Segundo o dicionário: “Família é um grupo
de pessoas com ancestralidade comum”. Se a ancestralidade a que estão se
referindo é aquela dos primatas, lá da teoria de Darwin, até concordo. Mas se a
questão é apenas consanguinidade, não mesmo! Porque família é muito mais do que
relação genética. Família é relacionamento, é acolhimento, é compreensão (e
quando não houver compreensão, ainda permanece sendo acolhida).
Família é preparo pra vida, e é aí
que eu, como educadora há muitos anos, entro com a reflexão: será que isso está
acontecendo? Ou será que pulamos da geração que só exigia, diretamente para
geração que só dá?
Dia desses, conversando com uma
família, falei que havia uma certa falta de comprometimento da criança (meu aluno)
com as questões relacionadas à aprendizagem. Que apesar de ser bastante madura
para algumas coisas, no que tangia à escola, havia falhas importantes a serem
trabalhadas. Foi então que eu escutei sobre o receio de exigir muito e de que
até aquilo que era bom, se perdesse... Pois eu entendo perfeitamente esse medo,
porém, não posso concordar com o fato de que, para não perder o lado bom, se
aceite (sem ressalvas) o que pode (e deve) ser mudado. Isso também faz parte do
gostar, que tanto tem a ver com “família”.
Outro dia, conversando com a minha
filha, contava a ela que os momentos mais desgastantes do ano, são os finais de
trimestre. Não apenas pelo excesso de trabalho, mas pelo cansaço emocional que
alguns momentos e situações causavam... Uma situação que tem sido cada vez mais
recorrente nas escolas, é o questionamento das famílias em relação a várias
questões pertinentes à aprendizagem. E não me refiro a perguntar sobre o que o
filho necessita ou como auxiliá-lo de maneira mais eficiente em casa. Falo de
questionamentos que são próprios da competência do professor. Falo sobre
questionar a correção, questionar a nota, questionar uma observação, questionar
o recadinho deixado no caderno! E quando a criança tem alguma necessidade
educativa especial, o caso muitas vezes fica ainda mais complicado. Porque se
questiona o trabalho como um todo. Se questiona o que o professor está
trabalhando em aula e como está trabalhando. Se “sugere” currículo. Se “sugere”
atividades. Se “sugere” o que fazer, como fazer e o que não fazer. E quando a
sugestão está em uma sala de aula de escola privada, passa a ser imposição (em
muitos casos).
E então surge uma outra questão! A
intensidade dos nossos dias, exige que muitas vezes (querendo ou não)
deleguemos tarefas que a priori eram nossas (enquanto família). E ficamos numa
crise de consciência onde nos sentimos culpados por não estarmos dando conta do
que socialmente sempre foi papel familiar, e acabamos exigindo, como uma forma
inconsciente de deixarmos bem claro que, “não estamos fazendo, mas estamos de
olho”. Então o que era para ser parceria, se torna disputa.
Do que precisamos? Equilíbrio!
Precisamos de equilíbrio em nossas
relações. De equilíbrio no tempo entre trabalho e lazer. De equilíbrio entre entender
e exigir. De equilíbrio entre permitir e proibir. De equilíbrio entre o que é
nosso e o que deve ser delegado. De equilíbrio entre o que devemos fazer e o
que devemos deixar fluir.
Às vezes família precisa ser apenas
abrigo. E estar ali, disponível pra acolher quando for preciso (e não impedir
que essa necessidade aconteça).
Feliz dia e vida longa às famílias!
Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga
