Texto na íntegra:
Se eu
precisasse mencionar apenas uma coisa que nunca concordei em relação à educação,
seria o excesso de condescendência das escolas em relação a comportamentos
inadequados. Calma! Não estou sugerindo aqui, o emprego do regime militar em
todas as escolas do Brasil, mas se me permitem uma opinião da qual tenho grande
convicção, é a de que estamos sendo condescendentes demais, generosos demais,
libertinos demais, lascivos demais, benevolentes demais.
Entendo
perfeitamente que o novo estilo de vida contemporânea, fez com que muitas
coisas modificassem – inclusive a forma de encararmos a própria vida! Perdemos
um pouco da direção, fomos além do que imaginávamos, ganhamos oportunidades
nunca sonhadas e nos confundimos com tantas opções... tudo isso está tendo
consequências importantíssimas. Estamos produzindo uma nova geração, com
características muito singulares e específicas.
Mais do que
nunca, tenho observado a infância com olhos de espanto – e que fique bem claro
que não são os olhos infantis que estão espantados; são os meus! Tenho visto
pequenos seres dignos de todo o amor do mundo, intolerantes a tudo de real que
há. E cada vez mais, tenho percebido pais perdidos, culpados, devastados pela
dor da distância (que a modernidade trouxe no pacote intitulado “Oportunidade”).
E mais! A escola, lugar onde, a princípio, se deveria encaminhar tanta angústia
e desorientação, está sendo conivente com tamanho desequilíbrio.
Crianças que gritam
com os professores, escondem-se embaixo das classes, fogem da sala, coagem
colegas, choram por ter a atenção chamada, decidem trocar de turma e até de
colégio, debocham do que lhes parece incomum, desperdiçam materiais e tempo, e
algumas vezes até agridem aqueles que ousam lhes desagradar, é cada vez mais
comum! Não precisamos fazer parte das instituições para sabermos disso, pois
basta abrirmos um jornal ou um site de notícias, que volta e meia estão
estampadas manchetes de jovens (crianças e adolescentes) que sucumbiram à
pressão da vida real e foram “às vias de fato”! Ou mesmo, basta ouvir um pouco
das conversas de corredor quando vamos buscar os filhos na escola... geralmente
todos sabem sobre “aquele coleguinha” que tem “um gênio difícil”. Rótulos!
O que fazem os
pais? Se autoflagelam e transbordam desculpas; embora haja aqueles que
consideram até “bonitinho” a falta de postura, pois retrata uma “personalidade
forte” – às vezes me questiono se falta de educação também mudou de nome
juntamente com todas as transformações modernas...
O que fazem
muitas escolas? Observam. Apagam incêndios. Perdoam. Encaminham para um
profissional da área da Psicologia ou Psiquiatria, que muitas vezes entopem os
pobrezinhos de medicamento, quando na verdade precisavam apenas de organização
e limite. Ou ainda, dão mais uma chance – ou duas, ou três, ou todas as que
forem necessárias até o indivíduo se lançar para a faculdade.
Muitas dessas
crianças passam de série em série com as recomendações necessárias, como:
“Esse, embora não tenha nenhum diagnóstico, tem muitas questões emocionais...”
e blábláblá. E então, mais um ano torturante passa. Ao final dele, mais
recomendações – já que as questões
emocionais familiares somam-se às individuais, afinal, o pequeno não é mais tão
pequeno assim – e lá vai o “professor-terapeuta” tomar conta daquele ser,
rezando todas as noites para ter discernimento sobre o que fazer e a melhor
forma e momento de agir.
Eu sou
defensora de carteirinha do respeito – e até do incentivo – às diferenças, mas
acima de tudo, sou defensora ferrenha do direito de aprender a ser forte e
responsável por si mesmo.
Que seres
estamos criando? Seres dependentes da nossa condescendência perpétua? Seres que
precisarão da nossa eterna ressalva (Olha... ele é uma criança excelente,
MAS...) ? Me desculpa, mas isso é egoísmo! Quero que meus alunos, meus
pacientes, minhas crianças sejam autônomas, determinadas, independentes. Quero
que não precisem de mim. Isso sim é amor: dar asas e apenas orientar o voo,
como já dizia o poeta. Mas é orientar o voo! As crianças e jovens
precisam de orientação. Chega de pensarmos que preparar para o vestibular é o
essencial, porque ninguém está preparando para a vida – e isso sim é
indispensável.
A vida, fora
das paredes da nossa casa e da escola, é muitas vezes fria e cruel. O
transeunte que cruza o caminho do seu filho em um dia que ele não está bem, não
se interessará nem um pouco se ele tem problemas na família ou está sofrendo. O
entrevistador do emprego dos sonhos da sua filha não está nem aí se justamente
no dia da entrevista ela se sentiu triste ou se frustrou.
O mundo está
pronto pra esmagar quem não tiver inteligência emocional. Não há pai, mãe,
orientadora educacional, professor, psicopedagoga, psicólogo ou psiquiatra que
poderá intervir na vida real. Aqui, do lado de fora, cada um precisa ser
protagonista de sua própria vida e destino, saber fazer escolhas e se
responsabilizar por elas.
Ensine e
estimule seu filho a lidar com suas emoções e responsabilize-o pelas
consequências de seus atos. Essa é uma herança impagável! E lembre-se de que é
uma herança vitalícia – tanto na doação, quanto na colheita dos doces frutos!
Lisandra
Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e colunista da Zero Hora













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