Tuesday, October 23, 2018

O lugar que a gente ocupa



      Há quase duas décadas trabalho com pessoas diariamente, e nesse tempo pude perceber que, independente da faixa etária, ocupamos determinados lugares e também colocamos as pessoas de nosso convívio em espaços pré-determinados. Existe aquela irmã que chegou pra nos fazer companhia; aquele pai que é nosso porto-seguro; aquela mãe que é responsável por todas as nossas vicissitudes; aquele professor que enxergou algo tão bom em nós, que ninguém havia visto antes; aquele chefe que nos desconsiderou de forma tão intensa, que nos fez desistir da carreira; aquele marido/esposa que acabou com nossos sonhos; aquele filho que veio pra nos trazer felicidade...
         Volta e meia a gente precisa de alguém que nos encante ou se responsabilize por nossos desencantos. E quando alguém chega – seja de mansinho ou de supetão – e nos pede pra que nos responsabilizemos por nossas próprias agruras ou expectativas, a dor é intensa, é imensa, mas pode ser libertadora!
         O papel do psicólogo é muito esse. Quantas vezes tive vontade de perguntar à minha, quem ela pensava que era, pra dizer que eu deveria tomar as rédeas das minhas próprias emoções ao invés de atirar no colo de alguém, esse poder todo! Quem ela pensava que era... Pois é... acho que ela “não passa de alguém” que estudou sobre comportamento humano e que por isso consegue, através de uma escuta comprometida e ativa, perceber, sem se misturar à emoção, o que eu não conseguia – por estar imbuída, encharcada, impregnada de sensações. Com ela aliás, tenho percebido que no fundo, embora às vezes doloroso, é mais fácil estar no comando total do que acontece, do que deixar essa possibilidade toda das mãos de qualquer um.
O papel do professor também é um pouco esse... desfazer algumas convicções, mostrar que às vezes passamos uma vida esperando por algo que nunca vai ser como sonhávamos, apontar novos caminhos, enaltecer possibilidades, tirar o foco das limitações, ensinar como (re)visitar novos lugares emocionais ou lançar um novo olhar para antigos lugares... E isso também não é fácil. Não é fácil para o professor, que por sua ética profissional precisa por em evidência alguns assuntos delicados. E não é fácil pras famílias, que precisam rever expectativas, refazer objetivos, “re-olhar”...
O professor assumiu um novo lugar em uma sociedade nova. Sociedade da diversidade evidente, da insatisfação latente, da voracidade, do tédio, das urgências desnecessárias, das necessidades dispensáveis. Foi-se o tempo em que saber explicar um conteúdo era suficiente.
Diante de toda essa mudança – profissional, social, emocional, educacional – vamos nos adaptando aqui, nos remodelando ali, nos flexibilizando acolá. Fácil não é, mas impossível, menos ainda. Às vezes é só questão de ocuparmos e deixarmos ocuparem novos lugares.

Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga