Monday, December 01, 2014

Fragilidades e vida real (Texto Zero Hora - 29/11/2014)


Texto na íntegra:
Se eu precisasse mencionar apenas uma coisa que nunca concordei em relação à educação, seria o excesso de condescendência das escolas em relação a comportamentos inadequados. Calma! Não estou sugerindo aqui, o emprego do regime militar em todas as escolas do Brasil, mas se me permitem uma opinião da qual tenho grande convicção, é a de que estamos sendo condescendentes demais, generosos demais, libertinos demais, lascivos demais, benevolentes demais.
Entendo perfeitamente que o novo estilo de vida contemporânea, fez com que muitas coisas modificassem – inclusive a forma de encararmos a própria vida! Perdemos um pouco da direção, fomos além do que imaginávamos, ganhamos oportunidades nunca sonhadas e nos confundimos com tantas opções... tudo isso está tendo consequências importantíssimas. Estamos produzindo uma nova geração, com características muito singulares e específicas.
Mais do que nunca, tenho observado a infância com olhos de espanto – e que fique bem claro que não são os olhos infantis que estão espantados; são os meus! Tenho visto pequenos seres dignos de todo o amor do mundo, intolerantes a tudo de real que há. E cada vez mais, tenho percebido pais perdidos, culpados, devastados pela dor da distância (que a modernidade trouxe no pacote intitulado “Oportunidade”). E mais! A escola, lugar onde, a princípio, se deveria encaminhar tanta angústia e desorientação, está sendo conivente com tamanho desequilíbrio.
Crianças que gritam com os professores, escondem-se embaixo das classes, fogem da sala, coagem colegas, choram por ter a atenção chamada, decidem trocar de turma e até de colégio, debocham do que lhes parece incomum, desperdiçam materiais e tempo, e algumas vezes até agridem aqueles que ousam lhes desagradar, é cada vez mais comum! Não precisamos fazer parte das instituições para sabermos disso, pois basta abrirmos um jornal ou um site de notícias, que volta e meia estão estampadas manchetes de jovens (crianças e adolescentes) que sucumbiram à pressão da vida real e foram “às vias de fato”! Ou mesmo, basta ouvir um pouco das conversas de corredor quando vamos buscar os filhos na escola... geralmente todos sabem sobre “aquele coleguinha” que tem “um gênio difícil”. Rótulos!
O que fazem os pais? Se autoflagelam e transbordam desculpas; embora haja aqueles que consideram até “bonitinho” a falta de postura, pois retrata uma “personalidade forte” – às vezes me questiono se falta de educação também mudou de nome juntamente com todas as transformações modernas...
O que fazem muitas escolas? Observam. Apagam incêndios. Perdoam. Encaminham para um profissional da área da Psicologia ou Psiquiatria, que muitas vezes entopem os pobrezinhos de medicamento, quando na verdade precisavam apenas de organização e limite. Ou ainda, dão mais uma chance – ou duas, ou três, ou todas as que forem necessárias até o indivíduo se lançar para a faculdade.
Muitas dessas crianças passam de série em série com as recomendações necessárias, como: “Esse, embora não tenha nenhum diagnóstico, tem muitas questões emocionais...” e blábláblá. E então, mais um ano torturante passa. Ao final dele, mais recomendações –  já que as questões emocionais familiares somam-se às individuais, afinal, o pequeno não é mais tão pequeno assim – e lá vai o “professor-terapeuta” tomar conta daquele ser, rezando todas as noites para ter discernimento sobre o que fazer e a melhor forma e momento de agir.
Eu sou defensora de carteirinha do respeito – e até do incentivo – às diferenças, mas acima de tudo, sou defensora ferrenha do direito de aprender a ser forte e responsável por si mesmo.
Que seres estamos criando? Seres dependentes da nossa condescendência perpétua? Seres que precisarão da nossa eterna ressalva (Olha... ele é uma criança excelente, MAS...) ? Me desculpa, mas isso é egoísmo! Quero que meus alunos, meus pacientes, minhas crianças sejam autônomas, determinadas, independentes. Quero que não precisem de mim. Isso sim é amor: dar asas e apenas orientar o voo, como já dizia o poeta. Mas é orientar o voo! As crianças e jovens precisam de orientação. Chega de pensarmos que preparar para o vestibular é o essencial, porque ninguém está preparando para a vida – e isso sim é indispensável.
A vida, fora das paredes da nossa casa e da escola, é muitas vezes fria e cruel. O transeunte que cruza o caminho do seu filho em um dia que ele não está bem, não se interessará nem um pouco se ele tem problemas na família ou está sofrendo. O entrevistador do emprego dos sonhos da sua filha não está nem aí se justamente no dia da entrevista ela se sentiu triste ou se frustrou.
O mundo está pronto pra esmagar quem não tiver inteligência emocional. Não há pai, mãe, orientadora educacional, professor, psicopedagoga, psicólogo ou psiquiatra que poderá intervir na vida real. Aqui, do lado de fora, cada um precisa ser protagonista de sua própria vida e destino, saber fazer escolhas e se responsabilizar por elas.
Ensine e estimule seu filho a lidar com suas emoções e responsabilize-o pelas consequências de seus atos. Essa é uma herança impagável! E lembre-se de que é uma herança vitalícia – tanto na doação, quanto na colheita dos doces frutos!
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e colunista da Zero Hora

Wednesday, November 05, 2014

Aparência X Competência


Até que ponto a aparência influencia a opinião das pessoas?
Tenho me dedicado a um estudo sobre até que ponto a aparência das pessoas – cabelo,  roupas, maquiagem, tatuagens – pode influenciar no conceito que os outros possuem.
Ouvi opiniões, li inúmeros artigos, criei minhas próprias teses acerca do tema e repasso a seguir, o que ficou de todo o trabalho.
As pessoas ainda se importam muito com a ilusão da figura, com a imagem. Gostam de ver e até comentar a respeito daquilo que lhes agrada os olhos. Isso não significa, necessariamente, que falem mal ou pensem mal sobre o que lhes desagrada.
Se interessam muito, principalmente as mulheres, sobre a forma com que alguém que lhes presta um serviço, se ornamenta. Mas não estou falando de unhas bem feitas e cabelos presos ao trabalharem diretamente com alimentos, por exemplo. Me refiro a saltos, roupas bonitas, cabelo bem cuidado, acessórios de bom gosto. Mas também não me refiro a fazerem questão de observarem outras mulheres assim. Pelo contrário! É muito importante que as mulheres que prestam algum tipo de serviço a outras mulheres saibam que jamais devem parecer entenderem de algo tão “fútil” quanto tendências da estação – principalmente se não trabalham em lojas ou não são estilistas. Se lidarem com Educação, Medicina (exceto a estética, que exige o contrário), Filosofia, Gastronomia ou qualquer assunto que não tenha absolutamente nenhuma ligação com aparência, é bom que se cubram dos pés à cabeça e que apenas mantenham-se limpas e livres de odores. A não ser que não queiram manter seus empregos. Mas daí é uma outra questão.
Empresas admitem optar por um candidato de melhor aparência, quando ambos possuem a mesma competência. E aí incorrem dois grandes erros. O primeiro, em valorizarem tanto o exterior, o que causa exclusão de muitos. O segundo, em não perceberem que por trás dessa afirmação existe um preconceito imenso, até porque competência é algo muito pessoal... ninguém terá exatamente a mesma competência que outra pessoa. Sabemos, desde sempre, que uns possuem maiores habilidades para umas coisas, e outros, para outras coisas. Competência e habilidade são espécies de impressão digital!
E por fim, até onde a aparência é motivo de credibilidade?
Por mais incrível que pareça, em pleno século 21,  estamos na tão sonhada época do “tudo pode” – mas que fique bem claro que é somente no que tange à teoria. Nem pensar em sair exercendo seus direitos por aí. Porque temos direitos, sim. Mas a liberdade de exercê-los, vai tão somente até a liberdade do outro de julgarem-nos. E essa liberdade pode ser devastadora!
Roupa bonita pode, desde que não seja mais bonita que a de seu cliente. Muita frivolidade pensar em moda, né? Esse profissional não poderia ser levado a sério...
Tatuagem pode, desde que seja delicada e muito discreta. Ai daquele que ousar mostrar sua personalidade através de rabiscos sobre pele. Isso é coisa de “desclassificado”. Imagina se alguém inteligente será tatuado?
Essas observações não foram feitas nos anos 20. São comentários de contemporâneos como eu e você. Comentários que escancaram preconceito e discriminação. E que esfregam na cara da sociedade, a intolerância.
Após semanas de estudo, só desejo que o conservadorismo seja uma possibilidade pouco utilizada, e que as diferenças sejam mais aceitas e respeitadas, pois são elas que produzem grandes feitos!
Como as pessoas se vestem, que cabelo usam, se possuem ou não o corpo tatuado, se entendem ou não de moda... isso são apenas detalhes da personalidade das pessoas. A bondade, o amor, a inteligência, a competência e a dedicação não se medem nesses pormenores. Já o preconceito estampado em algumas manifestações, diz muito sobre quem você é.



Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Sunday, November 02, 2014

Texto Zero Hora, de 1º de novembro

A necessidade de se ser criança, enquanto se é criança

Basta estudar um pouco da história da humanidade para nos depararmos com as mais diversas interpretações da infância, dependendo da época e da origem do povo em referência. O que me faz acreditar que o sentido dessa fase é dado conforme a cultura e o conhecimento das pessoas.
Vivemos em pleno século XXI e as indagações acerca de como lidar com a infância – e os infantes – prosseguem. Aliás, isso é ótimo! Porque são exatamente as dúvidas que nos fazem progredir em relação aos mais diferentes assuntos. As certezas nos boicotam, pois não nos impulsionam à busca de novas visões, novas propostas, novos desafios.
Porém, tanto a Ciência quanto a Educação progrediram muito e exatamente por isso, não temos mais o direito de fazer “ensaios” com nossas crianças. Já há formas de prevermos, embasadas em estudos, as consequências de determinados experimentos.
Uma das coisas que tem se contestado cada dia mais, é a importância de se viver efetivamente a infância, de se ser criança, na fase certa. E mesmo o conhecimento e as informações sendo cada dia mais acessíveis ao grande público, ainda observo famílias transbordando de vaidade ao se depararem com seus pequenos de, não mais do que 4 aninhos, lendo. Eles mal sabem pular num pé só, não têm a menor noção de lateralidade, não abotoam suas camisas, muito menos amarram seus cadarços, mas... já “leem”! E lá correm os pais, ansiosamente exultantes, às redes sociais para gritarem a todos que possuem um pequeno gênio como descendente. Lamento por quem acha que juntar sílabas é ler e – mais ainda –  por quem não sabe que existe uma infinidade de pré-requisitos para que se aprenda a ler de forma competente.
As crianças já não podem mais brincar na rua, como antigamente – muito se perdeu em convivência e amizades – e agora, não satisfeitos, daremos continuidade a uma geração de  decodificadores da língua que só usam sapatos com velcro!
Lógico que o exagero acima não passa de uma metáfora, mas tirando os excessos, não podemos ser coniventes com uma alfabetização tão falha, que inicia com a criança aprendendo a consciência fonêmica e, em idade escolar, vai para uma instituição aprender a brincar! É disso que as crianças estão sentindo falta: menos formalidade e mais ludicidade!
Antes de ler, a criança precisa de um aparato íntegro e harmonioso de habilidades físicas, neurológicas e emocionais. Precisam trabalhar percepção, esquema corporal e temporal, entre tantos outros pontos. Portanto, antes de se vangloriar quando seu pequeno começar a juntar letrinhas, verifique o quanto de autonomia e espontaneidade infantil ele ainda possui. Se sua resposta for “pouca”, é hora de lhe oportunizar vivências infantis.
Permita que sua criança brinque, aproveite, arrisque-se, faça uso de todo o seu potencial corporal – ajudará muito (e em tudo)!

Lisandra Pioner
Pedagoga e Psicopedagoga

Monday, October 27, 2014

A eleição da ignorância

Mais do que por uma disputa acirrada, o 2º turno de 2014 entrará para a história por ter sido uma das eleições cujo povo agiu com a maior ignorância (verbal) de todos os tempos (talvez a maior, até agora)!
A Internet concedeu um poder a todos, sem distinção, mas que muitos não têm condições de fazer uso. As redes sociais bombardearam propaganda política e eu juro que nunca tinha lido tanta bobagem junta. Um pouco pela necessidade escancarada de alguns em denegrir a imagem do outro; um pouco em quase exigirem que todos pensem igual; e outro pouco em passar adiante mentiras tão grosseiras de ambos os candidatos, que quando eu lia, não sabia se era ingenuidade, ignorância ou maldade mesmo.
A democracia ficou apenas nas urnas, pois no âmbito social ela passou longe. Opinar ninguém podia, ou virava uma mesa redonda de discussões virtuais. As pessoas, não contentes em poderem mostrar o que pensavam, se sentiam impelidas a desrespeitar opiniões diferentes das suas. O espaço de cada um, na própria Internet, era ignorado. Alguns não se sentiam satisfeitos em usarem as suas próprias páginas, então precisavam comentar ironias em páginas alheias.
Creio que nunca se discutiu tanto sobre pontos de vista distintos, como se não estivesse de bom tamanho a oportunidade de mostrar o que se pensa e sente, na urna.
Mais do que ser livre para escolher, observei a necessidade de inibir a liberdade do outro – como se cada um se sentisse o dono da verdade! Creio que nunca se mostrou tanto egocentrismo junto.
Sabemos que o Brasil precisa melhorar muito. Sabemos que é absolutamente impossível agradar a todos. Sabemos que muitos sairiam descontentes dessa disputa (como acontece em todas as competições), independente de quem fosse o vitorioso. Mas não contentes com a frustração, alguns partidários do candidato derrotado, desde ontem bombardeia as redes novamente. Mas agora, com manifestações do tipo: “Esse povo tem mais é que se dar mal”, “Agora não terei mais pena quando vir o povo sofrendo”, “Povo burro”... Lamento muito ler esse tipo de coisa. Pra mim, burro é quem não sabe perder e ainda por cima desrespeita o outro.
Lisandra Pioner

Sunday, September 28, 2014

Homossexualismo e Infância


Em nossa sociedade, cada dia é mais comum nos depararmos com casais homossexuais nos mais diferentes ambientes. A própria Justiça tem sido a favor de uniões estáveis entre esses casais, respondendo a uma demanda social crescente. Então como podemos esconder isso das crianças? É aí que reside a grande questão! Não devemos esconder! Mascarar ou ocultar informações das crianças é uma forma de negar a elas um direito; o direito ao conhecimento.
A tendência é que as crianças reproduzam os valores passados por seus cuidadores, ou seja, se conviverem com pessoas intolerantes e preconceituosas, têm grandes chances de tornarem-se assim. Porém, se conviverem em um ambiente familiar onde a informação é transmitida com responsabilidade, cuidado e atenção, estarão inclinadas a aceitarem e considerarem natural o que está sendo passado a elas.
Embora seja um assunto polêmico por mexer com nossas crenças e valores, não pode ser ignorado, pois está cada vez mais em destaque, principalmente na mídia. Então como e quando falar?
Com naturalidade! Quando bem pequenas, as crianças não dispõem de juízo de valor. Elas recebem a realidade e a acolhem com simplicidade. São os adultos que sinalizam quando determinada situação é errada. Mais tarde, em torno dos 6/7 anos de idade, quando já começam a questionar determinadas situações, é o momento de então esclarecer as dúvidas que possuem. Ou seja, o adulto não deve antecipar ou repassar informações desnecessárias, mas quando a curiosidade surgir, deve esclarecê-la, sim.
Ensinar o respeito ao próximo e mostrar que a estrutura familiar mudou, é obrigação de quem convive com crianças. E isso não se restringe ao ambiente familiar. É também papel da escola esclarecer essas situações, sem julgar. Devemos mostrar às crianças que existe o livre arbítrio, onde cada ser faz suas escolhas e se responsabiliza por elas.
O mesmo deve ocorrer quando os cuidadores percebem uma “tendência” ao homossexualismo em alguma criança. A dificuldade de lidar com nossos próprios sentimentos diante disso é que nos impede de tratarmos o assunto com neutralidade, mas devemos pensar, em primeiro lugar, nesse ser humano. Independente de estarmos de acordo ou não, é um fato que pode ocorrer em qualquer família. E o que deve ser considerado nesses casos, é como proteger essa criança de situações que possam fazê-la sofrer, porque embora esse assunto esteja cada vez mais presente em nossa rotina, ainda há muito preconceito. Então o que se deve fazer? Fortalecer essa criança para que ela aprenda a lidar com situações adversas, provocações, ignorância e momentos delicados. Mas é importante ressaltar que isso deve ser feito com todas as crianças! Fortalecê-las também é obrigação de nós, adultos, independente da condição sexual que prevemos para elas. Ainda é importante dizer que não há tratamento para o homossexualismo, pois não se trata de uma doença. E é essencial que as pessoas, mais do que aceitem o outro, se aceitem como são. É aí que reside a felicidade: em se aprovar, se admitir e se consentir a ser exatamente como se é – tentando sempre se aprimorar, mas enquanto caráter e hábitos e não enquanto condição sexual, porque não é isso que faz de alguém melhor ou pior.
Quando somos pais ou professores, nosso foco tem que ser ver nossos pequenos felizes – quando adultos, donos de suas próprias histórias; independente disso acontecer da forma como gostaríamos ou da forma que eles considerarem a certa. Isso é desprendimento, altruísmo e amor verdadeiro.
Lisandra Pioner
Pedagoga, psicopedagoga e escritora
(Texto publicado no Jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen, no dia 27 de setembro de 2014)

Tuesday, September 09, 2014

Texto Zero Hora (agosto/2014)




Dia dos pais é uma data onde inevitavelmente lembro-me da infância – da minha, principalmente. Infância tão diferente das que vejo hoje em dia… Eu, que lido diariamente com muitas delas, percebo o quanto são diferentes de mim, quando criança. Algumas semelhanças existem, obviamente! Mas a essência se perdeu um pouco.
Crianças, na minha época, eram crianças até os dez, doze anos! E eram crianças mesmo, como pede uma infância saudável. Crianças que brincavam de boneca com toda aquela parafernália que adorávamos carregar pra baixo e pra cima, vizinhança afora. Os vizinhos não eram apenas vizinhos: eram amigos. E era lá, na casa do “vizinho-amigo” que passávamos as tardes brincando e fazendo um lanchinho nos intervalos.
Antes de anoitecer, todos estávamos em casa para o banho, o jantar e o sono. Meus pais não ligavam para o meu celular. Aliás, não havia celular naquela época. Nós, crianças, passávamos o dia incomunicáveis, e ninguém recorria à polícia por esse motivo. Tínhamos uma liberdade maior, uma responsabilidade maior e uma credibilidade maior.
As facilidades do mundo moderno fizeram das crianças, seres frágeis e pouco verossímeis. E mais: seres de uma urgência impressionante!
Durante a minha infância, mais do que esperar a noite para falar com meu pai, eu precisava esperar o aniversário para ter uma festa, as férias de verão para ir à praia, o término da época de provas para poder voltar a brincar a tarde inteira na rua, o Natal ou o dia das crianças para ganhar um presente... Era a espera que nos fazia ter os olhos brilhando – mais do que o próprio presente! Almejar era o que nos causava frio na barriga. Ganhar um brinquedo e pegar o encarte que vinha na caixa para desejar o próximo, e calcular quando haveria uma nova data comemorativa para ganhá-lo, era o que nos movia.
O desejo e a capacidade de espera fizeram grande diferença na personalidade de quem viveu a infância na mesma época que eu.
E lógico que não pretendo propor que voltemos àquela época quase que “remota”, de um passado “distante”, mas o resgate do desejo e da capacidade de espera, é muito importante. E podemos fazê-lo a todo momento, nos pequenos detalhes do dia a dia. Como pais, como professores, como cuidadores…
Exigir que se espere na fila, que aguarde a sua vez de falar, que se coloque no lugar do outro e avalie se sua ação foi boa, que escolha um brinquedo apenas, que aguarde uma nova data especial para ganhar um presente de maior valor, que não leve para a escola brinquedos frágeis, que opte por um lanche com sobremesa ou um cinema com pipoca, enfim… são coisas pequenas, que fazem uma diferença enorme quando eles forem como nós: adultos. Quando não nos terão mais por perto tomando partido ou intervindo para desfazer mal entendidos.  
Dia dos pais serve pra isso também. Mais do que pra dar um abraço apertado e agradecer pelo que fizeram por nós, serve para relembrarmos o que fizeram de tão bom, que podemos repeir com nossos filhos.
Hoje, quase dia dos pais, me dou conta de que me tornei uma adulta. E embora como adulta ainda tenha um pai, não o tenho todos os dias... Não vejo meu pai todos as manhãs quando acordo, ele não me leva mais na escola, não me cobra estudo e boas notas, não me compra guloseimas, nem me pede para parar de cutucar seu banco enquanto dirige. A infância se foi e sobrou um pai que ocupa um novo lugar na minha vida. Meu pai deixou de ser, aos meus olhos, um ser meio divino, intocável, quase sagrado e passou a ser um cara mais simples, mais humano. Apenas um bom exemplo. E esse “apenas” é muito maior do que tudo que eu poderia sentir.
Ele deixou de ser tão presente enquanto presença física, mas grande parte do que eu sou, devo a ele. É isso que desejo a todos os pais nesse dia: que se façam presente, positivamente, na vida dos filhos, mesmo quando não puderem mais estar no comando de suas vidas. Que ensinem seus pequenos a serem protagonistas bem sucedidos de seus destinos.
Esse é o maior legado que um bom pai pode deixar. No dia dos pais, presenteie seu filho!
Lisandra Pioner

Texto Zero Hora (setembro/2014)


Escola de Pais
Gostaria de iniciar a coluna deste sábado fazendo um pedido muito especial: se desejarem ser pais ou mães, se preparem para isso tanto quanto se preparariam para assumir um cargo importantíssimo e de uma responsabilidade singular. O cargo de suas vidas!
Infelizmente não temos vestibular ou seleção para maternidade e paternidade, sem contar que organicamente podemos sê-lo praticamente crianças ainda, mas isso não nos dá o direito de colocarmos uma nova vida no mundo. Porque ser mãe ou pai vai muito além de termos capacidade de gerar e de suprir financeiramente uma criança. Precisamos ter capacidade de provê-la emocionalmente. E para isso, é necessário estarmos inteiros, supridos de nós mesmos, imunes à corrosão de nossas frustrações e aos danos causados pela negação da realidade dura.
Estamos vivendo uma nova era em relação às mais diversas áreas. A maioria esmagadora da população adulta sai para trabalhar, portanto tem menos tempo para questões do cotidiano doméstico – e se inclui aí, tempo para os filhos. Essa escassez de tempo tem uma repercussão quase que imediata no desenvolvimento emocional e até mesmo educacional das crianças. Porém, o reflexo imediato não é o mais preocupante. O que realmente merece um olhar ainda mais atento é a somatização de todas essas “repercussões” e o que isso pode ocasionar em um futuro (não tão distante).
Já é sabido pela maioria das pessoas, que qualidade de tempo não se mede necessariamente pela quantidade de horas que passamos com nossos pequenos, mas sim, por toda a dedicação e troca que fazemos naquelas poucas horas que estamos juntos. No entanto, da mesma maneira que não se faz um bom estudante ou um bom profissional sem perseverança, também não se fazem bons pais, sem a dedicação de tempo exclusivo e irrestrito. E essa tomada de responsabilidade para si, que pais conscientes devem fazer, não auxilia apenas a criança, mas também os próprios pais, que muito evoluem ao assumirem seus compromissos parentais.
A construção da personalidade e do caráter e os valores sociais e culturais se formam, em grande parte, na infância. Portanto, essa terceirização generalizada das crianças terá consequências sérias. E nós, profissionais das áreas da Educação e Psicologia, já estamos sentindo.
A oferta de modelos e referências de comportamento, o estabelecimento de limites e bons hábitos, a preparação para a autonomia, o ensinamento de tarefas simples e indispensáveis como falar, comer e fazer a higiene, a criação de uma rotina e o estímulo à socialização saudável, são apenas algumas das responsabilidades de pais e mães que, se estiverem ausentes enquanto presença física, estarão legitimando sua irresponsabilidade diante do compromisso com uma vida. Isso chama-se negligência. E a negligência de hoje, cobrará juros altíssimos amanhã.
Temos assistido a um número surpreendente e preocupante de crianças sendo encaminhadas a atendimentos especializados não por causas orgânicas e genéticas, mas em função de um meio empobrecido de estímulos, regras e organização. Não é pequena a porcentagem de vezes que precisamos, mais do que organizar a vida da criança, auxiliar os pais nessa estruturação. Mas o mais adequado seria, sem dúvida, fazermos isso anteriormente à existência desse pequeno ser. Se progredimos em tantos âmbitos, prevendo acontecimentos dos mais variados, por que temos que expor um outro ser humano a experiências? Será que não podemos antecipar os fatos, impedindo que nossos próprios filhos sejam cobaias de nossas habilidades enquanto cuidadores?
Nos preparamos para uma entrevista, para uma seleção de emprego, para um concurso, para um primeiro encontro, para uma banca de mestrado, para uma cirurgia, para fazermos uma compra, até para irmos ao médico! Então por que não nos preparamos para encarar essa jornada encantadora e ao mesmo tempo árdua e séria, com integridade, retidão, lisura e prazer (que também é indispensável)?
Mais do que as crianças, os pais estão precisando de escola. Já demonstramos aptidão para o “cargo” quando assumimos uma postura de aprendizes. Portanto, preparem-se: antes e durante essa nobre missão!

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Texto Zero Hora (Junho/2014)

A era do desequilíbrio

Sempre pensei que o silêncio tudo tinha a ver com reflexão. Não que todo o silêncio esconda um raciocínio atento, mas certamente não há meditação, sem paz. E aí está o problema! Como refletir em meio a tanto estardalhaço?!
Vivemos em uma sociedade onde o sistema judiciário precisa intervir até mesmo na forma com que famílias educam seus filhos. Aliás, o que é a “Lei da Palmada”? Lógico que não sou a favor de que se bata em crianças. Óbvio que tenho certeza absoluta de que é possível educar um ser humano sem que seja necessário  levantar um dedo sequer. Mas o que me chama a atenção é a incompetência em gerirmos nossos próprios atos cotidianos. Vivemos descompensados! Não estamos dando conta das nossas obrigações básicas. Precisamos que nos fiscalizem para que não sucumbamos à desordem generalizada.
Exigimos que nossos filhos sejam educados à mesa, mas em casa damos comida na boca. Queremos que na escola sejam autônomos em relação a suas necessidades fisiológicas, mas na tranquilidade do nosso lar fazemos a higiene por ele. Solicitamos que respeitem os professores, mas na hora em que enxergamos o tema de casa verbalizamos em alto e bom som que a professora “perdeu a noção”, tamanha a quantidade de tarefas. Obrigamos a colaborar na arrumação do quarto do amiguinho, mas quem organiza sua caixa de brinquedos somos nós. Chamamos sua atenção para que sejam gentis, mas xingamos o motorista que nos corta a frente. Pedimos para que sejam honestos, mas não devolvemos o troco que recebemos a mais. Quremos que sejam responsáveis, mas organizamos por eles os materiais do dia seguinte na mochila. Fazemos questão de que tenham seus direitos respeitados, mas paramos em cima da faixa de pedestre, ignorando que quem anda a pé também possui direitos.
Há um equívoco determinante no dia a dia das famílias contemporâneas. Um abismo entre os hábitos e as exigências. Nossa vida está no piloto automático. Fazemos barulho demais e silenciamos de menos. Nos apressamos, agimos com imprudência, nos precipitamos, adiantamos os acontecimentos, pulamos etapas. Em contrapartida, impedimos a autonomia dos nossos filhos, lhes suprindo todas as faltas – tão necessárias à constituição de um ser humano psíquica e emocionalmente saudável – ou lhes cobrando em excesso e os punindo se não nos respondem com o esperado.
A Era do desequilíbrio! A instabilidade, a desarmonia e a perturbação fazem parte da nossa rotina. E há os que realmente acreditam que isso seja um efeito do “progresso”. Progresso não seria sinônimo de evolução? Pois tenho outra visão do que seja evoluir, se desenvolver...
O silêncio opera milagres em um meio turbulento. A busca incessante pela paz tão almejada, provavelmente está no silêncio que nos desabituamos a fazer.
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Saturday, May 17, 2014

Texto Zero Hora (Maio/2014)


Inteligência Emocional

Sempre que tenho a oportunidade de dar um conselho aos pais (mesmo sabendo que conselho nem sempre é bem visto ou recebido), me aventuro a dizer “frustrem seus filhos”. Na grande maioria das vezes recebo um olhar de desaprovação e em alguns momentos até deixo de receber olhares por um tempo (o tempo de “digerirem” meu conselho), mas continuo aconselhando-os exatamente da mesma maneira. O motivo? Acredito (e pratico) o que digo.
Profissionais que modificam sua maneira de agir conforme o público que atendem, me parecem inseguros quanto ao que eles mesmos pensam. Nem sempre tenho certeza absoluta do que digo, em diversos instantes me vejo hesitante entre falar e calar, porém, minhas bases são sempre calcadas em estudos, pesquisas e um desejo imenso de ver a humanidade mais feliz. E o que os pais mais desejam a seus filhos? Felicidade! Tenho certeza de que há disparidade entre a visão de felicidade de uma ou outra família, mas independente de acreditarem que ser feliz é ser bem sucedido, ter dinheiro, ser admirado, construir uma família ou apenas ter boa saúde, todos almejam ver o sorriso no rosto dos pequenos, até mesmo quando deixam de ser pequenos.
É sabido pela Ciência, através de importantes estudos, que quociente de inteligência (QI) não se sobrepõe a inteligência emocional (QE) no hall de habilidades indispensáveis ao sucesso. Equilíbrio emocional é uma competência que precisa ser trabalhada desde a mais tenra infância, na tentativa de criar seres mais preparados para os embates da vida – principalmente a moderna, que insiste em nos colocar frente a frente com o desconhecido e com nossos limites, quase que diariamente.
Assim como estimulamos e exercitamos exaustivamente as habilidades relacionadas a raciocínio das crianças, precisamos, com urgência, incitar sua capacidade de lidarem com suas próprias emoções. Enquanto as crianças acreditarem (e os pais ratificarem) que o problema é ou está no outro, estaremos dando continuidade a uma sociedade incapaz de lidar com situações extremas.
As crianças devem aprender aos poucos e através de muito afeto e clareza, que a interação com o outro (esse outro sendo semelhante ou o oposto delas) é que permitirá o exercício eficiente e benéfico de habilidades como resiliência, tolerância, autoestima e vínculos reais – que só lhe trarão benefícios a longo prazo.
Não faço apologia ao desamor (porque frustrar não é sinônimo de falta de afeto), tento mostrar que amar vai além de proteger. Amar está muito mais atrelado a dar ferramentas para que a criança, sozinha, consiga lidar com os acontecimentos de seu cotidiano, de forma autônoma e confiante. É preferível um “não” amoroso a vários “sim” omissos.
Demonstrem amor, abracem, verbalizem esse carinho. Mas não satisfaçam todas as vontades, nem superprotejam. O futuro da humanidade agradece!
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da ZH

Texto Zero Hora (Abril/2014)


Nossos filhos e a Internet

Quando tento lembrar a forma como fazíamos pesquisas há não mais do que quinze anos atrás, sinto arrepios! Quase não lembro da vida antes do Google! E a facilidade de fotografar tudo e todos e enviar, em tempo real, para qualquer lugar do planeta?! E os vídeos feitos com um primor profissional, então! Durante toda a minha infância e adolescência não devo ter acumulado mais do que duas ou três fitas VHS – lembrança de datas consideradas importantíssimas! –, no entanto, minha filha com apenas seis anos de idade, tem horas e horas de vídeos salvos em pendrives e CD’s, espalhados pelas casas de toda a família!
As facilidades da vida moderna são inúmeras – e a fragilidade causada pela exposição exagerada e desmedida, também.
Todo esse aparato a nossa disposição, nos torna um pouco reféns de tamanha liberdade e frivolidade. Aliás, péssima combinação essas duas. Se acompanhadas de imaturidade, então... preocupante!
Pois a soma: facilidade, liberdade, frivolidade e imaturidade tem sobrecarregado a Internet e transformado um recurso maravilhoso, em campo minado, onde qualquer passo distraído pode detonar uma bomba catastrófica.
Internet não deveria ser lugar de desabafos descompensados, de ameaças, de barganha, de propagandas falsas, de crianças e adolescentes sem a supervisão da família. Não deveria, mas é.
A Internet tem sido palco de escândalos, ringue de disputas, calabouço de covardes, refúgio de lascivos. E mais! Tem sido local de frequentadores assíduos que muitas vezes, sem instrução alguma, se expõem desnecessariamente (ou expõem outras pessoas), causando uma volátil fama, que, em grande parte dos casos, se transforma em rechaço social. Os frequentadores? Crianças e jovens!
O olhar de adultos maduros, esclarecidos e com um mínimo de disponibilidade e boa vontade é indispensável ao uso saudável das redes e embora muitas vezes seja inexistente, se faz urgentemente necessário.
Os mais práticos e objetivos podem lembrar que há uma responsabilidade jurídica por trás de cada menor de idade, mesmo que este esteja em sua casa, aparentemente seguro. Porém, a questão aqui é muito mais ampla e subjetiva.
Quem já parou pra pensar até aonde vai a suposta liberdade que temos? Como identificar o limite que separa o permitido do excessivo? A partir de que ponto a brincadeira se torna  violência moral?
Eu sei que a nossa rotina de pais e mães está tumultuada e muitas vezes não conseguimos dar conta de todas as demandas, mas nossos filhos precisam ser prioridade.
Pare o que está fazendo agora e vá dar uma espiada no que seu pequeno está fazendo. A nossa liberdade, enquanto sujeitos, vai até aonde começa a liberdade do outro; e a nossa, enquanto pais, vai até... não há mais liberdade! É nosso dever sermos sempre vigilantes!

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da ZH

Texto ZH (Março/2014)


Família e Identidade

A família é um local de relações, de afetos, de construção de identidade. É nela que assumimos os primeiros papéis de nossas vidas – papéis esses que muitas vezes perduram por toda a nossa existência. É através dela que nos enxergamos, que nos caracterizamos, que nos inventamos. Muitos de nós, mesmo depois de adulto, continua a se enxergar com o olhar que algum ente querido nos lançou.
Nos constituímos enquanto sujeitos, dentro da esfera familiar. É nela que, assim como telas,  recebemos as primeiras cores e que aos poucos, vamos reforçando ou suavizando, mudando a nuance conforme as características que definimos como nossas.
Família é bem mais que um conjunto de pessoas de mesmo sangue, de mesmo sobrenome. Família é um sistema integrado ou fragmentado, íntegro ou lacunoso, mas independente disso é um sistema. E esse sistema pode ser um gerador de força ou de melindre.
Afinal, que ser humano você quer formar?
Nós pais precisamos entender que somos os grandes responsáveis pela forma com que nossos pequenos se veem. As crianças são seres em formação, que precisam do olhar do outro para se definirem e se redefinirem, quantas vezes forem necessárias. Esse olhar é indispensável. A intensidade desse olhar também é. Não frustre demais, mas também não frustre de menos. Regar e podar são essenciais e precisam ser medidos com sensibilidade e constância e coerência de ações.
Olhe realmente enxergando. Nomeie as características, reforçando as positivas e procurando ajustar as negativas, mostrando que você está ali para acolher e ajudar. É preciso estar atento, mas não a ponto de fixar uma identidade. É importante dar espaço, mas sem deixar desamparado.
Pais são orientadores de voo, mas também precisam ser companheiros de percurso. 
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da ZH

Texto ZH (Fevereiro/2014)


Embora os posts engraçados de mães felizes pela aproximação do início das aulas encham as redes sociais, começos ou recomeços são sempre amedrontadores, angustiantes e repletos de ansiedades e expectativas. Que atire a primeira pedra a mãe que nunca deu uma olhada de cima abaixo na nova professora e questionou, conhecendo-a há menos de um minuto, se está a altura de lhe confiar o seu maior tesouro!
Todos nós, pais, somos muito bem resolvidos até que o assunto seja nossa cria. Afinal, só nós sabemos o quanto lutamos diariamente para mantermo-nos sendo, no mínimo, pais suficientemente bons, como Freud e seus discípulos tanto incutiram na nossa mente anos a fio.
Geramos um ser. O alimentamos. Abdicamos de coisas importantes por ele. Lhe damos afeto. Queremos que seja feliz. Ouso desafiar um genitor que não deseje isso! E essa felicidade se traduz em responsabilidade, escolhas bem feitas, independência! Mas isso também significa um desapego tão grande, que muitos de nós não estão preparados – nem mesmo aos 30 e poucos anos do filhote! Aliás, que também atire a primeira pedra quem nunca desejou, por um segundo sequer, que seu pequeno voltasse a ser realmente pequeno para poder protegê-lo de tudo e todos!
O início do ano letivo é uma circunstância que elucida muitos dos sentimentos que permeiam as relações entre pais e filhos durante toda a vida. É a obrigação que se mistura ao desejo, que se mistura à insegurança, que se mistura à necessidade de consciência tranquila, que se mistura à responsabilidade e assim infinitamente...
E então, o que fazer? Se me permitem um conselho: acreditem! Acreditem na escolha da escola, feita por vocês mesmos. Acreditem na escolha que a escola fez em relação aos profissionais que lá trabalham. Acreditem na capacidade do seu filho de crescer – e não apenas fisicamente, já que isso independe do nosso olhar. Mas emocionalmente! Acreditem na sua própria capacidade de permitir esse crescimento. Acreditem no merecimento que vocês pais terão um dia, de poderem dizer, com orgulho e alegria singular, que aquele ser bem sucedido em suas escolhas e relações, é fruto do investimento subjetivo e imensamente mais generoso de anos de trabalho lento, contínuo, altruísta e presencial – não se faz um pai ou uma mãe à distância.

Com tranquilidade, carinho, paciência e perseverança, teremos um ano letivo brilhante. Eu acredito!
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da ZH 

Wednesday, April 02, 2014

Crianças precisam poder ser criança


A modernidade nos trouxe inúmeros benefícios incontestáveis, facilidades encantadoras, concessões empolgantes, mas é inegável que também nos trouxe uma sobrecarga preocupante. Sobrecarregamos nosso tempo com tarefas, nosso cotidiano com horários rígidos, nossa saúde com estresse, nosso lado emocional com uma exigência desumana. Precisamos ser felizes, precisamos ser reconhecidos – Não! Reconhecimento é pouco. Precisamos ser admirados! – , precisamos ser amados, precisamos ser bem humorados, precisamos ser resilientes e ainda precisamos estar bonitos, bem arrumados, organizados e sempre simpáticos. Com as crianças não tem sido diferente.
Tenho percebido que a grande diferença entre ser criança e ser adulto hoje em dia está na idade. As exigências estão cada vez mais iguais. A tendência à cobrança, também. As crianças contemporâneas são exigidas e são exigentes num grau máximo. Crianças brincam quando sobra tempo. Fazem as tarefas da escola entre uma aula de Inglês e uma de Tênis – quando há possibilidade desse intervalo. Vão à casa dos colegas pra almoçar – seu único tempo livre do dia! Veem filmes entre uma horinha na Estética e outra na Natação. Vão ao pátio com os amigos quando – Áh, esqueçam! Elas não vão ao pátio! Se sobra algum raro tempo, vão para a frente do computador ou dos tablets (refúgio dos filhos que nada sabem fazer com o tempo livre – afinal ele é quase inexistente mesmo...).
Muitas vezes questionamos a educação que esses pequenos têm recebido, tamanha ousadia e ar de superioridade que exibem com orgulho. Porém, poucas vezes paramos para questionar o nível de cobrança pela qual eles passam diariamente.
Temos de convir que aprender com a família é bem menos dolorido que aprender com a frieza do mundo aqui fora, mas não podemos pular etapas, ultrapassar limites, ignorar fases. Crianças precisam poder ser crianças. E é cada vez mais comum os casos de crianças com distúrbios emocionais dos mais variados tipos em função da sobrecarga de tarefas e da exigência desproporcional à maturidade. Isso tudo causa ansiedade, depressão e até problemas de relacionamento, autoestima e aprendizagem. Emoções intensas e violentas como às que as crianças são expostas, geram reações como irritação, angústia, autoestima baixa, visão distorcida de si mesmo, tristeza, dificuldade em estabelecer vínculo com seus pares, falta de concentração, agitação acima do normal, insegurança e em consequência muitas vezes, regressão de comportamentos básicos em tarefas cotidianas. Então famílias se desesperam e se desestruturam, sem perceberem que muitas vezes o estopim para todo esse desenrolar mal sucedido está no excesso.
Equilíbrio é a solução para a maioria dos problemas desde o início da humanidade! Não é diferente com as famílias do século XXI. É preciso cobrar, sim. Mas é mais necessário ainda, refletir sobre o tipo de cobrança que está sendo feito, a natureza da combinação que está sendo estabelecida. Crianças precisam vivenciar experiências infantis, pois terão o resto da vida para serem adultas.
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e colunista do Jornal Zero Hora
(matéria escrita para o jornal O Alto Uruguai, de Frederico Westphalen/RS) 

Sunday, January 26, 2014

A possibilidade dos pais



Criamos uma família, organizamos espaços para abrigá-la, passamos por situações agradáveis, por outras complicadas, ou então, simplesmente não idealizamos essa família e ela acontece e nos surpreende!
Então eles chegam de mansinho... aqueles seres minúsculos que abrigamos durante intermináveis meses dentro da nossa barriga (ainda olho a minha e não acredito que um ser humano esteve ali dentro um dia!). Tirados de seu primeiro abrigo, já demonstram independência. Se não nas vontades, nas necessidades. Logo estão exibindo que possuem mais do que urgências fisiológicas como fome, sede e dor; possuem sim, vontades individuais e únicas. Possuem seus próprios desejos.
Quando pequenos contornamos a fissura por doces, o sonho por cada brinquedo novo que a televisão ou o amiguinho ostentam, a falta de vontade de escovar os dentes a cada refeição ou de lavar as mãos antes delas. Mas de repente somos surpreendidos por novos anseios – tão maiores quanto sua própria altura ou idade. Eles já estão adolescendo – o florescer do ser humano.
 Amigos que insistimos que não são boas companhias, festas que teimamos em tentar proibir, roupas que olhamos com desdém, celulares que rezamos para que sejam atendidos ao primeiro toque... Quando nos tornamos pais ou mães, até descrentes de religiões, passamos a acreditar em algo.
O que fazer quando eles crescem? O que fazer com aquele pedaço da gente que criou personalidade e volta e meia nos afronta?
Chega um momento que não interessa o quanto somos parceiros, carinhosos, bons ouvintes, animados, modernos, corujas... eles vão preferir os amigos!
Chega uma fase em que não importa quantos conselhos, quantos pedidos, quantas conversas tivemos... eles irão tomar suas próprias decisões (e elas muitas vezes não serão as melhores – Aliás, alguém conhece um outro jeito de aprender a tomar decisões certas sem ser tomando várias erradas antes?).
Esse é o futuro de todos os pais e mães: sentirem-se órfãos de seus próprios filhos! Faz parte do amadurecimento deles, enquanto cidadãos do mundo! Faz parte do nosso, enquanto genitores e cuidadores.
Por mais cansativa e batida que seja essa afirmação, devemos repeti-la a nós mesmos todos os dias: Nossos filhos não são nossos! Eles criarão asas e voarão, tecendo seus próprios destinos através de suas escolhas (independente de serem boas ou não; independentes de concordarmos ou não; independentes de estarmos perto ou não). Ser mãe e pai é também nos despirmos um pouco da nossa mania de soberania, de propriedade, de superioridade.
Quem pensa que ser mãe ou pai é ser instrutor, não sabe de nada. Na maioria das vezes é ser instruído, ser desacomodado em nossas certezas, ser instigado a mudar convicções.
Nossa possibilidade vai até ali, ali onde começa a liberdade de escolha que demos a eles ou os privamos. Por isso a necessidade de ensinar a selecionar, a discernir, a classificar.
E rezemos sempre – seja lá qual for a sua crença! Dessa ajuda celestial eu não abro mão.
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Texto ZH (janeiro/2014)



Desacelere!
Um ano novinho em folha e a gente pensando no que fazer com ele... Procurar um novo emprego? Algo que traga maior remuneração e reconhecimento? Um novo amor – ou um novo olhar para o mesmo amor? Uma viagem? Sair mais com os amigos? Começar a ginástica e a dieta? Passar mais tempo com a família, com os filhos? Afinal, os danadinhos insistem em crescer numa desobediência afrontosa!
Pois faça tudo isso! E faça mais: de-sa-ce-le-re!
O estresse é visto com preocupação pelos profissionais da área da saúde. E isso não é por acaso. Pessoas consideradas com um alto nível de estresse estão, cada vez mais, sobrecarregando hospitais, por conta das complicações provocadas por ele. Aliás, nem precisamos ser especialistas para sabermos que faz mal. É isso que você quer? Duvido! Dores no corpo? Só se for de tanto bater perna conhecendo lugares diferentes! Palpitação? Só aceite se for de emoção por causa daquela paquera ou daquela promoção tão esperada! E esses são apenas alguns sintomas, porque o ônus pode ser bem maior. Mas você sabia que ser estressado (a) pode – veja bem, pode! – ser uma questão de hábito? Nos habituamos ao frenesi da cidade grande, da cobrança exagerada, da pró-atividade full time.
Aproveite o início do ano para mudar o ritmo. E preste atenção! Desacelerar não é estar em inércia, é simplesmente diminuir a velocidade – e isso significa curtir a paisagem, bater um papo com o colega de percurso, pensar!
Se está de férias, melhor ainda! Dê folga ao despertador. Leia para seu filho. Veja TV de mãos dadas com seu amor. Tente aquela receita nova. Esqueça um pouco o celular e o computador. Durma à tarde. Passe mais tempo conversando com aqueles que ama. E arrume um tempo para não fazer nada, para aproveitar a sua própria companhia e flertar consigo mesmo.
Se está trabalhando não é desculpa para continuar nesse ritmo frenético. Saia de casa 5 minutos antes para não se incomodar com o trânsito. Deite com o filhote para fazê-lo dormir. Faça-lhe uma surpresa no meio da semana, levando-o ao cinema – vocês merecem! Jante com a família reunida. Não leve trabalho pra casa – a menos que seja indispensável. Faça, 1 hora por dia, o que te dá prazer de verdade.
Menos precipitação. Mais estabilidade.
A cada início de ano temos uma nova oportunidade de mudarmos o que nos prejudica ou incomoda, e essa possibilidade – que na “verdade verdadeira” acontece diariamente – precisa ser bem recebida e executada.
Desacelere! Especialistas no bem viver recomendam! 

Wednesday, January 22, 2014

Memórias...


Minha escrita surgiu por dois motivos importantes – e eles permanecem íntegros até hoje! Primeiro, para reelaborar os acontecimentos. Uma nova chance que eu dava a mim mesma para repensá-los e guardá-los de uma forma mais agradável – o que nem sempre significou escrevê-los de forma mais amena. Ao contrário! Muitas vezes lhe dei doses grosseiras de tragédia ou comédia – dignas da minha sensibilidade.
Em segundo, para presentear a quem muito valorizo e me importo. Considerava o pedaço mais bonito de mim, portanto, era como se eu entregasse a quem amava, algo de mais precioso.
Hoje, lendo um dos livros da Coleção Vida em Pedaços, do Carpinejar, senti o quanto escrever potencializa tanto as lembranças quanto a competência dramática de quem escreve. Passei uma tarde terapêutica com aquele livro aparentemente inofensivo – para os mais impassíveis – mas absolutamente promissor – aos compassivos, como eu!
Comecei chorando de alegria e perplexidade ao perceber fragmentos da minha história sendo contados por um outro narrador, que não eu. Depois chorei em solidariedade, ri como se ainda possuísse o ingênuo sarcasmo infantil, chorei de novo, refleti...
Li o que Mário e Diana Corso – psicanalistas – escreveram a respeito dos livros e me chamou a atenção a frase que, pra minha surpresa, mais tarde vim a descobrir que era um “plágio consciente” (como bem definiu o próprio Mário no lançamento, na Livraria Cultura) e que dizia: “...nunca é tarde para se ter uma infância feliz”.
A nossa infância para nós, já adultos, nada mais é do que aquilo que recriamos ao unir cacos de memórias que temos e também, daquilo que ouvimos falar sobre nós, enquanto infantes.
Eu, que trabalho diariamente com crianças, jamais desdenho de suas dores, mas também percebo o quanto elas são contornáveis – pela própria criança. Elas – as crianças – sabem de algo que nós – os adultos – esquecemos com o passar dos anos: nada é definitivo ou determinante!
Diana por sua vez, concluiu brilhantemente que, algumas pessoas são órfãs pela sua incapacidade narrativa, ou seja, pela impotência de reescrever suas percepções usando um filtro diferente.
Infância todos tivemos e suas lembranças levaremos conosco. Mas somos nós que escolheremos se elas serão como fardos a pesarem sobre nossas costas ou asas, que nos permitam voar mais alto do que até então.
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Colunista da Zero Hora

Tuesday, January 21, 2014

Texto ZH (Dezembro)



Resoluções de ano novo
Cheguei a uma triste conclusão nesse final de ano. Nós, seres humanos, temos uma surpreendente capacidade de perdermos algumas coisas preciosas ao longo do tempo. Não basta perdermos o próprio tempo com fatos irrelevantes, perdemos detalhes, tão vivos lá na infância, e que se carregássemos conosco, o mundo seria um lugar muito melhor de se viver.
Perdemos a capacidade de nos admirarmos e nos encantarmos com a simplicidade, perdemos a leveza, perdemos muitas vezes o respeito pelos outros seres, perdemos a tolerância, a capacidade de fazermos vínculos com facilidade e despretensão, perdemos a sensibilidade à flor da pele, perdemos a flexibilidade, a capacidade de voltar atrás antes que o sentimento nos endureça.
Pois bem... tenho uma proposta! Peguem papel e caneta e vamos fazer a nossa lista de resoluções pra 2014 em conjunto! Vamos nos dar de presente um jeito novo e muito mais leve de enxergarmos e reagirmos ao mundo a nossa volta e por tabela, vamos dar o prazer a quem convive conosco, de nos terem mais inteiros e mais brandos, desoprimidos, amenos...
Para começarmos, paremos de reclamar de tudo.
Ao invés de querermos perder peso, que comamos melhor (é um caso mais de saúde que de estética).
Gastemos menos dinheiro em objetos e mais em momentos especiais ao lado de pessoas tão especiais quanto.
Passemos a dar mais pisca para avisar ao motorista de trás para onde queremos ir.
Paremos mais na faixa de pedestre.
Doemos mais sangue.
Comecemos – ou continuemos – uma atividade física que nos dê prazer e bem estar.
Peçamos mais desculpas.
Passemos a cumprimentar as pessoas – qualquer uma – com um sorriso.
Durmamos mais.
Tomemos mais água.
Ofertemos mais ajuda.
Não julguemos antecipadamente ninguém – que a gente saiba esperar que cada um nos mostre quem são de verdade.
Não desistamos de nossos sonhos.
Coloquemos as coisas de volta aos seus lugares.
Compartilhemos mais momentos com nossos filhos.
Olhemos mais pela janela e menos para a tela do computador.
Criemos mais oportunidades de fazermos o bem aos outros – teremos o retorno em dobro!
Enfim, façamos diferente! Ao invés de pedirmos dádivas ao novo ano, sejamos o melhor que consigamos e nos demos de presente à vida! Dessa forma, garanto que 2014 será tudo aquilo que desejamos!

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Colunista da Zero Hora