Tuesday, September 26, 2017

Infância, monstruosidade e redes sociais


Acredito que 99% das pessoas que possuem algum tipo de rede social estejam a par do fato escabroso ocorrido em um Bourbon de Porto Alegre. Um homem aparentemente comum molesta uma criança em um local público, demostrando mais do que uma atitude repulsiva, uma total falta de medo – aquele sentimento inibitório que, na melhor das hipóteses, nos tira de muitas situações perigosas. Sessenta e dois anos, casado e aparentemente pai de duas jovens do sexo feminino – olha a ironia!
            Quando fui até seu Facebook, senti pena daquelas pessoas que estavam ali, expostas, abraçadas a ele. Depois fui observando outros detalhes... ele dizia trabalhar na Jocum Brasil – uma entidade missionária sem fins lucrativos, que logo deu um jeito de soltar uma nota avisando que a criatura do mal apenas havia feito parte de um treinamento com eles há 30 anos atrás e que não existia vínculo algum depois disso. Li também, abismada, que sua única postagem escrita dizia “É urgente, precisamos estar cheios da vida de Deus!” e me peguei pensando na imagem equivocada que algumas pessoas têm Dele. Observei fotos de criança e fiquei pensando que se eu fosse mãe de alguma das que tiveram contato com esse monstro, viveria me questionando sobre o que eu, talvez, não tenha percebido, e as consequências disso...
            O vídeo é chocante. Mas confesso que se não tivesse visto as imagens, pensaria que era só mais um boato misturando redes sociais, companha Zaffari e Bourbon e aberrações humanas. Eu precisei enxergar a cena grotesca e repulsiva para alertar pessoas que passeiam com a minha filha, por exemplo, de que fatos absurdos dessa proporção podem acontecer. Mas eu não vi a menina... não a identifiquei e nem busquei isso. Li o boletim de ocorrência e só me detive no nome dos pais do molestador –  e fiquei desejando que não estivessem mais vivos para se pouparem de tamanha desilusão (considerando que tenham sido pais decentes e emocionalmente saudáveis, para não entrar em meandros da Psicologia, que envolvem repetição de comportamentos parentais).
O que quis dizer com isso? Que não vi o nome da mãe da menina, que não reparei na criança e que não fiquei buscando saber de quem se tratava. Porque minha forma de lidar com situações desta natureza é identificar o responsável pela dor e, se possível, auxiliar a vítima – mas na impossibilidade disso, focar no que precisa ser extinto. Escrevo, porque muito tem me chamado a atenção a enxurrada de posts e mensagens de pessoas que mudaram totalmente o foco: crime hediondo de abuso sexual para o crime previsto no ECA, de divulgação de imagens de menor de idade. Calma! Não estou dizendo que um crime anula o outro, mas só um pouquinho, né?! Busquei enlouquecidamente em meus recursos internos, alguma ressonância com esse sentimento de “Que absurdo mostrar uma criança sendo molestada”, mas só encontrei identificação com o que gritava “Que chocante saber que um adulto é capaz de algo tão estúpido”.
Podia ter sido mais discreta a publicação dessas imagens? Podia! Podiam ter colocado uma tarja no rosto da menina? Podiam e até deviam! Mas o fato está aí, escancarado e sendo esfregado na nossa cara. Até quando iremos tirar do foco o que realmente importa, colocando o nosso “rabinho entre as pernas” e estimulando que a revolta seja abafada pela anuência, pela anulação?
Pois eu estou RE-VOL-TA-DA! – por favor, não me peçam diplomacia num caso como este. E garanto que, se tivermos a oportunidade de perguntar a essa menina daqui a vinte anos, se alguma coisa em sua infância lhe traumatizou, provavelmente não será a sua imagem (não identificável, diga-se de passagem) exposta.
E já que resolvi falar o que eu penso mesmo, vou dizer mais uma coisinha: acredito piamente na mudança interna, no aperfeiçoamento humano, na transformação de vida. Mas há casos em que a minha humanidade grita e não há  o que me faça acreditar em conversão – esse é um dos casos. Desejo que seus parceiros de cela (porque ele há de tê-los algum um dia) o tratem com “muito carinho”! (E que Deus me perdoe pela falta de compreensão com algumas falhas humanas)

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Pós-graduanda em Atendimento Educacional Especializado

Monday, September 04, 2017

Aulas particulares em casa


Boa tarde!
O mês de setembro chegou e sabem o que isso significa? Que está chegando o tão temido 3º trimestre escolar! Época de estudar, se dedicar, buscar mais conhecimento, aprender o que ainda não foi bem compreendido e conquistar notas boas, para curtir o verão e as festas de final de ano sem preocupação.
Aulas particulares muitas vezes podem auxiliar nessa parte. Às vezes as crianças não conseguem compreender todo o conteúdo em sala de aula, ou o compreendem em parte - seja por não perguntar, não manter a atenção ou por outro motivo qualquer - e um reforço no conteúdo trabalhado em aula pode ser de grande valia. As famílias, por terem um envolvimento afetivo, por não disporem de muito tempo ou não saberem como ensinar, muitas vezes não conseguem ajudar. 
Precisa de ajuda? Entra em contato! 
Aulas particulares para todas as disciplinas (até o 6º ano e para algumas disciplinas até o 9º ano).

Lisandra Pioner
Pedagoga, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional e pós-graduanda em Assistência Educacional Especializada

Wednesday, August 30, 2017

Pequenas corrupções diárias

         


   Hoje eu quero falar com você. É, você mesmo. Você que para em fila dupla pra deixar o seu filho na porta do colégio – porque você tem pressa e não pode estacionar para deixá-lo, mas a pressa dos outros, pouco lhe importa.
Você! Você que tranca o estacionamento. Você que para bem no meio do caminho – como se tivesse planejado estrategicamente o lugar para que todos fossem espectadores – e calmamente sai do carro, abre o porta-malas, pega a mochila, fecha o porta-malas, coloca a mochila nas costas do rebento, dá-lhe um beijinho e espera que ele entre; aí sim, entra em seu carro e arranca – enquanto uma fila imensa de paspalhos educados lhe assistem, sem querer fazer escândalo.
Você aí. Que sabe que a fila imensa é para entrar na escola do seu filho ou na rua da escola, e ao invés de ficar no seu lugar, vai indo “distraidamente” pelo lado e quando está no local perfeito – nem tão perto pra ser o primeiro a entrar, nem tão longe para ser o quarto ou o quinto – liga o pisca e... se mete na frente dos doze que lá estão há cinco minutos!
Você pensa que isso não é nada, não é mesmo? Você acha que isso é só uma gentileza da humanidade com a sua ânsia de prioridade e que não fará mal a ninguém... sabe por que acha isso? Porque é um egocêntrico mimado que comete pequenas corrupções diárias e tem o desplante de ostentar a frase “Fora Temer!”, “Fora Dilma!” –  ou seja lá qual a frase de ordem da vez – na sua foto do Facebook. Sabe qual a diferença entre você e esses políticos corruptos todos? A oportunidade! Porque a essência dos atos é a mesma: o egocentrismo genuíno!
Podemos até não notar, mas somos nós, seres humanos comuns que dificultam ainda mais a convivência em sociedade. O governo desonesto, os atos ilícitos, as aparentes injustiças do destino são, sem dúvida, entraves, incômodos... mas o que acaba conosco de verdade, o que nos causa estresse, o que nos faz criarmos doenças psiquiátricas novas a cada década, o que nos presenteia com uma gama de transtornos de ansiedade imensa é o mal motorista, o vizinho mal educado, o colega invejoso, o chefe mal humorado, o filho ingrato, a mãe superprotetora, o marido que reclama o tempo inteiro, a esposa que nunca está satisfeita, a atendente da farmácia que é estúpida, o empacotador do supermercado que nem te olha. É a falta de gentileza que nos deprime. É a falta de empatia que nos segrega. É a falta de respeito que nos inflama.
O parcelamento do salário é um imenso problema, sim. A insegurança ao sair de casa é decepcionante. A Reforma Trabalhista é preocupante. A taxa crescente de desemprego é alarmante. A inflação é perturbadora. Mas tudo isso pode ser amenizado – atentem para o amenizado, porque não estou romantizando a crise, não –  com pequenas doses de delicadeza diárias. E somos nós que podemos distribuí-las pelo mundo afora – começando pelos locais que você frequenta.
Você aí... tente! Não custa nada e o retorno positivo é garantido!

Lisandra Pioner

Tuesday, July 11, 2017

Educação Emocional


Todos nós sabemos que o período escolar é uma fase enorme da vida do ser humano e que acontece em duas fases de desenvolvimento muito especiais e específicas em suas características: a infância e a adolescência. Pensar que em pleno momento de transição pessoal, o indivíduo precisa dar conta de aprendizagens importantes e de emoções totalmente novas, nos faz ter uma melhor dimensão da complexidade do que todos nós passamos. Mas não é exatamente porque “todos nós passamos” que é algo simples e fácil. O que determina se algo é fácil, não é a quantidade de pessoas que vivenciam a situação, mas a forma com que cada sujeito elabora aquela vivência.
            Quando falamos em dificuldade nos relacionamentos e bullying, por exemplo, não é diferente. Observo inúmeras instituições (escolares e familiares) exigindo posturas, sem sequer tocarem em assuntos de relevância singular, como inteligência emocional. Os estudantes, muitas vezes chegam à escola, segundo ambiente onde passam a maior parte do tempo (ou primeiro, em muitos casos), sem jamais terem falado em emoções, sem conseguirem nomear sensações, sem terem se frustrado. Verdadeiros analfabetos emocionais! E então surge uma série de complicações, que vez ou outra é vista como um problema da turma difícil, da professora incompetente ou da escola incompreensível e massificadora.
É difícil olhar para a própria responsabilidade diante dos acontecimentos, sim. É mais simples encontrar culpados, apontar algozes, condenar o que não está em nossas mãos. Mas por mais que a tomada de consciência exija de nós, pais e mães, é necessário que façamos nossa mea culpa e que consigamos trazer para dentro das nossas casas, a conversa aberta e generosa sobre emoções (com todo o protagonismo que o assunto merece).
Educar emocionalmente uma criança faz com que ela adquira habilidades para gerenciar seus sentimentos (e ações que resultam deles) e compreender os sentimentos dos outros. Desta forma, o desenvolvimento social e o aprendizado no ambiente escolar, ocorrem com muito menos entraves.

Considerar os sentimentos dos pequenos e oportunizar momentos para que eles os expressem, propicia uma melhor compreensão de questões tão subjetivas,  provoca mudança de comportamentos e uma série de outros benefícios. Experimentem!
(Texto de julho/2017, do jornal Zero Hora. Lisandra Pioner)

E se tudo der errado? (Já deu)

(OBS- os rostos foram tapados, a princípio, em função de serem menores de idade, mas acho que a verdade mesmo é que foi pela vergonha de se sujeitarem a isso)

Nosso povo já está um tanto acostumado a se deparar com notícias impactantes, por vezes assombrosas e, infelizmente, cada vez menos surpreendentes (tendo em vista que, embora nos cause ojeriza, logo passam a ser uma mera lembrança). Esta semana tivemos um exemplo desse tipo de acontecimento, quando tomou conta das redes sociais, a divulgação de fotos de duas escolas particulares do Rio Grande do Sul.
As mesmas solicitaram aos alunos do 3º ano, que viessem “fantasiados” de profissões que, segundo a visão deles, eram de pessoas que não deram certo na vida. Dentre estas profissões estavam gari, faxineira, atendente de lanchonete, garçom, entre tantos outros. Quando chegou ao conhecimento do público, foi um alvoroço só! O preconceito é cada vez menos tolerável pela maioria das pessoas. E embora ambas instituições tenham se defendido dizendo que jamais tiveram a intenção de discriminar qualquer trabalhador, foi assim que fizeram na prática.
As instituições de ensino são propagadoras de ideias e ideais. Não podemos ignorar esse fato (seria imprudência e irresponsabilidade)! Antes de qualquer evento, qualquer depoimento, qualquer atividade, precisa parar e pensar mil vezes se não há possibilidade de uma compreensão inadequada por alguém; se não é ofensivo, se não denigre a imagem e dignidade de outro ser. E mais! Se tem algo a acrescentar à sociedade, se fará seus estudantes refletirem, se proporcionará a oportunidade de evolução, seja a uma única pessoa, a um grupo ou a toda a comunidade escolar.
Escola não é apenas um local onde crianças e jovens passam parte do dia, recebendo informações para passar no vestibular. Não é apenas o lugar onde eles ficam enquanto os pais estão trabalhando. Escola é mais. E se não está sendo mais do que isso, precisa mudar urgentemente. Escola precisa ser o lugar onde as pessoas são convidadas a pensar; onde se aprende a conviver; onde se entende o que é respeitar; onde se ensina que flexibilidade é uma qualidade muito importante. É inadmissível que os pais e mães deixem seu bem mais precioso (os filhos), durante, pelo menos, doze anos, dentro de um lugar de onde ele sairá preparado apenas para entrar numa faculdade.
Pode parecer utópico, mas como já dizia Galeano, a utopia serve para que não paremos de caminhar. E sinceramente, se não é através da Educação que transformaremos esse mundo num lugar melhor, não sei mais de que forma poderá ser. Se tudo der errado, continuaremos a ter instituições de ensino agindo de forma equivocada quanto ao papel da Educação na sociedade. Mas se tudo der certo (e é isso que nos interessa), logo veremos profissionais engajados verdadeiramente em um propósito muito maior do que uma avaliação. Veremos profissionais obstinados a formar seres humanos mais íntegros, empáticos e compassivos.
(Texto de junho/2017, do jornal Zero Hora. Lisandra Pioner)

Para todas as mães (e pais)...



Para quem esperava um texto falando sobre a felicidade de ser mãe, ou sobre as vicissitudes dessa tarefa linda e árdua, lamento decepcionar. Esse será um texto para nós, mães (e para os pais), que todos os dias vivemos cheios de amor, de medos, de desafios, de angústias, de alegrias e de questionamentos.
            Você sabia que 1 em cada 5 crianças apresenta problemas de estresse e saúde mental, como ansiedade e questões emocionais? E que 50% desses distúrbios aparecem antes dos 14 anos? E 75% antes dos 24 anos? Ou seja, infância e adolescência cada vez mais, sendo fases de desenvolvimento em sua totalidade: capacidades aumentadas, tanto de saúde, quanto de doença. Só que não podemos responsabilizar um ser em formação por questões tão subjetivas e viscerais. Às vezes há questões genéticas envolvidas, mas na maioria esmagadora dos casos, as questões decisivas para a instalação e manifestação de uma perturbação emocional, são ambientais. É a falta do convívio, do interesse genuíno, do diálogo, da partilha de vivências e informações, da presença atenta, da escuta ativa. É a existência perturbadora daquela “presença ausente”, que tantas vezes não ampara como deveria.
            Falamos muito sobre as transformações sociais. Reclamamos do egoísmo, do trânsito, da violência, da corrupção, da falta de empatia, do tempo escasso, porém, poucas são as vezes em que paramos para refletir sobre a nossa responsabilidade no caos em que vivemos.
A gente vem de uma geração onde se debochava, se  competia, se humilhava, se puxava tapete, se mentia, e havia arrogância e todo o tipo de rebaixamento moral e tentativa de submissão. Aos poucos fomos nos tornando o que somos hoje e fazendo da sociedade, o que ela é (com suas evoluções, claro! Mas cheia de retrocessos também). E o pior é que muitos de nós atualmente ousa ironizar sobre questões sérias como o bullying, por exemplo. Quantas vezes ouve-se a frase “No nosso tempo um tirava sarro do outro e estamos todos vivos, mas hoje isso se chama bullying”.
Estamos vivos, mas às custas de quanto sofrimento! De quantos momentos cheios de sentimento de inadequação! De silêncios ensurdecedores, onde não sabíamos como tirar de dentro do peito toda aquela angústia frente a uma vida onde parecíamos não caber.
            O tempo passou e nos transformamos no que somos hoje... pais e mães cheios de vontade de acertar, mas muitas vezes sem saber falar e sem saber ouvir sobre sentimentos. Sem conseguir enxergar os filhos como eles realmente são ou legitimar suas ansiedades e dores.
Crianças e adolescentes se afligem,  se entristecem, se inquietam. É muito importante que saibamos reconhecer a autenticidade desses sentimentos e lhes estender a mão. Até porque uma coisa é certa, se não fizermos isso, alguém fará por nós – e possivelmente não será o alguém mais indicado.


(Texto de maio/2017, jornal Zero Hora. Lisandra Pioner)

Renovar é preciso



Páscoa tem a ver com vida nova, com mudança, libertação, olhar para si, olhar para o outro, enxergar-se no outro e enxergar o outro em si. É difícil, dá trabalho, exige uma sensibilidade e um posicionamento que não estamos acostumados. E como quase tudo aquilo que não é habitual, nos causa certo desconforto. Porém, o desconforto é apenas um sintoma de que algo dentro da gente está se desacomodando para que, logo ali adiante, acomode uma novidade.
Aproveitando todo o significado e apelo dessa data, tenho me inquietado com alguns costumes que vamos adquirindo ao longo da vida, sem nos questionarmos, refletirmos ou ponderarmos. Vamos vivendo dia após dia, repetindo ações e pensamentos de forma automática e muitas vezes sem sentido. Trabalhamos para adquirir mais do que o necessário, damos aos nossos filhos muito mais do que tivemos e mais do que eles precisam, perpetuamos a errônea ideia de que é preciso ter para ser e quase nunca nos damos conta de que na maioria das vezes, o essencial não custa um centavo sequer.
De forma alguma é apologia à pobreza ou demagogia. Encarem como um convite. Um convite para o autoquestionamento, para pensarmos, por exemplo, no quanto de responsabilidade temos (ao sermos pais e mães) de criar uma vida (com todas as implicações econômicas, orgânicas, sociais e emocionais que isso tem), e através dela, deixarmos nossa herança para o mundo. Porque é nossa responsabilidade sim, fazer dos nossos filhos pessoas capazes de serem felizes e de deixarem boas marcas na sociedade. É nossa responsabilidade sim, criar estratégias para preparar esses pedacinhos de gente, em futuros adultos seguros, lúcidos, sensíveis, solidários, altruístas, responsáveis, colaborativos e empáticos.
E se hoje vivemos em uma sociedade desigual, egoísta, superficial, onde as leis são subjetivas, onde vence quem tem mais poder (e isso geralmente é sinônimo de dinheiro), onde a máxima “cada um por si” impera e onde se busca ter alguma vantagem (seja lícita ou ilícita) em todas as ocasiões, é porque algo lá atrás falhou. Todos esses adultos que hoje convivem conosco, foram crianças um dia. E foi lá na infância que deixaram de aprender o que realmente faria a diferença em suas vidas.

Quem de nós já ensinou às crianças que agir implica em responsabilidades; que todos nós temos sentimentos e pensamentos bons e maus (e essa dualidade não é vergonhosa, mas apenas humana); que ter sentimentos ruins não nos torna alguém desprezível, mas sim o que fazemos com esses sentimentos; que muitas coisas em nosso entorno muda, quando modificamos a nós mesmos; que o outro sente exatamente como nós (o que às vezes muda, é a forma com que ele expressa isso); que absolutamente tudo o que fazemos nos espera mais à frente, ou seja, terá consequências; que jamais podemos tentar mudar o outro, pois isso é uma decisão apenas do outro; que quando alguém nos exige mudança, precisamos nos perguntar se isso é realmente o que nós desejamos; que opiniões são muito pessoais e por isso precisam ser respeitadas (e que é essa diversidade que enriquece a nossa existência); que qualquer coisa que custe a nossa paz, é cara demais; que a decepção nada tem a ver com o outro, mas com a nossa expectativa exagerada sobre ele; que nem sempre as pessoas vão gostar da gente e que isso não deve ser um problema; que se alguém não corresponde às nossas exigências, não significa que não esteja dando o melhor que pode; que silenciar é preciso; que reagir, na maioria das vezes, é uma péssima decisão; que se colocar no lugar do outro é a solução para quase todos os males do mundo? Quantos de nós já convergimos nossas forças educativas nisso? Não se faz uma sociedade diferente, repetindo erros. Portanto, renovemo-nos!

(Texto do Caderno Vida, jornal Zero Hora, de abril/2017. Lisandra Pioner)

Sunday, April 16, 2017

Dicas de como estudar


Precisamos perder a mania errônea de achar que disciplina é característica de poucos sortudos. A gente aprende a ser disciplinado ao longo da vida, ou seja, é sendo disciplinados que aprendemos a ser disciplinados. Estudar é um exemplo disso, pois é um hábito, portanto precisa ser praticado. Quem se habitua a estudar, deixa de ver o estudo como sacrifício e passa a enxergá-lo como algo rotineiro e que lhe traz benefícios.
A seguir, algumas dicas importantes para auxiliar quem é estudante ou que convive com um. Aproveite as dicas!

ü  A cadeira precisa ser confortável, mas não a ponto de convidar o estudante a cochilar;

ü  A mesa deve ser espaçosa o suficiente para colocar todos os livros e papéis necessários ao estudo;
ü  Uma boa iluminação é essencial (de preferência luz natural ou fria);

ü  A ordem (ou desordem) do nosso entorno condiciona a ordem na nossa mente, por isso, é muito importante que tudo esteja organizado antes de sentar-se para estudar;

ü  Procure ter tudo o que precisa para estudar antes de iniciar, assim evita-se interrupções para procurar alguma coisa que faltou;

ü  É interessante saber a hora em que você rende mais nos estudos. Alguns preferem estudar no início da noite, outros pela manhã e há os que gostam da tarde. Perceber-se, faz com que você renda mais;

ü  É bom desacelerar antes de estudar. Isso significa: não iniciá-lo assim que comer, ou logo que chegar da rua, ou de uma atividade física, de um jogo excitante ou qualquer outra coisa que o tenha deixado acelerado. E antes de sentar-se para estudar, procure respirar fundo e lentamente por 1 minuto;

ü  Fazer uma lista do que é importante e do que é urgente, pode auxiliar na hora de elencar as prioridades;

ü  Às vezes alternar as tarefas pode ajudar na falta de concentração. Por exemplo, se está estudando Matemática e começa a perder a concentração, troque para Português e depois de um tempo, retorne à Matemática;

ü  Faça pequenos intervalos a cada 45 minutos (esse número é uma média, pois há quem perca a concentração em menos tempo e quem consiga se concentrar por mais tempo). Pode ser levantar-se e ir até a janela, ir ao banheiro, beber uma água, dar uma olhadinha no celular... após 5 ou 10 minutos, retorne e veja a diferença que faz!

ü  Quando não entendemos um conteúdo não há prazer algum em trabalhá-lo, então é imprescindível que se compreenda o que se está estudando;

ü  Dormir bem é essencial para render nos estudos;

ü  Ler o material antes da aula, quando o professor solicita, auxilia muito na compreensão do assunto, pois a aula acaba sendo uma forma de consolidar aquilo que o estudante já tinha uma noção;

ü  Fazer anotações durante a aula pode auxiliá-lo a manter a atenção e ainda entender mais o que está sendo ensinado, pois faz-se um esforço para captar o mais importante do que o professor está trabalhando;

ü  Sublinhar os textos com lápis ou marcadores e escrever comentários nas margens podem ser excelentes técnicas para estudar um conteúdo. Tem um resultado equivalente ao que foi dito acima, sobre anotações durante as aulas;
ü  Anote pontos que ainda não estão bem compreendidos e pergunte ao professor na aula seguinte;

ü  Fazer resumos ajuda na memorização e no entendimento mais profundo dos assuntos;

ü  Num resumo, esboce ideias gerais, mas também detalhes e exemplos do assunto;

ü  Use recursos gráficos, como desenho e cores para realçar os esquemas de estudo;

ü  Estudar em pequenos grupos pode ser uma boa estratégia;

ü  Falar sozinho sobre o conteúdo, explicando a si mesmo como se fosse um professor e ler em voz alta também são formas de estudar;

ü  Quando começamos a ter vários professores e diversas disciplinas (Anos Finais ou Ensino Médio), temos a tendência de deixar o tema para ser feito no dia em que deverá ser entregue. Esse é um dos maiores erros cometidos pelos estudantes, pois acaba se tornando apenas uma tarefa feita mecanicamente (ou até nem feita!). O tema é uma forma de estudo, então, quanto mais fresca a aula estivem em nossa memória, melhor para conseguirmos executar as tarefas. Além do fato de nos organizarmos de forma muito mais efetiva;

ü 






E por fim, estudar um pouquinho cada dia, a respeito do conteúdo trabalhado na aula daquele dia ou na do dia anterior, é sem dúvida, uma excelente forma de garantir que não haverá pânico na hora das avaliações.

DICA: Atividades extraclasse como esportes, são excelentes, mas quando há equilíbrio entre essas aulas, a escola e eventos sociais. E quanto mais um estudante se desorganiza em relação aos estudos, menos atividades extras ele deve ter.

O que é um mapa mental?

                 É uma estratégia de organização visual das ideias, por meio de palavras-chave, cores, imagens, símbolos e figuras. Toda organização se dá em torno de um desenho que tem, ao centro, um conceito.


            Segundo estudos, é uma forma de transformar as peças soltas de um conhecimento em um quadro coerente, que faça sentido.





Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Tuesday, January 31, 2017

Julguem - eu também fiquei com pena do Eike


Me julguem, mas eu fiquei com pena do Eike. Melhor! Não me julguem, porque ao menos eu tenho coragem de expor o que penso e sinto, custe-me o que custar. E num mundo onde a coragem está em desuso, penso que atitudes como essa são dignas, ao menos, de um pouquinho de admiração.
Ontem, assistindo à entrevista do Eike Batista, me vi pensando nas voltas que o mundo dá e no quanto tudo se transforma. Lógico que sei que ele está lá por conta própria! Seja por uma cobiça gigantesca, por uma falta de limites absurda ou pela crença, cada vez mais errônea, de que “não dá nada” nesse país, lá estava um homem que teve, aparentemente, tudo o que um ser humano poderia desejar. Da Lamborghini exibida na sala a uma das mulheres mais desejadas do país ostentando uma coleira com seu nome! Ele teve muito mais do que a maioria esmagadora do Brasil terá na vida. E mesmo assim, senti pena dele.
Logo a piedade cedeu lugar à vergonha por estar tendo aquele sentimento e pensei na população carcerária de pobres que nunca tiveram grandes oportunidades na vida. Quanta dessa gente maltratada pela miséria, discriminação e humilhação é diariamente presa sem termos o menor conhecimento. E quantos desses jamais terão a piedade de alguém e muito menos uma pessoa que escreva sobre o que sente em relação a eles...
Saí da frente da televisão ainda meio incomodada e reflexiva e fui cozinhar. Então meu marido surpreendeu-me dizendo que estava sentindo um pouco de piedade do Eike. E eu pensei “O que faz a gente ter esse sentimento por um cara que tinha infinitamente muito mais que nós –  financeiramente falando – e não termos pelo batedor de carteira sem estudo e abusado na infância” ? Ou melhor! O que nos faz termos sentimentos controversos, como raiva e dó, por ambos, mas darmos importância maior ao Eike?
Então hoje acordei pensando que precisava escrever a respeito disso – mais pra organizar minhas ideias do que qualquer outra coisa –, mas antes passei os olhos pela Zero Hora e o que eu encontro?! A coluna do David Coimbra com o título “Fiquei com pena do Eike”! Confesso que senti uma pontinha de alívio... mais alguém, além do pessoal aqui de casa, sentiu o mesmo.
Penso no que o Eike está pensando sobre os rumos que sua vida vem tomando... Coisas como “Por que fiz essas escolhas?”, “Como cheguei a esse ponto?”, “O que vai acontecer comigo a partir de agora?”, “O que meus filhos – e não estou entrando no mérito de serem inconsequentes ‘filhinhos de papai’, porque não se julga amor fraterno – e as pessoas que me são caras estão pensando de mim?”, devem, em algum momento ter passado pela sua cabeça... Comentando isso com uma amiga, ela logo me deu a seguinte previsão do futuro: “Daqui a alguns dias ele sai da cadeia, e mesmo pobre tem muito mais do que a gente terá pelo resto da vida!”. Talvez ela tenha razão, mas eu ainda acredito que ninguém passa incólume por um presídio. Uns aprendem a serem ainda mais cruéis, outros a se revoltarem contra uma sociedade que tem o despautério de submeter seres humanos a condições desumanas, outros a nunca mais voltarem pra lá. Mas independente do resultado, ninguém passa ileso emocionalmente por uma experiência dessas. Talvez nem nós, meros expectadores.

Lisandra Pioner

Professora, Psicopedagoga e Colunista da ZH

Monday, January 16, 2017

Que você entenda que isso também passa...


Sou fã de frases que, apesar de repetidas, sejam profundas e viscerais, nos tirando do comodismo ou do conformismo apático. Uma dessas frases é “Isso também passa...”! Pensei nela em um dos momentos mais difíceis da minha vida, quando me vi sem emprego e sem saber o que seria do meu futuro, afinal, meu trabalho era o que realmente me caracterizava. Então, a partir daí descobri duas novas lições!
A primeira, foi que essa frase precisava ser repetida nos momentos muito felizes; aqueles em que a gente esquece que a vida é feita de ciclos e que tudo tem início, meio e fim. Desta forma tenho aprendido a não ser apegada a situações; afinal nós não somos, apenas estamos.
A segunda, foi que um trabalho não poderia me caracterizar. Eu poderia fazer uso de boas características em meu emprego, mas não poderia jamais permitir que ele me definisse. Somos muito mais do que uma profissão.
Falando em profissão, me formei em 2002 no curso de Pedagogia, mas este não era o curso que gostaria de fazer naquela época. Queria Psicologia e por uma curiosidade em prestar vestibular pela primeira vez acabei passando e permanecendo. Aproveitei que o curso tinha um preço bem menor do que a maioria e segui estudando, tendo as mensalidades pagas pela minha família. Consigo imaginar o quanto de sonhos pessoais meus pais adiaram por minha causa. Acredito que os ressarci sendo uma boa profissional. Mas ainda assim, tive a oportunidade de lhes agradecer abertamente exatos 15 anos após a minha formatura, por telefone.
Estava em um churrasco onde todos (exceto eu) faziam parte de uma antiga turma de formandos em Administração e a conversa girava em torno das dificuldades que tiveram para pagar as mensalidades. Falaram de crédito educativo, da pilha de docs de pagamento preso à geladeira, das inúmeras vezes que pensaram em desistir. Então me dei conta, na sutileza daquela conversa, de que nunca havia precisado passar por aquilo e na mesma hora peguei o celular e fiz questão de agradecer aos meus pais pelo esforço que fizeram por mim. Isso aconteceu em dezembro e apesar de já passado um tempo, lembro bem da voz do meu pai ao telefone, me ligando na mesma hora para agradecer pela mensagem de gratidão que havia enviado. Mais duas lições: nunca é tarde para ser grato e por mais que a condição não seja ideal, é imprescindível fazer o melhor que podemos.
Outra frase que considero incrível e muito sábia é: “Que você aprenda a descansar ao invés de desistir”. E essa serve para faculdades, empregos, casamentos, dietas, objetivos e até caminhadas! Muitas vezes é aparentemente mais fácil abandonar e tentar um novo começo, mas muitas vezes não é a atitude mais inteligente. O caminho a ser percorrido até a estabilidade e a harmonia costuma ser cheio de desvios, buracos e obstáculos, mas a desistência quase sempre só leva a um novo percurso cheio de desvios, buracos e obstáculos também. Talvez mude um pouco a paisagem, mas os percalços são parte de todo e qualquer trecho que escolhamos. Por isso a importância de aprendermos a parar, tomar fôlego e continuar.
Acredito que uma das coisas mais complicadas da vida sejam os relacionamentos íntimos. Creio nisso por vivência pessoal, por observações e pelas estatísticas. Não é à toa que o número de divórcios é crescente. Um pouco por causa da quantidade imensa de oferta, eu sei... mas muito porque relacionar-se intimamente com alguém nos deixa expostos feito ferida aberta! E essa exposição nos incomoda, algumas vezes nos machuca e muito nos cansa. Então, que possamos descansar da fadiga emocional, recuperarmos a respiração e retornarmos às nossas relações, sem desistir delas.
Que consigamos fazer isso com a dieta em uma ou outra refeição; com nossos empregos, nos dando pequenos intervalos diários; com nossos estudos por um ou dois dias. Isso é dar-nos nova chance, é presentear-nos com viço, é nos permitir recomeçar de onde paramos. Sem boicote, sem engano, sem precisar começar do zero sabendo (lá no fundo) que mais cedo ou mais tarde o cansaço chegará novamente.
E esses são meus desejos para 2017: menos apego, porque tudo é passageiro; mais descansos que evitem a desistência.

Um excelente 2017 a todos nós!

(Texto escrito para o LinkedIn)
Lisandra Pioner