Tuesday, January 31, 2017

Julguem - eu também fiquei com pena do Eike


Me julguem, mas eu fiquei com pena do Eike. Melhor! Não me julguem, porque ao menos eu tenho coragem de expor o que penso e sinto, custe-me o que custar. E num mundo onde a coragem está em desuso, penso que atitudes como essa são dignas, ao menos, de um pouquinho de admiração.
Ontem, assistindo à entrevista do Eike Batista, me vi pensando nas voltas que o mundo dá e no quanto tudo se transforma. Lógico que sei que ele está lá por conta própria! Seja por uma cobiça gigantesca, por uma falta de limites absurda ou pela crença, cada vez mais errônea, de que “não dá nada” nesse país, lá estava um homem que teve, aparentemente, tudo o que um ser humano poderia desejar. Da Lamborghini exibida na sala a uma das mulheres mais desejadas do país ostentando uma coleira com seu nome! Ele teve muito mais do que a maioria esmagadora do Brasil terá na vida. E mesmo assim, senti pena dele.
Logo a piedade cedeu lugar à vergonha por estar tendo aquele sentimento e pensei na população carcerária de pobres que nunca tiveram grandes oportunidades na vida. Quanta dessa gente maltratada pela miséria, discriminação e humilhação é diariamente presa sem termos o menor conhecimento. E quantos desses jamais terão a piedade de alguém e muito menos uma pessoa que escreva sobre o que sente em relação a eles...
Saí da frente da televisão ainda meio incomodada e reflexiva e fui cozinhar. Então meu marido surpreendeu-me dizendo que estava sentindo um pouco de piedade do Eike. E eu pensei “O que faz a gente ter esse sentimento por um cara que tinha infinitamente muito mais que nós –  financeiramente falando – e não termos pelo batedor de carteira sem estudo e abusado na infância” ? Ou melhor! O que nos faz termos sentimentos controversos, como raiva e dó, por ambos, mas darmos importância maior ao Eike?
Então hoje acordei pensando que precisava escrever a respeito disso – mais pra organizar minhas ideias do que qualquer outra coisa –, mas antes passei os olhos pela Zero Hora e o que eu encontro?! A coluna do David Coimbra com o título “Fiquei com pena do Eike”! Confesso que senti uma pontinha de alívio... mais alguém, além do pessoal aqui de casa, sentiu o mesmo.
Penso no que o Eike está pensando sobre os rumos que sua vida vem tomando... Coisas como “Por que fiz essas escolhas?”, “Como cheguei a esse ponto?”, “O que vai acontecer comigo a partir de agora?”, “O que meus filhos – e não estou entrando no mérito de serem inconsequentes ‘filhinhos de papai’, porque não se julga amor fraterno – e as pessoas que me são caras estão pensando de mim?”, devem, em algum momento ter passado pela sua cabeça... Comentando isso com uma amiga, ela logo me deu a seguinte previsão do futuro: “Daqui a alguns dias ele sai da cadeia, e mesmo pobre tem muito mais do que a gente terá pelo resto da vida!”. Talvez ela tenha razão, mas eu ainda acredito que ninguém passa incólume por um presídio. Uns aprendem a serem ainda mais cruéis, outros a se revoltarem contra uma sociedade que tem o despautério de submeter seres humanos a condições desumanas, outros a nunca mais voltarem pra lá. Mas independente do resultado, ninguém passa ileso emocionalmente por uma experiência dessas. Talvez nem nós, meros expectadores.

Lisandra Pioner

Professora, Psicopedagoga e Colunista da ZH

Monday, January 16, 2017

Que você entenda que isso também passa...


Sou fã de frases que, apesar de repetidas, sejam profundas e viscerais, nos tirando do comodismo ou do conformismo apático. Uma dessas frases é “Isso também passa...”! Pensei nela em um dos momentos mais difíceis da minha vida, quando me vi sem emprego e sem saber o que seria do meu futuro, afinal, meu trabalho era o que realmente me caracterizava. Então, a partir daí descobri duas novas lições!
A primeira, foi que essa frase precisava ser repetida nos momentos muito felizes; aqueles em que a gente esquece que a vida é feita de ciclos e que tudo tem início, meio e fim. Desta forma tenho aprendido a não ser apegada a situações; afinal nós não somos, apenas estamos.
A segunda, foi que um trabalho não poderia me caracterizar. Eu poderia fazer uso de boas características em meu emprego, mas não poderia jamais permitir que ele me definisse. Somos muito mais do que uma profissão.
Falando em profissão, me formei em 2002 no curso de Pedagogia, mas este não era o curso que gostaria de fazer naquela época. Queria Psicologia e por uma curiosidade em prestar vestibular pela primeira vez acabei passando e permanecendo. Aproveitei que o curso tinha um preço bem menor do que a maioria e segui estudando, tendo as mensalidades pagas pela minha família. Consigo imaginar o quanto de sonhos pessoais meus pais adiaram por minha causa. Acredito que os ressarci sendo uma boa profissional. Mas ainda assim, tive a oportunidade de lhes agradecer abertamente exatos 15 anos após a minha formatura, por telefone.
Estava em um churrasco onde todos (exceto eu) faziam parte de uma antiga turma de formandos em Administração e a conversa girava em torno das dificuldades que tiveram para pagar as mensalidades. Falaram de crédito educativo, da pilha de docs de pagamento preso à geladeira, das inúmeras vezes que pensaram em desistir. Então me dei conta, na sutileza daquela conversa, de que nunca havia precisado passar por aquilo e na mesma hora peguei o celular e fiz questão de agradecer aos meus pais pelo esforço que fizeram por mim. Isso aconteceu em dezembro e apesar de já passado um tempo, lembro bem da voz do meu pai ao telefone, me ligando na mesma hora para agradecer pela mensagem de gratidão que havia enviado. Mais duas lições: nunca é tarde para ser grato e por mais que a condição não seja ideal, é imprescindível fazer o melhor que podemos.
Outra frase que considero incrível e muito sábia é: “Que você aprenda a descansar ao invés de desistir”. E essa serve para faculdades, empregos, casamentos, dietas, objetivos e até caminhadas! Muitas vezes é aparentemente mais fácil abandonar e tentar um novo começo, mas muitas vezes não é a atitude mais inteligente. O caminho a ser percorrido até a estabilidade e a harmonia costuma ser cheio de desvios, buracos e obstáculos, mas a desistência quase sempre só leva a um novo percurso cheio de desvios, buracos e obstáculos também. Talvez mude um pouco a paisagem, mas os percalços são parte de todo e qualquer trecho que escolhamos. Por isso a importância de aprendermos a parar, tomar fôlego e continuar.
Acredito que uma das coisas mais complicadas da vida sejam os relacionamentos íntimos. Creio nisso por vivência pessoal, por observações e pelas estatísticas. Não é à toa que o número de divórcios é crescente. Um pouco por causa da quantidade imensa de oferta, eu sei... mas muito porque relacionar-se intimamente com alguém nos deixa expostos feito ferida aberta! E essa exposição nos incomoda, algumas vezes nos machuca e muito nos cansa. Então, que possamos descansar da fadiga emocional, recuperarmos a respiração e retornarmos às nossas relações, sem desistir delas.
Que consigamos fazer isso com a dieta em uma ou outra refeição; com nossos empregos, nos dando pequenos intervalos diários; com nossos estudos por um ou dois dias. Isso é dar-nos nova chance, é presentear-nos com viço, é nos permitir recomeçar de onde paramos. Sem boicote, sem engano, sem precisar começar do zero sabendo (lá no fundo) que mais cedo ou mais tarde o cansaço chegará novamente.
E esses são meus desejos para 2017: menos apego, porque tudo é passageiro; mais descansos que evitem a desistência.

Um excelente 2017 a todos nós!

(Texto escrito para o LinkedIn)
Lisandra Pioner