Wednesday, November 05, 2014

Aparência X Competência


Até que ponto a aparência influencia a opinião das pessoas?
Tenho me dedicado a um estudo sobre até que ponto a aparência das pessoas – cabelo,  roupas, maquiagem, tatuagens – pode influenciar no conceito que os outros possuem.
Ouvi opiniões, li inúmeros artigos, criei minhas próprias teses acerca do tema e repasso a seguir, o que ficou de todo o trabalho.
As pessoas ainda se importam muito com a ilusão da figura, com a imagem. Gostam de ver e até comentar a respeito daquilo que lhes agrada os olhos. Isso não significa, necessariamente, que falem mal ou pensem mal sobre o que lhes desagrada.
Se interessam muito, principalmente as mulheres, sobre a forma com que alguém que lhes presta um serviço, se ornamenta. Mas não estou falando de unhas bem feitas e cabelos presos ao trabalharem diretamente com alimentos, por exemplo. Me refiro a saltos, roupas bonitas, cabelo bem cuidado, acessórios de bom gosto. Mas também não me refiro a fazerem questão de observarem outras mulheres assim. Pelo contrário! É muito importante que as mulheres que prestam algum tipo de serviço a outras mulheres saibam que jamais devem parecer entenderem de algo tão “fútil” quanto tendências da estação – principalmente se não trabalham em lojas ou não são estilistas. Se lidarem com Educação, Medicina (exceto a estética, que exige o contrário), Filosofia, Gastronomia ou qualquer assunto que não tenha absolutamente nenhuma ligação com aparência, é bom que se cubram dos pés à cabeça e que apenas mantenham-se limpas e livres de odores. A não ser que não queiram manter seus empregos. Mas daí é uma outra questão.
Empresas admitem optar por um candidato de melhor aparência, quando ambos possuem a mesma competência. E aí incorrem dois grandes erros. O primeiro, em valorizarem tanto o exterior, o que causa exclusão de muitos. O segundo, em não perceberem que por trás dessa afirmação existe um preconceito imenso, até porque competência é algo muito pessoal... ninguém terá exatamente a mesma competência que outra pessoa. Sabemos, desde sempre, que uns possuem maiores habilidades para umas coisas, e outros, para outras coisas. Competência e habilidade são espécies de impressão digital!
E por fim, até onde a aparência é motivo de credibilidade?
Por mais incrível que pareça, em pleno século 21,  estamos na tão sonhada época do “tudo pode” – mas que fique bem claro que é somente no que tange à teoria. Nem pensar em sair exercendo seus direitos por aí. Porque temos direitos, sim. Mas a liberdade de exercê-los, vai tão somente até a liberdade do outro de julgarem-nos. E essa liberdade pode ser devastadora!
Roupa bonita pode, desde que não seja mais bonita que a de seu cliente. Muita frivolidade pensar em moda, né? Esse profissional não poderia ser levado a sério...
Tatuagem pode, desde que seja delicada e muito discreta. Ai daquele que ousar mostrar sua personalidade através de rabiscos sobre pele. Isso é coisa de “desclassificado”. Imagina se alguém inteligente será tatuado?
Essas observações não foram feitas nos anos 20. São comentários de contemporâneos como eu e você. Comentários que escancaram preconceito e discriminação. E que esfregam na cara da sociedade, a intolerância.
Após semanas de estudo, só desejo que o conservadorismo seja uma possibilidade pouco utilizada, e que as diferenças sejam mais aceitas e respeitadas, pois são elas que produzem grandes feitos!
Como as pessoas se vestem, que cabelo usam, se possuem ou não o corpo tatuado, se entendem ou não de moda... isso são apenas detalhes da personalidade das pessoas. A bondade, o amor, a inteligência, a competência e a dedicação não se medem nesses pormenores. Já o preconceito estampado em algumas manifestações, diz muito sobre quem você é.



Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Sunday, November 02, 2014

Texto Zero Hora, de 1º de novembro

A necessidade de se ser criança, enquanto se é criança

Basta estudar um pouco da história da humanidade para nos depararmos com as mais diversas interpretações da infância, dependendo da época e da origem do povo em referência. O que me faz acreditar que o sentido dessa fase é dado conforme a cultura e o conhecimento das pessoas.
Vivemos em pleno século XXI e as indagações acerca de como lidar com a infância – e os infantes – prosseguem. Aliás, isso é ótimo! Porque são exatamente as dúvidas que nos fazem progredir em relação aos mais diferentes assuntos. As certezas nos boicotam, pois não nos impulsionam à busca de novas visões, novas propostas, novos desafios.
Porém, tanto a Ciência quanto a Educação progrediram muito e exatamente por isso, não temos mais o direito de fazer “ensaios” com nossas crianças. Já há formas de prevermos, embasadas em estudos, as consequências de determinados experimentos.
Uma das coisas que tem se contestado cada dia mais, é a importância de se viver efetivamente a infância, de se ser criança, na fase certa. E mesmo o conhecimento e as informações sendo cada dia mais acessíveis ao grande público, ainda observo famílias transbordando de vaidade ao se depararem com seus pequenos de, não mais do que 4 aninhos, lendo. Eles mal sabem pular num pé só, não têm a menor noção de lateralidade, não abotoam suas camisas, muito menos amarram seus cadarços, mas... já “leem”! E lá correm os pais, ansiosamente exultantes, às redes sociais para gritarem a todos que possuem um pequeno gênio como descendente. Lamento por quem acha que juntar sílabas é ler e – mais ainda –  por quem não sabe que existe uma infinidade de pré-requisitos para que se aprenda a ler de forma competente.
As crianças já não podem mais brincar na rua, como antigamente – muito se perdeu em convivência e amizades – e agora, não satisfeitos, daremos continuidade a uma geração de  decodificadores da língua que só usam sapatos com velcro!
Lógico que o exagero acima não passa de uma metáfora, mas tirando os excessos, não podemos ser coniventes com uma alfabetização tão falha, que inicia com a criança aprendendo a consciência fonêmica e, em idade escolar, vai para uma instituição aprender a brincar! É disso que as crianças estão sentindo falta: menos formalidade e mais ludicidade!
Antes de ler, a criança precisa de um aparato íntegro e harmonioso de habilidades físicas, neurológicas e emocionais. Precisam trabalhar percepção, esquema corporal e temporal, entre tantos outros pontos. Portanto, antes de se vangloriar quando seu pequeno começar a juntar letrinhas, verifique o quanto de autonomia e espontaneidade infantil ele ainda possui. Se sua resposta for “pouca”, é hora de lhe oportunizar vivências infantis.
Permita que sua criança brinque, aproveite, arrisque-se, faça uso de todo o seu potencial corporal – ajudará muito (e em tudo)!

Lisandra Pioner
Pedagoga e Psicopedagoga