Wednesday, August 31, 2016

Os esportes e a infância



Sim, pode estar “batido”, cansativo e repetitivo, mas apesar de o assunto ser esportes, meu foco é um pouquinho diferente do que a maioria das pessoas têm falado. Minha intenção é refletir sobre a importância do esporte na vida das nossas crianças. E quando falo em esporte, não me refiro à Educação Física que é (mal e pouco) realizada nos colégios. Na maioria das vezes um ou dois períodos semanais com menos de uma hora cada. Só milagre faria parecer algo importante se nem mesmo as escolas dão importância.
O esporte é um grande agregador de valor, se utilizado com a devida seriedade e consideração. O mérito do esporte na vida de pessoas que fizeram dele algo útil e estimado é inquestionável. O esporte desenvolve competências técnicas e sociais com uma eficiência muito maior do que qualquer outra atividade, principalmente por ensinar a fazer, fazendo. Ou seja, é na prática que ele molda e interfere na vida das pessoas que o praticam. Além disso, estimula diversas habilidades como colaboração, comprometimento, adaptação, iniciativa, engajamento, foco, relacionamento interpessoal e resiliência. Ensina a lidar com as frustrações inevitáveis, com suas necessidades, expectativas e desejos (e com as dos outros também), a criar estratégias para vencer seus próprios limites, a admirar outras pessoas, cria obrigações e responsabilidades, inclui, exige esforço, convívio, resolução de conflitos, trabalha valores éticos e morais... Ufa! Proporciona o desenvolvimento integral do indivíduo. Alguma dúvida disso?
E a escola é, sem dúvida alguma, um excelente espaço para que tudo isso comece a acontecer. Afinal, se a escola não é o lugar onde se deve mostrar o mundo, desenvolver competências e instrumentalizar as crianças e jovens para lidarem com o que está por vir, então não sei mais para que serve...
Sim, o ENEM é importante, a quantidade de alunos que saem do Ensino Médio e conseguem uma vaga em universidades públicas é importante, a colocação em cursos e concursos de todas as áreas é importante. Mas me desculpem a sinceridade plangente, o grande mal das novas gerações não é a falta de preparo para conquistarem uma posição; é a falta de preparo para lidar com toda e qualquer circunstância que saia um pouquinho fora do esperado. É a inabilidade para lidar com oposição ou imprevisto, a falta de empenho e a desconsideração pelo outro.
Somente os esportes podem ajudar as nossas crianças? Claro que não! Mas que os esportes certamente as ajudam, tenho certeza absoluta. Podem comprovar!
(Texto do Jornal Zero Hora, de agosto de 2016)

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora

O desafio da empatia


O grande, o imenso, o tremendo, o desastroso mal do século, na minha opinião, é a falta de empatia. Para quem não sabe: empatia, substantivo feminino; habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa; compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outro. Só isso já é mais do que suficiente pra eu dizer que a empatia, pra mim, é muito mais do que um substantivo, é puro adjetivo!
Empatia é a capacidade, quase extinta, do ser humano colocar-se no lugar do outro e parar antes de render-se ao impulso de falar ou de fazer algo que machuque, magoe ou coloque deliberadamente o outro em uma posição dolorosa ou humilhante.
É a falta de empatia que impede que o motorista do carro dê lugar ao outro que está dando pisca. É a falta de empatia que permite que o colega mais forte pegue o lanche do mais fraco. É a falta de empatia que sustenta o conselho “se ele te bateu, bate de volta”. É a falta de empatia que concede a possibilidade de alguém dar um “furo” na fila, seja do cinema ou do caixa, para amigos, sem pensar no restante que está atrás. É a falta de empatia que consente que um cargo seja ocupado pelo mais amigo ao invés do mais competente. É a falta de empatia que consente que se xingue o professor pela frustração em relação aos filhos.  É a falta de empatia que provoca muitos dos roubos, dos sequestros, dos assassinatos.
Ter empatia é difícil. Ainda mais em um mundo que nos exige produtividade e excelência full time. Ter empatia dá trabalho. Faz com que saiamos da confortável posição de exclusividade e enxerguemos o outro. Aliás, mais do que ver o outro, exige que nos coloquemos em seu lugar. Que abandonemos o “egocentrismo infantil de estimação” e olhemos em torno. E olhar em torno causa vertigem. Olhar em torno provoca medo e angústia. Olhar em torno faz com que percebamos que há menos e que há mais do que nós. Olhar em torno faz com que percebamos que há. Há muito. Há muitos.
Mas ter empatia é aprendizado! Ninguém nasce empático. Nos tornamos – ou não. Empatia se ensina, se exercita, se treina. E é imensamente mais fácil quando se é criança. E é ainda mais fácil, quando se é pai ou mãe. Mas ser empático com os próprios filhos, não é mérito algum. Se os filhos nada mais são do que extensão de nós mesmos, estaremos apenas nos cuidando e nos beneficiando.
De seres humanos narcisistas, conectados a tudo e desconectados do outro, já temos um grande contingente. O que precisamos agora é de altruísmo. E quando nos tornamos pais, ganhamos a oportunidade de aprendermos a ser empáticos – se ainda não somos. E a oportunidade de criarmos crianças empáticas – um verdadeiro presente para o mundo! Aproveitemos essa vantagem!
(Texto de julho de 2016, do Jornal Zero Hora)

Lisandra Pioner

Mundo melhor para os filhos ou filhos melhores para o mundo?


Tenho sentido medo do futuro. Sinceramente tenho sentido muito medo... não medo de morrer ou de ficar doente. Meu medo é de permanecer lúcida tempo suficiente para ver o que será do planeta daqui a vinte ou trinta anos. Falo do clima, do excesso de lixo, da miséria, do desemprego, da desonestidade. Mas me refiro principalmente às relações. Já pensou no que será das relações interpessoais daqui a um tempo?
Hoje em dia a tolerância é quase zero. As pessoas se estressam por muito pouco, a condescendência virou artigo de museu, a gentileza caiu em desuso.
Podemos pensar que daqui a décadas estaremos velhinhos e talvez, com a sabedoria que só o tempo traz, tudo isso irá mudar. Mas já pensou que a geração que vai ser adulta nessa mesma época será composta pelas crianças de hoje? E que nós somos seus exemplos?
Me preocupo com crianças que têm como referência adultos que param em fila dupla, passam sinal vermelho, não param na faixa de pedestre, jogam lixo pela janela do carro, não separam o lixo, dão presentes no lugar de presença, humilham o garçom, estacionam na vaga de cadeirante, xingam o porteiro, fazem intriga pelo Whatsapp, espalham mentiras, tentam derrubar o adversário ao invés de tentar superá-lo, fazem pouco caso do esforço dos outros, não compartilham, inventam desculpas para suas falhas e para as falhas de seus filhos, não ajudam quem precisa, são estúpidos com os humildes, desencorajam os ousados, trapaceiam, falam mal pelas costas, exigem dos outros o que não fazem, debocham, ludibriam, são desleais, arrogantes e impulsivos.
Se hoje já percebemos a liquidez das relações, imagine daqui mais um tempo. Quem é que terá paciência para conviver? Para deixar seu egocentrismo em segundo plano e abdicar de sua soberania?
Nossos filhos são filhos e filhas da era do “Vou te processar”, do “Tô pagando pra isso”, do “Se não fizer como eu quero, vou procurar outro lugar”. Não serão eles, com comportamentos assim cristalizados na memória, que modificarão alguma coisa. É preciso começar agora, começar por nós mesmos.

Antes de pensarmos em um mundo melhor para os nossos filhos, será que não é hora de pensarmos em filhos melhores para o nosso mundo?
(Texto publicado em Junho de 2016, no Jornal Zero Hora)

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora

A possibilidade dos pais...


Criamos uma família, organizamos espaços para abrigá-la, passamos por situações agradáveis, por outras complicadas, ou então, simplesmente não idealizamos essa família e ela acontece e nos surpreende!
Então eles chegam de mansinho... aqueles seres minúsculos que abrigamos durante meses dentro da nossa barriga. Tirados de seu primeiro abrigo, já demonstram independência. Se não nas vontades, nas necessidades. Logo estão exibindo que possuem mais do que urgências fisiológicas como fome, sede e dor; possuem sim, vontades individuais e únicas. Possuem seus próprios desejos.
Quando pequenos contornamos a fissura por doces, o sonho por cada brinquedo novo que a televisão mostra ou o amiguinho ostenta, a falta de vontade de escovar os dentes a cada refeição ou de lavar as mãos antes delas. Mas de repente somos surpreendidos por novos anseios – tão grandes quanto sua própria altura ou idade. Eles já estão adolescendo – o florescer do ser humano.
 Amigos que insistimos que não são boas companhias, festas que teimamos em tentar proibir, roupas que olhamos com desdém, celulares que rezamos para que sejam atendidos ao primeiro toque... Quando nos tornamos pais ou mães, se antes sem fé, passamos a acreditar em algo, nem que seja só para pedir proteção a eles.
O que fazer quando eles crescem? O que fazer com aquele pedaço da gente que criou personalidade e volta e meia nos afronta?
Chega um momento que não interessa o quanto somos parceiros, carinhosos, bons ouvintes, animados, modernos, corujas... eles vão preferir os amigos!
Chega uma fase em que não importa quantos conselhos, quantos pedidos, quantas conversas tivemos... eles irão tomar suas próprias decisões (e elas muitas vezes não serão as melhores – Aliás, alguém conhece um outro jeito de aprender a tomar decisões certas sem ser tomando várias erradas antes?).
Esse é o futuro de todos os pais e mães: em algum momento, sentirem-se órfãos de seus próprios filhos! Faz parte do amadurecimento deles enquanto cidadãos do mundo! Faz parte do nosso, enquanto genitores e cuidadores.
Por mais cansativa e batida que seja essa afirmação, devemos repeti-la a nós mesmos todos os dias: Nossos filhos não nos pertencem! Eles criarão asas e voarão, tecendo seus próprios destinos através de suas escolhas (independente de serem boas ou não; independentes de concordarmos ou não; independentes de estarmos perto ou não). Ser mãe e pai é também nos despirmos um pouco da nossa mania de soberania, de propriedade, de superioridade.
Quem pensa que ser mãe ou pai é ser instrutor, não sabe de nada. Na maioria das vezes é ser instruído, ser desacomodado em suas certezas, ser instigado a mudar convicções.
Nossa possibilidade vai até ali, ali onde começa a liberdade de escolha que demos a eles ou os privamos. Por isso a necessidade de ensinar a selecionar, a discernir, a classificar. Dá trabalho, mas vale a pena.

E independente da fé, rezemos sempre! Nessas horas, de uma ajudinha celestial  não se abre mão.
(Texto publicado no Jornal Zero Hora em maio de 2016)

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora