Sunday, September 28, 2014

Homossexualismo e Infância


Em nossa sociedade, cada dia é mais comum nos depararmos com casais homossexuais nos mais diferentes ambientes. A própria Justiça tem sido a favor de uniões estáveis entre esses casais, respondendo a uma demanda social crescente. Então como podemos esconder isso das crianças? É aí que reside a grande questão! Não devemos esconder! Mascarar ou ocultar informações das crianças é uma forma de negar a elas um direito; o direito ao conhecimento.
A tendência é que as crianças reproduzam os valores passados por seus cuidadores, ou seja, se conviverem com pessoas intolerantes e preconceituosas, têm grandes chances de tornarem-se assim. Porém, se conviverem em um ambiente familiar onde a informação é transmitida com responsabilidade, cuidado e atenção, estarão inclinadas a aceitarem e considerarem natural o que está sendo passado a elas.
Embora seja um assunto polêmico por mexer com nossas crenças e valores, não pode ser ignorado, pois está cada vez mais em destaque, principalmente na mídia. Então como e quando falar?
Com naturalidade! Quando bem pequenas, as crianças não dispõem de juízo de valor. Elas recebem a realidade e a acolhem com simplicidade. São os adultos que sinalizam quando determinada situação é errada. Mais tarde, em torno dos 6/7 anos de idade, quando já começam a questionar determinadas situações, é o momento de então esclarecer as dúvidas que possuem. Ou seja, o adulto não deve antecipar ou repassar informações desnecessárias, mas quando a curiosidade surgir, deve esclarecê-la, sim.
Ensinar o respeito ao próximo e mostrar que a estrutura familiar mudou, é obrigação de quem convive com crianças. E isso não se restringe ao ambiente familiar. É também papel da escola esclarecer essas situações, sem julgar. Devemos mostrar às crianças que existe o livre arbítrio, onde cada ser faz suas escolhas e se responsabiliza por elas.
O mesmo deve ocorrer quando os cuidadores percebem uma “tendência” ao homossexualismo em alguma criança. A dificuldade de lidar com nossos próprios sentimentos diante disso é que nos impede de tratarmos o assunto com neutralidade, mas devemos pensar, em primeiro lugar, nesse ser humano. Independente de estarmos de acordo ou não, é um fato que pode ocorrer em qualquer família. E o que deve ser considerado nesses casos, é como proteger essa criança de situações que possam fazê-la sofrer, porque embora esse assunto esteja cada vez mais presente em nossa rotina, ainda há muito preconceito. Então o que se deve fazer? Fortalecer essa criança para que ela aprenda a lidar com situações adversas, provocações, ignorância e momentos delicados. Mas é importante ressaltar que isso deve ser feito com todas as crianças! Fortalecê-las também é obrigação de nós, adultos, independente da condição sexual que prevemos para elas. Ainda é importante dizer que não há tratamento para o homossexualismo, pois não se trata de uma doença. E é essencial que as pessoas, mais do que aceitem o outro, se aceitem como são. É aí que reside a felicidade: em se aprovar, se admitir e se consentir a ser exatamente como se é – tentando sempre se aprimorar, mas enquanto caráter e hábitos e não enquanto condição sexual, porque não é isso que faz de alguém melhor ou pior.
Quando somos pais ou professores, nosso foco tem que ser ver nossos pequenos felizes – quando adultos, donos de suas próprias histórias; independente disso acontecer da forma como gostaríamos ou da forma que eles considerarem a certa. Isso é desprendimento, altruísmo e amor verdadeiro.
Lisandra Pioner
Pedagoga, psicopedagoga e escritora
(Texto publicado no Jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen, no dia 27 de setembro de 2014)

Tuesday, September 09, 2014

Texto Zero Hora (agosto/2014)




Dia dos pais é uma data onde inevitavelmente lembro-me da infância – da minha, principalmente. Infância tão diferente das que vejo hoje em dia… Eu, que lido diariamente com muitas delas, percebo o quanto são diferentes de mim, quando criança. Algumas semelhanças existem, obviamente! Mas a essência se perdeu um pouco.
Crianças, na minha época, eram crianças até os dez, doze anos! E eram crianças mesmo, como pede uma infância saudável. Crianças que brincavam de boneca com toda aquela parafernália que adorávamos carregar pra baixo e pra cima, vizinhança afora. Os vizinhos não eram apenas vizinhos: eram amigos. E era lá, na casa do “vizinho-amigo” que passávamos as tardes brincando e fazendo um lanchinho nos intervalos.
Antes de anoitecer, todos estávamos em casa para o banho, o jantar e o sono. Meus pais não ligavam para o meu celular. Aliás, não havia celular naquela época. Nós, crianças, passávamos o dia incomunicáveis, e ninguém recorria à polícia por esse motivo. Tínhamos uma liberdade maior, uma responsabilidade maior e uma credibilidade maior.
As facilidades do mundo moderno fizeram das crianças, seres frágeis e pouco verossímeis. E mais: seres de uma urgência impressionante!
Durante a minha infância, mais do que esperar a noite para falar com meu pai, eu precisava esperar o aniversário para ter uma festa, as férias de verão para ir à praia, o término da época de provas para poder voltar a brincar a tarde inteira na rua, o Natal ou o dia das crianças para ganhar um presente... Era a espera que nos fazia ter os olhos brilhando – mais do que o próprio presente! Almejar era o que nos causava frio na barriga. Ganhar um brinquedo e pegar o encarte que vinha na caixa para desejar o próximo, e calcular quando haveria uma nova data comemorativa para ganhá-lo, era o que nos movia.
O desejo e a capacidade de espera fizeram grande diferença na personalidade de quem viveu a infância na mesma época que eu.
E lógico que não pretendo propor que voltemos àquela época quase que “remota”, de um passado “distante”, mas o resgate do desejo e da capacidade de espera, é muito importante. E podemos fazê-lo a todo momento, nos pequenos detalhes do dia a dia. Como pais, como professores, como cuidadores…
Exigir que se espere na fila, que aguarde a sua vez de falar, que se coloque no lugar do outro e avalie se sua ação foi boa, que escolha um brinquedo apenas, que aguarde uma nova data especial para ganhar um presente de maior valor, que não leve para a escola brinquedos frágeis, que opte por um lanche com sobremesa ou um cinema com pipoca, enfim… são coisas pequenas, que fazem uma diferença enorme quando eles forem como nós: adultos. Quando não nos terão mais por perto tomando partido ou intervindo para desfazer mal entendidos.  
Dia dos pais serve pra isso também. Mais do que pra dar um abraço apertado e agradecer pelo que fizeram por nós, serve para relembrarmos o que fizeram de tão bom, que podemos repeir com nossos filhos.
Hoje, quase dia dos pais, me dou conta de que me tornei uma adulta. E embora como adulta ainda tenha um pai, não o tenho todos os dias... Não vejo meu pai todos as manhãs quando acordo, ele não me leva mais na escola, não me cobra estudo e boas notas, não me compra guloseimas, nem me pede para parar de cutucar seu banco enquanto dirige. A infância se foi e sobrou um pai que ocupa um novo lugar na minha vida. Meu pai deixou de ser, aos meus olhos, um ser meio divino, intocável, quase sagrado e passou a ser um cara mais simples, mais humano. Apenas um bom exemplo. E esse “apenas” é muito maior do que tudo que eu poderia sentir.
Ele deixou de ser tão presente enquanto presença física, mas grande parte do que eu sou, devo a ele. É isso que desejo a todos os pais nesse dia: que se façam presente, positivamente, na vida dos filhos, mesmo quando não puderem mais estar no comando de suas vidas. Que ensinem seus pequenos a serem protagonistas bem sucedidos de seus destinos.
Esse é o maior legado que um bom pai pode deixar. No dia dos pais, presenteie seu filho!
Lisandra Pioner

Texto Zero Hora (setembro/2014)


Escola de Pais
Gostaria de iniciar a coluna deste sábado fazendo um pedido muito especial: se desejarem ser pais ou mães, se preparem para isso tanto quanto se preparariam para assumir um cargo importantíssimo e de uma responsabilidade singular. O cargo de suas vidas!
Infelizmente não temos vestibular ou seleção para maternidade e paternidade, sem contar que organicamente podemos sê-lo praticamente crianças ainda, mas isso não nos dá o direito de colocarmos uma nova vida no mundo. Porque ser mãe ou pai vai muito além de termos capacidade de gerar e de suprir financeiramente uma criança. Precisamos ter capacidade de provê-la emocionalmente. E para isso, é necessário estarmos inteiros, supridos de nós mesmos, imunes à corrosão de nossas frustrações e aos danos causados pela negação da realidade dura.
Estamos vivendo uma nova era em relação às mais diversas áreas. A maioria esmagadora da população adulta sai para trabalhar, portanto tem menos tempo para questões do cotidiano doméstico – e se inclui aí, tempo para os filhos. Essa escassez de tempo tem uma repercussão quase que imediata no desenvolvimento emocional e até mesmo educacional das crianças. Porém, o reflexo imediato não é o mais preocupante. O que realmente merece um olhar ainda mais atento é a somatização de todas essas “repercussões” e o que isso pode ocasionar em um futuro (não tão distante).
Já é sabido pela maioria das pessoas, que qualidade de tempo não se mede necessariamente pela quantidade de horas que passamos com nossos pequenos, mas sim, por toda a dedicação e troca que fazemos naquelas poucas horas que estamos juntos. No entanto, da mesma maneira que não se faz um bom estudante ou um bom profissional sem perseverança, também não se fazem bons pais, sem a dedicação de tempo exclusivo e irrestrito. E essa tomada de responsabilidade para si, que pais conscientes devem fazer, não auxilia apenas a criança, mas também os próprios pais, que muito evoluem ao assumirem seus compromissos parentais.
A construção da personalidade e do caráter e os valores sociais e culturais se formam, em grande parte, na infância. Portanto, essa terceirização generalizada das crianças terá consequências sérias. E nós, profissionais das áreas da Educação e Psicologia, já estamos sentindo.
A oferta de modelos e referências de comportamento, o estabelecimento de limites e bons hábitos, a preparação para a autonomia, o ensinamento de tarefas simples e indispensáveis como falar, comer e fazer a higiene, a criação de uma rotina e o estímulo à socialização saudável, são apenas algumas das responsabilidades de pais e mães que, se estiverem ausentes enquanto presença física, estarão legitimando sua irresponsabilidade diante do compromisso com uma vida. Isso chama-se negligência. E a negligência de hoje, cobrará juros altíssimos amanhã.
Temos assistido a um número surpreendente e preocupante de crianças sendo encaminhadas a atendimentos especializados não por causas orgânicas e genéticas, mas em função de um meio empobrecido de estímulos, regras e organização. Não é pequena a porcentagem de vezes que precisamos, mais do que organizar a vida da criança, auxiliar os pais nessa estruturação. Mas o mais adequado seria, sem dúvida, fazermos isso anteriormente à existência desse pequeno ser. Se progredimos em tantos âmbitos, prevendo acontecimentos dos mais variados, por que temos que expor um outro ser humano a experiências? Será que não podemos antecipar os fatos, impedindo que nossos próprios filhos sejam cobaias de nossas habilidades enquanto cuidadores?
Nos preparamos para uma entrevista, para uma seleção de emprego, para um concurso, para um primeiro encontro, para uma banca de mestrado, para uma cirurgia, para fazermos uma compra, até para irmos ao médico! Então por que não nos preparamos para encarar essa jornada encantadora e ao mesmo tempo árdua e séria, com integridade, retidão, lisura e prazer (que também é indispensável)?
Mais do que as crianças, os pais estão precisando de escola. Já demonstramos aptidão para o “cargo” quando assumimos uma postura de aprendizes. Portanto, preparem-se: antes e durante essa nobre missão!

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Texto Zero Hora (Junho/2014)

A era do desequilíbrio

Sempre pensei que o silêncio tudo tinha a ver com reflexão. Não que todo o silêncio esconda um raciocínio atento, mas certamente não há meditação, sem paz. E aí está o problema! Como refletir em meio a tanto estardalhaço?!
Vivemos em uma sociedade onde o sistema judiciário precisa intervir até mesmo na forma com que famílias educam seus filhos. Aliás, o que é a “Lei da Palmada”? Lógico que não sou a favor de que se bata em crianças. Óbvio que tenho certeza absoluta de que é possível educar um ser humano sem que seja necessário  levantar um dedo sequer. Mas o que me chama a atenção é a incompetência em gerirmos nossos próprios atos cotidianos. Vivemos descompensados! Não estamos dando conta das nossas obrigações básicas. Precisamos que nos fiscalizem para que não sucumbamos à desordem generalizada.
Exigimos que nossos filhos sejam educados à mesa, mas em casa damos comida na boca. Queremos que na escola sejam autônomos em relação a suas necessidades fisiológicas, mas na tranquilidade do nosso lar fazemos a higiene por ele. Solicitamos que respeitem os professores, mas na hora em que enxergamos o tema de casa verbalizamos em alto e bom som que a professora “perdeu a noção”, tamanha a quantidade de tarefas. Obrigamos a colaborar na arrumação do quarto do amiguinho, mas quem organiza sua caixa de brinquedos somos nós. Chamamos sua atenção para que sejam gentis, mas xingamos o motorista que nos corta a frente. Pedimos para que sejam honestos, mas não devolvemos o troco que recebemos a mais. Quremos que sejam responsáveis, mas organizamos por eles os materiais do dia seguinte na mochila. Fazemos questão de que tenham seus direitos respeitados, mas paramos em cima da faixa de pedestre, ignorando que quem anda a pé também possui direitos.
Há um equívoco determinante no dia a dia das famílias contemporâneas. Um abismo entre os hábitos e as exigências. Nossa vida está no piloto automático. Fazemos barulho demais e silenciamos de menos. Nos apressamos, agimos com imprudência, nos precipitamos, adiantamos os acontecimentos, pulamos etapas. Em contrapartida, impedimos a autonomia dos nossos filhos, lhes suprindo todas as faltas – tão necessárias à constituição de um ser humano psíquica e emocionalmente saudável – ou lhes cobrando em excesso e os punindo se não nos respondem com o esperado.
A Era do desequilíbrio! A instabilidade, a desarmonia e a perturbação fazem parte da nossa rotina. E há os que realmente acreditam que isso seja um efeito do “progresso”. Progresso não seria sinônimo de evolução? Pois tenho outra visão do que seja evoluir, se desenvolver...
O silêncio opera milagres em um meio turbulento. A busca incessante pela paz tão almejada, provavelmente está no silêncio que nos desabituamos a fazer.
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora