questionamos a educação
que esses pequenos têm recebido, tamanha ousadia e ar de superioridade que
exibem com orgulho. Porém, poucas vezes paramos para questionar o nível de
cobrança pela qual eles passam diariamente.
Temos de convir que aprender com a
família é bem menos dolorido que aprender com a frieza do mundo aqui fora, mas
não podemos pular etapas, ultrapassar limites, ignorar fases. Crianças precisam
poder ser crianças. E é cada vez mais comum os casos de crianças com distúrbios
emocionais dos mais variados tipos em função da sobrecarga de tarefas e da
exigência desproporcional à maturidade. Isso tudo causa ansiedade, depressão e
até problemas de relacionamento, autoestima e aprendizagem. Emoções intensas e
violentas como às que as crianças são expostas, geram reações como irritação,
angústia, autoestima baixa, visão distorcida de si mesmo, tristeza, dificuldade
em estabelecer vínculo com seus pares, falta de concentração, agitação acima do
normal, insegurança e em consequência muitas vezes, regressão de comportamentos
básicos em tarefas cotidianas. Então famílias se desesperam e se desestruturam,
sem perceberem que muitas vezes o estopim para todo esse desenrolar mal
sucedido está no excesso.
Equilíbrio é a solução para a maioria
dos problemas desde o início da humanidade! Não é diferente com as famílias do
século XXI. É preciso cobrar, sim. Mas é mais necessário ainda, refletir sobre
o tipo de cobrança que está sendo feito, a natureza da combinação que está
sendo estabelecida. Crianças precisam vivenciar experiências infantis, pois
terão o resto da vida para serem adultas.
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e
Institucional e colunista do Jornal Zero Hora
(matéria escrita para o jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen/RS)
(matéria escrita para o jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen/RS)
