Thursday, June 13, 2019

O dia em que minha filha sofreu cyberbullying...



A gente escuta histórias absurdas por aí, lê outras tantas em redes sociais, fica sabendo de consequências drásticas, relacionadas a pessoas que sofreram bullying... e então, em um dia aparentemente comum, uma história como essas (a princípio tão distantes da nossa realidade), adentra nossa casa...
 Você deve saber o que é cyberbullying. Uma palavra estrangeira, pra explicar um conceito muito conhecido por todos nós: a covardia. O ser humano, dentro das suas imensas limitações emocionais, em muitos momentos transforma sua insegurança, sua inveja, sua cobiça, sua baixa autoestima e até mesmo suas sombras (a parte não muito boa, que todos temos), em ações... e essas ações, muitas vezes são violentas, excludentes e que só demonstram uma fraqueza (emocional, psicológica e de caráter) enorme. Aliás, que outro motivo alguém teria para agir de forma desleal, se não for por se considerar muito fraco?
O Cyberbullying tem a ver com práticas de agressão moral, organizadas por grupos, contra uma determinada pessoa. A intenção geralmente é ridicularizar e/ou perseguir. Com o aumento do uso das redes, essa prática tem se tornado cada vez mais comum – infelizmente. A internet é um oásis pros covardes! Acontece todos os dias, e muitas vezes o jovem que sofre, não conta a ninguém, por medo. E o que pratica, se esconde por trás desse sentimento que causa no outro, e alimenta a crença de que “não vai dar nada”.
Só que independente das motivações psicológicas do praticante, o bullying – seja ele feito através da internet ou cara a cara – deixa marcas. É muito difícil explicar a uma criança, que sofreu uma situação vexatória ou amedrontadora, que a pessoa que o fez, tem “problemas”, que é preciso ter um olhar mais piedoso para com ela... e quando a criança é tua filha, vou dizer que é ainda mais imensamente custoso.
Porém, como acredito que aconteça com tudo nessa vida, uma hora há um retorno, existe uma consequência. E foi exatamente isso que aconteceu no caso da minha filha.
A Maria Antônia vinha demonstrando alguns momentos de maior irritação e tristeza. Volta e meia reclamava de um colega que falava grosserias e de algumas meninas, que a excluíam de momentos na escola. Eu, partidária de tentar sempre incentivar a criança a se resolver sem intervenção de adultos, pedi a ela que tentasse relevar, que procurasse outras meninas, que falasse ao menino que as grosserias dele não eram legais e que ofendiam. Algum tempo depois, mais precisamente na segunda, 3 de junho, ela chegou em casa e me mostrou uma foto que estava circulando pelos grupos de whatsapp dos colegas de escola (com participantes entre 11 e 12 anos – pasmem!). A foto era dela, e em cima da foto, palavras ofensivas que a censura não me permite reproduzir.
Crianças, seja lá por quais razões, escolheram-na para mostrarem ao mundo (e principalmente a suas próprias famílias), que ainda não possuem maturidade para estarem livres, leves (embora leveza não combine nenhum pouco com a situação) e soltas pelo mundo de ninguém, que é o espaço cibernético. Não sei se isso aconteceu outras vezes, mas sei que dessa vez, escolheram a pessoa errada para “brincar”.
A história começou com uma criança envolvida e terminou com quatro! Uma delas criou e passou a um colega e todas as outras repassaram a foto. Entendem? Quem assiste passivamente a situação humilhante de alguém, é conivente. Quem participa,  repassando material abusivo, é cúmplice! Dessas quatro crianças, três foram suspensas da escola. Mas em todas as quatro famílias, houve algo em comum: choro e a fala de que JAMAIS pensaram que seus filhos eram capazes de algo assim.
Será que era preciso chegar a esse ponto?
Quando falo que somos nós, adultos, que precisamos dar as diretrizes e mostrarmos o que é certo e bom e o que é errado e mau, há quem diga que “não há essa necessidade, e que aos poucos as crianças aprendem e também, que não há maldade em ações infantis”. Então vou repetir aqui (e continuarei a repetir para todo, sempre): pode não haver maldade genuína no ato de uma criança, mas isso não a livra de fazer muito mal a uma outra (como no caso que descrevi), porque nesse caso, não é a intenção, mas a ação que vale.
E vou dizer mais! Eu vejo isso nas salas de aula, corredores e pátios de todas as escolas pelas quais já passei... há crianças oprimidas por colegas, há crianças que não têm noção do quanto podem interferir emocionalmente na vida do outro e há adultos que não conseguem passar a noção de empatia e compaixão aos seus pequenos (provavelmente porque também não possuem).
Então pra finalizar, sabe aquela mentira que seu filho lhe contou sobre não ter tema? Sabe aquela vez que você foi chamada na escola para conversar sobre as frases inadequadas ditas a vários coleguinhas? E aquelas vezes em que ele levou materiais dos colegas escondidos na mochila? Pois é... se você não explicar que é errado, ele não vai descobrir sozinho. E pior! Quando esses pequenos atos começarem a ser proporcionais a sua idade, vai acabar descobrindo através dos outros (geralmente sem nada de amorosidade) que tudo na vida tem uma consequência. Tudo mesmo.


Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga