Friday, January 09, 2026


 

Sempre adorei as novelas de Manoel Carlos... um jeito delicado, profundo e sensível ao tratar de temas corriqueiros e personagens comuns, faziam com que eu entrasse nas histórias e refletisse sobre quem eram aquelas pessoas e como suas histórias os construíram. Mal sabia eu, que pelo resto da vida me indagaria sobre isso, mas em relação a seres humanos reais.

Nessas férias encontrei um TikTok que apresenta as novelas do Manoel – capítulo por capítulo! Nem preciso dizer que tem sido uma distração e tanto! Me fez ter tantos sentimentos, tantas percepções diferentes de quando as vi pela primeira vez, observei – agora com olhos de adulta – sutilezas que explicam tantos fatos que eu não entendia naquela época...

Em um dos capítulos, duas personagens falam sobre seus filhos adolescentes. Ambas reclamam de terem filhos preguiçosos, que levantam da cama e deitam no sofá, que não querem praticar esportes de forma disciplinada e que só se manifestam verbalmente, fazendo uso de meia dúzia de palavras. Na mesma hora percebi que fazer críticas aos adolescentes é algo muito comum – seja em 1997, época da novela, ou em 2026. Mas fiquei refletindo sobre o que as mesmas personagens falariam hoje, caso esse diálogo estivesse acontecendo no mundo em que vivemos. O que elas falariam sobre o impacto da atual configuração social nas novas gerações, que é nitidamente mais dispersa, impaciente e muito mais sobrecarregada de informações? Uma geração que cresceu on-line, enfrentou a pandemia e lida com a instabilidade social e econômica esfregada na cara diariamente – o que costuma gerar uma ansiedade imensa – , além de estar imersa em tecnologia e Inteligência Artificial – sem saber como usá-las de forma ética e assertiva.

A geração Z precisa de estímulos diferentes daqueles da geração mostrada na novela. Aliás, precisa de estímulos muito mais frequentes e explícitos. O uso excessivo de telas e a imersão constante em ambientes virtuais, estão ligados a níveis cada vez mais baixos de bem-estar emocional, comparação social, busca de dopamina e prejuízo à concentração, criatividade e até consequências – a médio e longo prazo – de impacto no QI.

Reclamar com outras mães sobre insatisfações é muito comum e até saudável, porém, é necessário fazer mais do que comentários. Precisamos ajustar rotinas para que a interação com o mundo atual não desestabilize e impacte negativamente essa e as gerações futuras. Para isso, negociar é sempre a melhor opção para com adolescentes – lembrando que há questões inegociáveis e que, às vezes, “porque não” é a resposta mais amorosa que podemos dar.

# Explicar o motivo pelo qual não é bom passar tantas horas em frente a telas, mostrar estatísticas, estudos e notícias pode ajudar;

#Estarmos abertos à escuta também é importante para que se encontre um meio termo;

#Propor alternativas para aqueles momentos em que o celular fazia companhia ao jovem, pode ajudá-lo. Caminhada, leitura de um livro, praticar um esporte, organizar o quarto, os materiais escolares, parte da casa, encontrar amigos, ir ao cinema, andar de bicicleta, jogar algo, aprender uma receita, ir ao teatro (Porto Verão Alegre está acontecendo!)...

                Obviamente que dará trabalho para nós adultos, mas como sempre digo “Ninguém falou que seria fácil ser pai/mãe”. A gente precisa escolher o “difícil” que queremos, e não tenho dúvidas que a escolha será investirmos um tempinho para direcionar e acompanhar os filhos em novas atividades!

Tentem! Vocês verão a mudança em casa – e logo, logo, no mundo! Não ignorem o poder de pequenos ajustes diários – eles costumam ser milagrosos!

 

                                                                                                                Lisandra Pioner

                                                            Pedagoga, Psicopedagoga e especialista em AEE

 

Anteontem, 7 de janeiro, foi o dia do leitor. Tenho muito orgulho de sempre ter sido uma apaixonada por ler, e mais orgulho ainda, de ser uma grande incentivadora da leitura! Um estudante jamais passou por mim, sem perceber o quão potente os livros podem ser em sua vida.

Sabemos que a leitura oferece benefícios cognitivos, como expansão do vocabulário, aprimoramento da escrita, agilidade no raciocínio. Também oferece grandes benefícios emocionais, como o desenvolvimento da empatia, o auxílio na lida com seus próprios sentimentos, autoconhecimento. Também estimula a criatividade, a imaginação, a concentração! E quando os adultos conseguem transformar um momento de leitura em um momento familiar, fortalece laços, ensina a cooperação, vincula. O bem-estar provocado por lembranças desses momentos, permeia toda a vida adulta e consegue mostrar que aconchego fortalece.

Ler amplia nossa visão de mundo, expande nossos horizontes, estimula o pensamento crítico. A leitura pode oferecer acesso a uma variedade ilimitada de perspectivas, culturas e épocas, fazendo com que a gente compreenda melhor a complexidade do mundo, dos indivíduos e de nós mesmos.

E em um período onde o uso descontrolado da Internet causa tantas vulnerabilidades ao ser humano, como hoje em dia, ler é mais do que libertador; é uma recusa absoluta e inegociável de não “emburrecer”.

Mas sabemos que qualquer hábito precisa de incentivo! E incentivos vêm de situações preparadas para isso. Vamos pensar em algumas possibilidades de estímulo?

# Quando queremos criar seres humanos leitores, precisamos lembrar daquele ditado popular que diz que o exemplo arrasta. É mais fácil incentivarmos uma pessoa a ler, quando nós mesmos somos leitores vorazes – daqueles que têm sempre um livrinho na bolsa para  a primeira oportunidade de ócio.

# A rotina no incentivo ao hábito leitor, também pode ser uma aliada, pois quando definimos um horário para apreciar os livros, passamos a sentir falta dele se por algum motivo deixar de acontecer.

# Além disso, ambiente aconchegante e interatividade – no caso de querer envolver as crianças em oportunidades leitoras – podem ajudar também.

Depois de tornar a leitura um costume, daí pensemos em portadores de textos, tipologias textuais e tudo mais! Há famílias e até profissionais, que antes mesmo de tornarem ler uma prática, se preocupam com os gêneros textuais mais benéficos para o desenvolvimento da criança. Não! Primeiro instaure o costume através de estratégias variadas, lúdicas, divertidas. Depois varie e explore toda a potencialidade do ato de ler!

Que 2026 seja um ano de muitos leitores se (re)descobrindo! No que depender de mim, seremos muitos!

 

Lisandra Pioner

Pedagoga, psicopedagoga e especialista em AEE


Thursday, June 13, 2024

Sobre PL 1904

Se eu tivesse engravidado por ter sofrido abuso até meus 11 anos de idade (não lembro quando começou), eu teria um filho (fruto da pior experiência da minha vida) de mais ou menos 30 anos. 

Obviamente que eu não consigo pensar nessa possibilidade. Mas não é porque eu não consigo, que isso não tenha acontecido com alguém - talvez na mesma época em que eu sofria ou quem sabe muito tempo antes inclusive...

Gerar um ser humano é algo fascinante. Pari-lo é assombroso. Criá-lo é laborioso e extraordinário. Isso tudo, considerando o QUERER! Agora você já parou pra pensar no fato do "querer" não existir? E pior! Já pensou na inexistência do querer unido à repulsa?

Que belos ingredientes teríamos na formação de um ser humano, hein?

Além disso, você já pensou na possibilidade de que, na inexistência de uma proteção efetiva, eficiente, eficaz e Afetiva, exista a exigência de que a injustiça se perpetue ano após ano, esfregando na sua cara a cada aniversário da bizarrice, que a sociedade não apenas perdoa como legitima crimes hediondos, repulsivos, repugnantes e sórdidos??????????

Não. Definitivamente eu não consigo conceber que alguém encontre um ponto defensável sequer na condenação de uma pessoa violentada! É 2024 e continuamos culpabilizando as vítimas - e essa culpabilização repleta do aval condescendente e conivente do Governo e da sociedade.

Não vivemos falando "Criança não namora!" pra conscientizar as famílias de que criança deve ter atitudes e vivências de criança? E não existe toda uma anamnese por parte dos profissionais minimamente gabaritados para tratar de crianças - onde nessa anamnese muito se fala da gestação? Sério que ninguém parou pra pensar a esse respeito? Do porquê dessa fala e desses questionamentos?

O fato é que a Câmara dos Deputados do nosso incrível país aprova URGÊNCIA para um projeto que equipara aborto de gestação acima de 22 semanas a homicídio. Mas será que alguém se perguntou quanto tempo demora para que uma vítima de abuso fale a respeito do seu sofrimento? Eu demorei 32 anos! Alguém se questiona sobre a dificuldade de provar um estupro? Alguém questionou a morosidade da Justiça brasileira?

Então alguém me responde A QUEM ESSE PROJETO BENEFICIA? Alguém me responde POR QUE TANTA URGÊNCIA EM UMA DECISÃO COMO ESSA? 

Preciso confessar que cometo um dos piores atos de uma pessoa que usa redes sociais: ler os comentários sobre um determinado assunto! E acabo de ler um comentário que diz "Aborto é crime. Dê para adoção." Uma vez escutei de uma aluna do 2º ano que "dois errados não fazem um certo"... ela tinha 8 anos e me ensinou algo que nunca esqueci! Talvez a pessoa do comentário precisasse tê-la como "aluna" também...

Eu não consigo compreender que alguém, dotado de suas faculdades mentais, possa explanar que, se "ACONTECEU" de um verme desprezível ter relação sexual NÃO CONCEDIDA com alguém, esse alguém precisa aprender a lidar com isso. E mais! Precisa - se houver uma consequência dessa relação - aguentar, suportar, resistir, tolerar, sujeitar-se às consequências. São "APENAS" 9 meses, 40 semanas, 280 dias, 10 meses lunares. Ahhhhhh!!!! Pra quem já aguentou ser violentada sexualmente, vai dizer que não aguenta só mais isso? Deixa de ser exigente com a vida!

NÃO! Eu não suporto esse tipo de injustiça moral, ética, social e cívica!

E você? Já pensou sobre isso? Se não pensou, está atrasado!

Estamos vivenciando um tempo em que não basta ser contra, é necessário demonstrar essa insatisfação. Não basta discordar, é necessário gritar sua opinião. Não adianta não ser a favor, é imprescindível exigir que não exista tamanha disparidade injusta no mundo.  

Não é esse mundo que você quer deixar de legado. Então faz alguma coisa, por favor.


Lisandra Pioner, 13 de junho de 2024.





Saturday, March 30, 2024

Meu pai...

 


Sabe aquele papo de que num leito de hospital o que juntamos na vida não faz a menor diferença? Aquela conversinha de que ali nos tornamos apenas um corpo frágil que só tem espaço pra carregar as lembranças do que vivenciou? Que na cama de um hospital o que mais se houve ou se sente é a lamentação de uma vida que deveria ter sido muito mais do que foi? Aquele blá-blá-blá de que a saudade que bate não é da casa enorme, do carro impecável, do emprego invejável... mas do final de semana sentado na área de casa jogando conversa fora; dos finais de semana indo pra praia com as crianças gritando no banco de trás e fazendo farelo com bolacha; do abraço apertado, do olho no olho e da frase “conta comigo sempre!”; da mesa cheia de gente querida, rindo de qualquer coisa... sabe esse blá-bláblá? TUDO VERDADE. Quando vi meu pai entubado na UTI, com a fragilidade indigna a um pai como ele, eu só senti muito por não ter aprendido a dizer que o amava, e por eu jamais ter ouvido essa frase da boca dele.

Meu pai foi um cara pobre. Engraxate no centro. Guri que apanhava do pai de relho. Filho de um homem que comia queijo escondido e dava farinha aos filhos e à mulher. Cresceu com a certeza da dureza da vida e aprendeu sozinho a se virar.

Meu pai foi um homem que acordava antes de todos e dormia depois. Trabalhava sábados, domingos e feriados – quando o domingo era dia sagrado pro comércio. Teve carro, quando isso era artigo de luxo. Teve moto quando quase ninguém tinha. Construiu -  ele mesmo construiu – sua primeira casa de veraneio em Quintão – onde passei praticamente todos os verões da minha adolescência.

Nunca vi meu pai cansado. Nunca ouvi meu pai reclamar. Fazia aquele discurso de “joga uma água na cara e vamos lá”. Jamais parava pra descansar.

Foi o pai que fazia “cosquinha”, me colocava na “cagunda” e corria comigo pela casa – com a voz da minha mãe ao fundo “Vão se machucar!”. Foi o pai que nunca deixou faltar comida em casa e ainda tinha Flan na geladeira, Coca de garrafa de vidro aos finais de semana e até Nescau – parece o mínimo, mas nos anos 80 e 90 isso era luxo. Pagou colégio particular até meu 6º ano. Me levou muitas vezes de moto ao Julinho – meu colégio no Ensino Médio.

Foi o pai provedor – embora minha mãe também trabalhasse –, divertido e que jamais levantou a mão pra mim durante minha infância -  era nítido que suas maiores dores tinham sido apanhar e passar fome, e ele não queria isso pra mim.

Quando me tornei adolescente nos afastamos. E nunca mais nos reencontramos como antes... é difícil ser pai/mãe de adolescentes. Aliás, quando entrei na faculdade, minha intenção era exatamente a de ajudar os adolescentes a passarem por essa fase tão solitária e estranha. Meu pai pagou minha faculdade de Pedagogia – mesmo sendo contra fazer faculdade – e meu pós em Psicopedagogia. Ele concluiu o Ensino Fundamental e o Médio depois de adulto. Naquela época, concurso público era o que de mais promissor poderia haver para um futuro confortável e tranquilo. Eu, no auge da minha ignorância juvenil, recusei todos os conselhos. Fui fazer faculdade e jamais prestei um concurso.

Meu pai foi um pai que deu comida e estudo – muito mais do que seu próprio pai havia lhe dado – e tinha certeza de que isso bastava. Não facilitava muito as coisas... nunca me emprestou seu carro, não deixava eu levar amigos pra casa da praia, ficava de cara feia quando eu queria sair. Aliás, meu pai conseguia ficar dias e dias sem falar com ninguém quando estava brabo. Por anos achei que isso era controle emocional.

Meu pai foi um grande crítico de quem não conseguia crescer na vida – porque ele, a duras penas conseguiu. Não abraçava, não falava de sentimentos... minha vida inteira só abracei meus pais em aniversário, Natal e Réveillon. Se eu ouvi “Eu te amo” de algum deles, foi numa infância muito remota – porque não lembro.

Aos 26 anos, quando engravidei da Maria Antônia, ele ficou 6 meses sem olhar pra mim. Eu rezava todos os dias para que ele tratasse a minha filha com amor, que não a ignorasse como fazia comigo. Então ela nasceu, e ele foi o melhor avô que eu poderia desejar. O mais amoroso, o mais preocupado, o mais acolhedor, o mais tranquilo, o mais paciente, o mais parceiro, o mais presente. Apesar de eu ter conhecido uma versão muito especial do meu pai durante a minha infância, ele conseguiu ser ainda melhor pra minha filha!

Quando decidi me mudar pra minha primeira casa – um porão dos parentes de uma colega -, apesar de não ser o que meu pai sonhava pra mim, foi conhecer o lugar e me deu um fogão de presente.

Quando comprei meu primeiro carro – foi zero km, porque sabia que isso era o certo pra ele – eu só pensava na alegria que ele teria de saber que eu consegui adquirir algo na vida. E realmente... acho que foi o dia que ele mais sentiu orgulho de mim.

Quando alguma coisa estava precisando de conserto na minha casa, era a ele que eu recorria. Ele ia reclamando do início ao fim, mas sempre me ajudava.

Com a vida adulta, os compromissos, as dificuldades, algumas dores ressurgindo, fomos nos distanciando mais e mais. Nosso distanciamento é proporcional as nossas semelhanças – porque somos muito parecidos! Como é difícil ser emocional... então a gente finge que não é. Só que a vida cobra um preço pra tudo, inclusive pra isso. Não há saúde – nem física, nem mental – que suporte uma vida de coração enrijecido – seja pelo medo, pelo rancor, pela falta de perdão, pela culpa, pela mágoa. Não importa o motivo, não há corpo, mente ou espírito que não sucumba a uma vida mal vivida.

Eu não sei exatamente o motivo – ou sei –, mas eu tenho um olhar muito mais condescendente, amoroso e solidário para o meu pai – se comparado a minha mãe. Acho que porque – mesmo sem ter tido a intenção – ela me privou de ter um pai protetor. Quando a minha mãe descobriu que eu era uma criança que sofria abuso e decidiu nunca contar ao meu pai, além de me proibir de contar pra qualquer pessoa, ela me impediu de aprender a precisar do outro, a descansar na proteção e cuidado de alguém. Quando ela não deixou que meu pai soubesse e escolhesse o que fazer com aquela informação, ela privou nós dois de sabermos qual a sensação dos papéis de protetor e protegida. E até hoje eu não sei o que é isso. Eu me defendo sozinha de tudo o que a vida me traz – ou eu busco – de ruim.

Esse olhar mais generoso com ele, certamente também vem do pedido de desculpas mais genuíno e verdadeiro que eu já ouvi – e que foi dele! Ele pediu desculpas por ter ficado meses sem falar comigo durante a minha gravidez! Quando meu pai se mostrou humilde e falível, eu aprendi que ele era muito mais forte do que eu pensava.

Hoje meu pai está na UTI de um hospital público. O carro automático e com bancos de couro bege que ele conquistou, está parado na garagem. A casa de Pinhal, com 3 pisos que se enxerga o mar, está vazia e se deteriorando. A casa de Porto Alegre precisa de manutenção. Ele não esgotou as viagens que poderia ter feito. Não comeu nos restaurantes que teve vontade. Deixou de usar roupas novas esperando ocasiões mais especiais. Andou muito mais vezes de ônibus do que precisava – pra não usar o carro que sempre esteve lá.

Ontem ele não reconheceu a Tônia – disse que não tinha neta. Hoje me recebeu com um olhar assustado e disse algumas frases do tipo: “O que tu tá fazendo aqui? Pra onde tu vai depois? Onde tu tá trabalhando” – eram as conversas que tivemos por anos e anos – rasas como um pires... Cochilava, acordava e repetia muitas vezes “É difícil... é brabo...”, como se estivesse lembrando de coisas que aconteceram e verbalizando a conclusão que chegava. Então nos minutos finais da visita, depois de mais um cochilo, ele me olhou e perguntou:

“E O QUE QUE A GENTE FAZ PRA SE DAR BEM NA VIDA?”

Eu juro por tudo o que há de mais sagrado que ele fez exatamente essa pergunta. Assim, do nada...

Pai, infelizmente eu não sei essa resposta. Mas tenho certeza de que não é “fazer tudo ao contrário do que tu fez”, porque eu sou a prova disso. Talvez seja aprender a mudar – as ideias, a rota, as certezas –, porque como já disse o Cortella, mudar pode ser complicado, mas acomodar, é perecer.

(Desde 2001, quando ouvi Epitáfio, do Titãs, pela primeira vez, pedi a Deus pra que essa não fosse a minha trilha sonora na velhice ou no leito de morte. Nem cheguei nessa fase ainda, mas ela tem surgido, meio tímida, na minha lembrança.)

Thursday, June 13, 2019

O dia em que minha filha sofreu cyberbullying...



A gente escuta histórias absurdas por aí, lê outras tantas em redes sociais, fica sabendo de consequências drásticas, relacionadas a pessoas que sofreram bullying... e então, em um dia aparentemente comum, uma história como essas (a princípio tão distantes da nossa realidade), adentra nossa casa...
 Você deve saber o que é cyberbullying. Uma palavra estrangeira, pra explicar um conceito muito conhecido por todos nós: a covardia. O ser humano, dentro das suas imensas limitações emocionais, em muitos momentos transforma sua insegurança, sua inveja, sua cobiça, sua baixa autoestima e até mesmo suas sombras (a parte não muito boa, que todos temos), em ações... e essas ações, muitas vezes são violentas, excludentes e que só demonstram uma fraqueza (emocional, psicológica e de caráter) enorme. Aliás, que outro motivo alguém teria para agir de forma desleal, se não for por se considerar muito fraco?
O Cyberbullying tem a ver com práticas de agressão moral, organizadas por grupos, contra uma determinada pessoa. A intenção geralmente é ridicularizar e/ou perseguir. Com o aumento do uso das redes, essa prática tem se tornado cada vez mais comum – infelizmente. A internet é um oásis pros covardes! Acontece todos os dias, e muitas vezes o jovem que sofre, não conta a ninguém, por medo. E o que pratica, se esconde por trás desse sentimento que causa no outro, e alimenta a crença de que “não vai dar nada”.
Só que independente das motivações psicológicas do praticante, o bullying – seja ele feito através da internet ou cara a cara – deixa marcas. É muito difícil explicar a uma criança, que sofreu uma situação vexatória ou amedrontadora, que a pessoa que o fez, tem “problemas”, que é preciso ter um olhar mais piedoso para com ela... e quando a criança é tua filha, vou dizer que é ainda mais imensamente custoso.
Porém, como acredito que aconteça com tudo nessa vida, uma hora há um retorno, existe uma consequência. E foi exatamente isso que aconteceu no caso da minha filha.
A Maria Antônia vinha demonstrando alguns momentos de maior irritação e tristeza. Volta e meia reclamava de um colega que falava grosserias e de algumas meninas, que a excluíam de momentos na escola. Eu, partidária de tentar sempre incentivar a criança a se resolver sem intervenção de adultos, pedi a ela que tentasse relevar, que procurasse outras meninas, que falasse ao menino que as grosserias dele não eram legais e que ofendiam. Algum tempo depois, mais precisamente na segunda, 3 de junho, ela chegou em casa e me mostrou uma foto que estava circulando pelos grupos de whatsapp dos colegas de escola (com participantes entre 11 e 12 anos – pasmem!). A foto era dela, e em cima da foto, palavras ofensivas que a censura não me permite reproduzir.
Crianças, seja lá por quais razões, escolheram-na para mostrarem ao mundo (e principalmente a suas próprias famílias), que ainda não possuem maturidade para estarem livres, leves (embora leveza não combine nenhum pouco com a situação) e soltas pelo mundo de ninguém, que é o espaço cibernético. Não sei se isso aconteceu outras vezes, mas sei que dessa vez, escolheram a pessoa errada para “brincar”.
A história começou com uma criança envolvida e terminou com quatro! Uma delas criou e passou a um colega e todas as outras repassaram a foto. Entendem? Quem assiste passivamente a situação humilhante de alguém, é conivente. Quem participa,  repassando material abusivo, é cúmplice! Dessas quatro crianças, três foram suspensas da escola. Mas em todas as quatro famílias, houve algo em comum: choro e a fala de que JAMAIS pensaram que seus filhos eram capazes de algo assim.
Será que era preciso chegar a esse ponto?
Quando falo que somos nós, adultos, que precisamos dar as diretrizes e mostrarmos o que é certo e bom e o que é errado e mau, há quem diga que “não há essa necessidade, e que aos poucos as crianças aprendem e também, que não há maldade em ações infantis”. Então vou repetir aqui (e continuarei a repetir para todo, sempre): pode não haver maldade genuína no ato de uma criança, mas isso não a livra de fazer muito mal a uma outra (como no caso que descrevi), porque nesse caso, não é a intenção, mas a ação que vale.
E vou dizer mais! Eu vejo isso nas salas de aula, corredores e pátios de todas as escolas pelas quais já passei... há crianças oprimidas por colegas, há crianças que não têm noção do quanto podem interferir emocionalmente na vida do outro e há adultos que não conseguem passar a noção de empatia e compaixão aos seus pequenos (provavelmente porque também não possuem).
Então pra finalizar, sabe aquela mentira que seu filho lhe contou sobre não ter tema? Sabe aquela vez que você foi chamada na escola para conversar sobre as frases inadequadas ditas a vários coleguinhas? E aquelas vezes em que ele levou materiais dos colegas escondidos na mochila? Pois é... se você não explicar que é errado, ele não vai descobrir sozinho. E pior! Quando esses pequenos atos começarem a ser proporcionais a sua idade, vai acabar descobrindo através dos outros (geralmente sem nada de amorosidade) que tudo na vida tem uma consequência. Tudo mesmo.


Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga

Wednesday, May 15, 2019

15 de maio: dia da família


Segundo o dicionário: “Família é um grupo de pessoas com ancestralidade comum”. Se a ancestralidade a que estão se referindo é aquela dos primatas, lá da teoria de Darwin, até concordo. Mas se a questão é apenas consanguinidade, não mesmo! Porque família é muito mais do que relação genética. Família é relacionamento, é acolhimento, é compreensão (e quando não houver compreensão, ainda permanece sendo acolhida).
Família é preparo pra vida, e é aí que eu, como educadora há muitos anos, entro com a reflexão: será que isso está acontecendo? Ou será que pulamos da geração que só exigia, diretamente para geração que só dá?
Dia desses, conversando com uma família, falei que havia uma certa falta de comprometimento da criança (meu aluno) com as questões relacionadas à aprendizagem. Que apesar de ser bastante madura para algumas coisas, no que tangia à escola, havia falhas importantes a serem trabalhadas. Foi então que eu escutei sobre o receio de exigir muito e de que até aquilo que era bom, se perdesse... Pois eu entendo perfeitamente esse medo, porém, não posso concordar com o fato de que, para não perder o lado bom, se aceite (sem ressalvas) o que pode (e deve) ser mudado. Isso também faz parte do gostar, que tanto tem a ver com “família”.
Outro dia, conversando com a minha filha, contava a ela que os momentos mais desgastantes do ano, são os finais de trimestre. Não apenas pelo excesso de trabalho, mas pelo cansaço emocional que alguns momentos e situações causavam... Uma situação que tem sido cada vez mais recorrente nas escolas, é o questionamento das famílias em relação a várias questões pertinentes à aprendizagem. E não me refiro a perguntar sobre o que o filho necessita ou como auxiliá-lo de maneira mais eficiente em casa. Falo de questionamentos que são próprios da competência do professor. Falo sobre questionar a correção, questionar a nota, questionar uma observação, questionar o recadinho deixado no caderno! E quando a criança tem alguma necessidade educativa especial, o caso muitas vezes fica ainda mais complicado. Porque se questiona o trabalho como um todo. Se questiona o que o professor está trabalhando em aula e como está trabalhando. Se “sugere” currículo. Se “sugere” atividades. Se “sugere” o que fazer, como fazer e o que não fazer. E quando a sugestão está em uma sala de aula de escola privada, passa a ser imposição (em muitos casos).
E então surge uma outra questão! A intensidade dos nossos dias, exige que muitas vezes (querendo ou não) deleguemos tarefas que a priori eram nossas (enquanto família). E ficamos numa crise de consciência onde nos sentimos culpados por não estarmos dando conta do que socialmente sempre foi papel familiar, e acabamos exigindo, como uma forma inconsciente de deixarmos bem claro que, “não estamos fazendo, mas estamos de olho”. Então o que era para ser parceria, se torna disputa.
Do que precisamos? Equilíbrio!
Precisamos de equilíbrio em nossas relações. De equilíbrio no tempo entre trabalho e lazer. De equilíbrio entre entender e exigir. De equilíbrio entre permitir e proibir. De equilíbrio entre o que é nosso e o que deve ser delegado. De equilíbrio entre o que devemos fazer e o que devemos deixar fluir.
Às vezes família precisa ser apenas abrigo. E estar ali, disponível pra acolher quando for preciso (e não impedir que essa necessidade aconteça).
Feliz dia e vida longa às famílias!
Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga

Tuesday, March 05, 2019

Do hino às marchinhas


Há alguns dias atrás, fomos todos pegos de surpresa por uma solicitação um tanto quanto bizar... (cof cof!) surpreendente!
O atual ministro da Educação, Vélez Rodrigues, numa escancarada demonstração de falta total de bom senso, solicita às escolas que filmem os estudantes cantando o hino nacional, “perfilados”. Escolas essas que, em sua esmagadora maioria não têm alimento, papel higiênico, classes e cadeiras decentes e nem os professores são pagos em dia – professores cujos salários são indecentes, vergonhosos e ofensivos!
Fico pensando que, assim como quando planejamos uma aula, buscamos uma intencionalidade, temos um objetivo, com o ministro não deve ser diferente. Com exceção de estar sob efeito de substâncias tóxicas, ali havia uma intenção. Rapidamente ele voltou atrás. Logo nos primeiros alardes internáuticos, percebeu que apesar da tentativa ser semelhante às ações lá dos anos 60 e 70, estamos em 2019! E diante disso, provavelmente ele deva ter pensado “Deu m***!”, e então veio com todo aquele discurso de que havia errado... Imagino que ele deva ter percebido que errou mesmo, mas que errou em fazer uma solicitação grotesca e sem a menor empatia, diante de uma população exausta; e não que tenha se arrependido de ter feito algo sem nexo – como era nosso real desejo!
Diante disso tudo, novamente o caos se instalou. Vieram os “antibolsonaro” dizer aquela velha conhecida frase – “Eu avisei!” -, além de outras tantas observações, algumas reais, outras tantas, excessivas. Criaram memes, fizeram paródias, vídeos cômicos, enfim... tudo aquilo que brasileiros, com suas mentes privilegiadas pelo bom-humor, conseguem criar!
Então me deparo, nesse Carnaval, com um vídeo irônico, onde pais questionam um menino de estar com um “papelote” escondido, e nele conter parte do hino nacional escrito. A mãe questiona suas amizades, pergunta sobre o porquê de ele não escutar um funk como as crianças da sua idade, e até diz que ele é tão estranho, que nem o narguilé que ela havia lhe dado de presente, ele usou! Assisti ao vídeo com um misto de incredulidade e irritação. Incredulidade por ficar bem claro naquele vídeo, a certeza de que, ou a pessoa entoa o hino nacional, cheio de devoção à pátria e por isso, é do bem; ou fuma, ouve funk, é superficial, e consequentemente é um ser sem escrúpulos. E irritação, por pensar que a gente está sempre se contando histórias, não é mesmo? E quando a devoção a algo, alguém ou a alguma ideia é tão visceral, perdemos a noção de realidade e a capacidade de julgamento.
Diante de tudo isso, o que está em pauta não é que cantar o hino forma maus cidadãos (me desculpem os mais radicais, mas nem tão pouco não cantá-lo). O que se questiona é o pedido absurdo a uma nação desacreditada, que debocha da Educação, e agora tenta subjugá-la. E se questiona a intencionalidade por trás de um pedido apenas aparentemente ridículo, mas que tem potencial para ser bem preocupante, a médio e longo prazos.
Quando é que nós, brasileiros, perceberemos que devíamos estar do mesmo lado?
Enquanto isso não acontece, nós professores, seguimos cantando “Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí!” – dinheiro esse, que deveria vir junto de reconhecimento e de gratidão, porque sim, nós somos parte do alicerce da sociedade.

Lisandra Pioner
Professora há 17 anos

Tuesday, October 23, 2018

O lugar que a gente ocupa



      Há quase duas décadas trabalho com pessoas diariamente, e nesse tempo pude perceber que, independente da faixa etária, ocupamos determinados lugares e também colocamos as pessoas de nosso convívio em espaços pré-determinados. Existe aquela irmã que chegou pra nos fazer companhia; aquele pai que é nosso porto-seguro; aquela mãe que é responsável por todas as nossas vicissitudes; aquele professor que enxergou algo tão bom em nós, que ninguém havia visto antes; aquele chefe que nos desconsiderou de forma tão intensa, que nos fez desistir da carreira; aquele marido/esposa que acabou com nossos sonhos; aquele filho que veio pra nos trazer felicidade...
         Volta e meia a gente precisa de alguém que nos encante ou se responsabilize por nossos desencantos. E quando alguém chega – seja de mansinho ou de supetão – e nos pede pra que nos responsabilizemos por nossas próprias agruras ou expectativas, a dor é intensa, é imensa, mas pode ser libertadora!
         O papel do psicólogo é muito esse. Quantas vezes tive vontade de perguntar à minha, quem ela pensava que era, pra dizer que eu deveria tomar as rédeas das minhas próprias emoções ao invés de atirar no colo de alguém, esse poder todo! Quem ela pensava que era... Pois é... acho que ela “não passa de alguém” que estudou sobre comportamento humano e que por isso consegue, através de uma escuta comprometida e ativa, perceber, sem se misturar à emoção, o que eu não conseguia – por estar imbuída, encharcada, impregnada de sensações. Com ela aliás, tenho percebido que no fundo, embora às vezes doloroso, é mais fácil estar no comando total do que acontece, do que deixar essa possibilidade toda das mãos de qualquer um.
O papel do professor também é um pouco esse... desfazer algumas convicções, mostrar que às vezes passamos uma vida esperando por algo que nunca vai ser como sonhávamos, apontar novos caminhos, enaltecer possibilidades, tirar o foco das limitações, ensinar como (re)visitar novos lugares emocionais ou lançar um novo olhar para antigos lugares... E isso também não é fácil. Não é fácil para o professor, que por sua ética profissional precisa por em evidência alguns assuntos delicados. E não é fácil pras famílias, que precisam rever expectativas, refazer objetivos, “re-olhar”...
O professor assumiu um novo lugar em uma sociedade nova. Sociedade da diversidade evidente, da insatisfação latente, da voracidade, do tédio, das urgências desnecessárias, das necessidades dispensáveis. Foi-se o tempo em que saber explicar um conteúdo era suficiente.
Diante de toda essa mudança – profissional, social, emocional, educacional – vamos nos adaptando aqui, nos remodelando ali, nos flexibilizando acolá. Fácil não é, mas impossível, menos ainda. Às vezes é só questão de ocuparmos e deixarmos ocuparem novos lugares.

Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga