Saturday, March 30, 2024

Meu pai...

 


Sabe aquele papo de que num leito de hospital o que juntamos na vida não faz a menor diferença? Aquela conversinha de que ali nos tornamos apenas um corpo frágil que só tem espaço pra carregar as lembranças do que vivenciou? Que na cama de um hospital o que mais se houve ou se sente é a lamentação de uma vida que deveria ter sido muito mais do que foi? Aquele blá-blá-blá de que a saudade que bate não é da casa enorme, do carro impecável, do emprego invejável... mas do final de semana sentado na área de casa jogando conversa fora; dos finais de semana indo pra praia com as crianças gritando no banco de trás e fazendo farelo com bolacha; do abraço apertado, do olho no olho e da frase “conta comigo sempre!”; da mesa cheia de gente querida, rindo de qualquer coisa... sabe esse blá-bláblá? TUDO VERDADE. Quando vi meu pai entubado na UTI, com a fragilidade indigna a um pai como ele, eu só senti muito por não ter aprendido a dizer que o amava, e por eu jamais ter ouvido essa frase da boca dele.

Meu pai foi um cara pobre. Engraxate no centro. Guri que apanhava do pai de relho. Filho de um homem que comia queijo escondido e dava farinha aos filhos e à mulher. Cresceu com a certeza da dureza da vida e aprendeu sozinho a se virar.

Meu pai foi um homem que acordava antes de todos e dormia depois. Trabalhava sábados, domingos e feriados – quando o domingo era dia sagrado pro comércio. Teve carro, quando isso era artigo de luxo. Teve moto quando quase ninguém tinha. Construiu -  ele mesmo construiu – sua primeira casa de veraneio em Quintão – onde passei praticamente todos os verões da minha adolescência.

Nunca vi meu pai cansado. Nunca ouvi meu pai reclamar. Fazia aquele discurso de “joga uma água na cara e vamos lá”. Jamais parava pra descansar.

Foi o pai que fazia “cosquinha”, me colocava na “cagunda” e corria comigo pela casa – com a voz da minha mãe ao fundo “Vão se machucar!”. Foi o pai que nunca deixou faltar comida em casa e ainda tinha Flan na geladeira, Coca de garrafa de vidro aos finais de semana e até Nescau – parece o mínimo, mas nos anos 80 e 90 isso era luxo. Pagou colégio particular até meu 6º ano. Me levou muitas vezes de moto ao Julinho – meu colégio no Ensino Médio.

Foi o pai provedor – embora minha mãe também trabalhasse –, divertido e que jamais levantou a mão pra mim durante minha infância -  era nítido que suas maiores dores tinham sido apanhar e passar fome, e ele não queria isso pra mim.

Quando me tornei adolescente nos afastamos. E nunca mais nos reencontramos como antes... é difícil ser pai/mãe de adolescentes. Aliás, quando entrei na faculdade, minha intenção era exatamente a de ajudar os adolescentes a passarem por essa fase tão solitária e estranha. Meu pai pagou minha faculdade de Pedagogia – mesmo sendo contra fazer faculdade – e meu pós em Psicopedagogia. Ele concluiu o Ensino Fundamental e o Médio depois de adulto. Naquela época, concurso público era o que de mais promissor poderia haver para um futuro confortável e tranquilo. Eu, no auge da minha ignorância juvenil, recusei todos os conselhos. Fui fazer faculdade e jamais prestei um concurso.

Meu pai foi um pai que deu comida e estudo – muito mais do que seu próprio pai havia lhe dado – e tinha certeza de que isso bastava. Não facilitava muito as coisas... nunca me emprestou seu carro, não deixava eu levar amigos pra casa da praia, ficava de cara feia quando eu queria sair. Aliás, meu pai conseguia ficar dias e dias sem falar com ninguém quando estava brabo. Por anos achei que isso era controle emocional.

Meu pai foi um grande crítico de quem não conseguia crescer na vida – porque ele, a duras penas conseguiu. Não abraçava, não falava de sentimentos... minha vida inteira só abracei meus pais em aniversário, Natal e Réveillon. Se eu ouvi “Eu te amo” de algum deles, foi numa infância muito remota – porque não lembro.

Aos 26 anos, quando engravidei da Maria Antônia, ele ficou 6 meses sem olhar pra mim. Eu rezava todos os dias para que ele tratasse a minha filha com amor, que não a ignorasse como fazia comigo. Então ela nasceu, e ele foi o melhor avô que eu poderia desejar. O mais amoroso, o mais preocupado, o mais acolhedor, o mais tranquilo, o mais paciente, o mais parceiro, o mais presente. Apesar de eu ter conhecido uma versão muito especial do meu pai durante a minha infância, ele conseguiu ser ainda melhor pra minha filha!

Quando decidi me mudar pra minha primeira casa – um porão dos parentes de uma colega -, apesar de não ser o que meu pai sonhava pra mim, foi conhecer o lugar e me deu um fogão de presente.

Quando comprei meu primeiro carro – foi zero km, porque sabia que isso era o certo pra ele – eu só pensava na alegria que ele teria de saber que eu consegui adquirir algo na vida. E realmente... acho que foi o dia que ele mais sentiu orgulho de mim.

Quando alguma coisa estava precisando de conserto na minha casa, era a ele que eu recorria. Ele ia reclamando do início ao fim, mas sempre me ajudava.

Com a vida adulta, os compromissos, as dificuldades, algumas dores ressurgindo, fomos nos distanciando mais e mais. Nosso distanciamento é proporcional as nossas semelhanças – porque somos muito parecidos! Como é difícil ser emocional... então a gente finge que não é. Só que a vida cobra um preço pra tudo, inclusive pra isso. Não há saúde – nem física, nem mental – que suporte uma vida de coração enrijecido – seja pelo medo, pelo rancor, pela falta de perdão, pela culpa, pela mágoa. Não importa o motivo, não há corpo, mente ou espírito que não sucumba a uma vida mal vivida.

Eu não sei exatamente o motivo – ou sei –, mas eu tenho um olhar muito mais condescendente, amoroso e solidário para o meu pai – se comparado a minha mãe. Acho que porque – mesmo sem ter tido a intenção – ela me privou de ter um pai protetor. Quando a minha mãe descobriu que eu era uma criança que sofria abuso e decidiu nunca contar ao meu pai, além de me proibir de contar pra qualquer pessoa, ela me impediu de aprender a precisar do outro, a descansar na proteção e cuidado de alguém. Quando ela não deixou que meu pai soubesse e escolhesse o que fazer com aquela informação, ela privou nós dois de sabermos qual a sensação dos papéis de protetor e protegida. E até hoje eu não sei o que é isso. Eu me defendo sozinha de tudo o que a vida me traz – ou eu busco – de ruim.

Esse olhar mais generoso com ele, certamente também vem do pedido de desculpas mais genuíno e verdadeiro que eu já ouvi – e que foi dele! Ele pediu desculpas por ter ficado meses sem falar comigo durante a minha gravidez! Quando meu pai se mostrou humilde e falível, eu aprendi que ele era muito mais forte do que eu pensava.

Hoje meu pai está na UTI de um hospital público. O carro automático e com bancos de couro bege que ele conquistou, está parado na garagem. A casa de Pinhal, com 3 pisos que se enxerga o mar, está vazia e se deteriorando. A casa de Porto Alegre precisa de manutenção. Ele não esgotou as viagens que poderia ter feito. Não comeu nos restaurantes que teve vontade. Deixou de usar roupas novas esperando ocasiões mais especiais. Andou muito mais vezes de ônibus do que precisava – pra não usar o carro que sempre esteve lá.

Ontem ele não reconheceu a Tônia – disse que não tinha neta. Hoje me recebeu com um olhar assustado e disse algumas frases do tipo: “O que tu tá fazendo aqui? Pra onde tu vai depois? Onde tu tá trabalhando” – eram as conversas que tivemos por anos e anos – rasas como um pires... Cochilava, acordava e repetia muitas vezes “É difícil... é brabo...”, como se estivesse lembrando de coisas que aconteceram e verbalizando a conclusão que chegava. Então nos minutos finais da visita, depois de mais um cochilo, ele me olhou e perguntou:

“E O QUE QUE A GENTE FAZ PRA SE DAR BEM NA VIDA?”

Eu juro por tudo o que há de mais sagrado que ele fez exatamente essa pergunta. Assim, do nada...

Pai, infelizmente eu não sei essa resposta. Mas tenho certeza de que não é “fazer tudo ao contrário do que tu fez”, porque eu sou a prova disso. Talvez seja aprender a mudar – as ideias, a rota, as certezas –, porque como já disse o Cortella, mudar pode ser complicado, mas acomodar, é perecer.

(Desde 2001, quando ouvi Epitáfio, do Titãs, pela primeira vez, pedi a Deus pra que essa não fosse a minha trilha sonora na velhice ou no leito de morte. Nem cheguei nessa fase ainda, mas ela tem surgido, meio tímida, na minha lembrança.)