Monday, December 12, 2016

Parceria Escola e Família


Encontro de colunistas da ZH


Com muita satisfação e gratidão ao Universo, novamente fecho o ano fazendo parte desse time tão especial!
Lá estou eu, na mesma foto em que a Lya Luft, Martha Medeiros, Luís Fernando Veríssimo, JJ Camargo e tantas outras pessoas, pelos mesmos motivos: a escrita e a opinião bem embasada!
Obrigada a todos que me leem, que fazem questão de me elogiar e que são parte indispensável dessa constante caminhada em direção a um futuro permeado pela reflexão, pela liberdade de expressão e pelo respeito a todos!
Obrigada de coração!

Tuesday, October 18, 2016

Você sabe o que é Dislexia?


O que é Dislexia?
A palavra Dislexia vem do grego e significa “dificuldade com as palavras”.
Ela é considerada um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a linguagem, causando dificuldades relacionadas à leitura e à escrita.
Tipos de Dislexia
Dislexia do Desenvolvimento é aquela inata, ou seja, que nasce com o sujeito;
Dislexia Adquirida é resultado de uma lesão no cérebro, causada por acidente ou doença.
Como a Dislexia se manifesta?
Se manifesta através de uma dificuldade importante na leitura e na escrita. E como há níveis diferentes de manifestação, um indivíduo disléxico pode ter um determinado grau de dificuldade, enquanto outro disléxico possua um comprometimento muito maior.
A Dislexia tem cura?
Não existe cura para a Dislexia. O que existem são formas diferenciadas de se trabalhar, que ajudam o disléxico.
O que é importante saber sobre a Dislexia:
·        Não tem nada a ver com nível intelectual. Inclusive há muitos disléxicos com inteligência acima da média;
·        Não é uma recusa para aprender;
·        Ela pode vir acompanhada por comorbidades como desatenção, desorganização, problemas de memória de curto prazo;
·        Não possui causa ambiental.

Atenção!
Uma criança que possua Dislexia e não tenha um diagnóstico adequado, pode passar por inúmeros fracassos na escola. Muitas vezes esses fracassos são os responsáveis pela desmotivação, baixa autoestima, falta de confiança e até mesmo depressão do estudante, o que acaba afastando-o do ambiente escolar e impedindo-o de seguir os estudos.

A primeira pessoa que costuma observar um comprometimento nos atos de ler e escrever é o professor, por isso a importância de termos profissionais capacitados para, pelo menos, fazer o encaminhamento a um profissional que possa fazer esse diagnóstico. Esse olhar do professor, unido à ação pode ser decisiva no que separa um fracasso de um sucesso escolar.
Dica:

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora

Monday, October 17, 2016

Educação, Saúde Mental e Profissão Professor


Saúde mental deixou de ser caso da Medicina faz tempo! Mais do que nunca esse tema tem feito parte do cotidiano das escolas públicas e privadas de todo o país, tanto quando nos referimos a estudantes quanto a professores.
No caso dos professores, eles têm sido alvo de estresse, depressão e mais recentemente, Síndrome de Burnout –fadiga crônica relacionada à sobrecarga de trabalho. E convenhamos que não é pra menos. Professores são acumuladores de tarefas para as quais faculdade alguma prepara. São casos delicados ligados diretamente à vida humana – aprendizagem, transtornos, afetos, saúde mental e física, problemas sociais e emocionais.
Já no caso dos estudantes, muitos são os que possuem algum comprometimento emocional ou fisiológico que repercutem diretamente na aprendizagem. Ansiedade, depressão, hiperatividade, desatenção, entre tantos outros.
Aos professores já não basta compreenderem o processo ensino-aprendizagem; se faz imprescindível a compreensão da totalidade do sujeito, com todas as suas mazelas e vicissitudes. Professores precisam entender de Psicologia, de Neurociência, de Psiquiatria, de Neurologia, de Fonoaudiologia e acima de tudo, precisam entender de empatia. Porque cabe ao professor, enquanto representante da escola, ajudar a criança em seus problemas, compreendendo-os, encaminhando ao profissional mais adequado, e muitas vezes lidando com a ausência de auxílio por parte da família, que em alguns casos está tão fragilizada quanto a criança.
Não é fácil, não é simples, não tem receita pronta, não há milagre que resolva, mas também não há como ignorar. E se considerarmos a totalidade de professores brasileiros, poucos são os que sabem exatamente do que trata a saúde mental e socioemocional. Falta conhecimento, falta informação, falta oportunidade, falta formação continuada. Temos uma sociedade em mudança constante e um sistema estagnado, muitas vezes cabendo ao profissional, de forma solitária, o engajamento e a busca de auxílio para suas aflições profissionais.
E como se não bastasse, além de cuidar de uma sociedade inteira – através das crianças e suas famílias – há de lembrar que é imprescindível cuidar-se também, seguindo o velho “ensinamento de avião”, que diz que antes de colocar a máscara de oxigênio no outro, é preciso colocá-la em si mesmo.
Vida longa e feliz aos nossos heróis, também chamados de professores.

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora

Wednesday, August 31, 2016

Os esportes e a infância



Sim, pode estar “batido”, cansativo e repetitivo, mas apesar de o assunto ser esportes, meu foco é um pouquinho diferente do que a maioria das pessoas têm falado. Minha intenção é refletir sobre a importância do esporte na vida das nossas crianças. E quando falo em esporte, não me refiro à Educação Física que é (mal e pouco) realizada nos colégios. Na maioria das vezes um ou dois períodos semanais com menos de uma hora cada. Só milagre faria parecer algo importante se nem mesmo as escolas dão importância.
O esporte é um grande agregador de valor, se utilizado com a devida seriedade e consideração. O mérito do esporte na vida de pessoas que fizeram dele algo útil e estimado é inquestionável. O esporte desenvolve competências técnicas e sociais com uma eficiência muito maior do que qualquer outra atividade, principalmente por ensinar a fazer, fazendo. Ou seja, é na prática que ele molda e interfere na vida das pessoas que o praticam. Além disso, estimula diversas habilidades como colaboração, comprometimento, adaptação, iniciativa, engajamento, foco, relacionamento interpessoal e resiliência. Ensina a lidar com as frustrações inevitáveis, com suas necessidades, expectativas e desejos (e com as dos outros também), a criar estratégias para vencer seus próprios limites, a admirar outras pessoas, cria obrigações e responsabilidades, inclui, exige esforço, convívio, resolução de conflitos, trabalha valores éticos e morais... Ufa! Proporciona o desenvolvimento integral do indivíduo. Alguma dúvida disso?
E a escola é, sem dúvida alguma, um excelente espaço para que tudo isso comece a acontecer. Afinal, se a escola não é o lugar onde se deve mostrar o mundo, desenvolver competências e instrumentalizar as crianças e jovens para lidarem com o que está por vir, então não sei mais para que serve...
Sim, o ENEM é importante, a quantidade de alunos que saem do Ensino Médio e conseguem uma vaga em universidades públicas é importante, a colocação em cursos e concursos de todas as áreas é importante. Mas me desculpem a sinceridade plangente, o grande mal das novas gerações não é a falta de preparo para conquistarem uma posição; é a falta de preparo para lidar com toda e qualquer circunstância que saia um pouquinho fora do esperado. É a inabilidade para lidar com oposição ou imprevisto, a falta de empenho e a desconsideração pelo outro.
Somente os esportes podem ajudar as nossas crianças? Claro que não! Mas que os esportes certamente as ajudam, tenho certeza absoluta. Podem comprovar!
(Texto do Jornal Zero Hora, de agosto de 2016)

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora

O desafio da empatia


O grande, o imenso, o tremendo, o desastroso mal do século, na minha opinião, é a falta de empatia. Para quem não sabe: empatia, substantivo feminino; habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa; compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outro. Só isso já é mais do que suficiente pra eu dizer que a empatia, pra mim, é muito mais do que um substantivo, é puro adjetivo!
Empatia é a capacidade, quase extinta, do ser humano colocar-se no lugar do outro e parar antes de render-se ao impulso de falar ou de fazer algo que machuque, magoe ou coloque deliberadamente o outro em uma posição dolorosa ou humilhante.
É a falta de empatia que impede que o motorista do carro dê lugar ao outro que está dando pisca. É a falta de empatia que permite que o colega mais forte pegue o lanche do mais fraco. É a falta de empatia que sustenta o conselho “se ele te bateu, bate de volta”. É a falta de empatia que concede a possibilidade de alguém dar um “furo” na fila, seja do cinema ou do caixa, para amigos, sem pensar no restante que está atrás. É a falta de empatia que consente que um cargo seja ocupado pelo mais amigo ao invés do mais competente. É a falta de empatia que consente que se xingue o professor pela frustração em relação aos filhos.  É a falta de empatia que provoca muitos dos roubos, dos sequestros, dos assassinatos.
Ter empatia é difícil. Ainda mais em um mundo que nos exige produtividade e excelência full time. Ter empatia dá trabalho. Faz com que saiamos da confortável posição de exclusividade e enxerguemos o outro. Aliás, mais do que ver o outro, exige que nos coloquemos em seu lugar. Que abandonemos o “egocentrismo infantil de estimação” e olhemos em torno. E olhar em torno causa vertigem. Olhar em torno provoca medo e angústia. Olhar em torno faz com que percebamos que há menos e que há mais do que nós. Olhar em torno faz com que percebamos que há. Há muito. Há muitos.
Mas ter empatia é aprendizado! Ninguém nasce empático. Nos tornamos – ou não. Empatia se ensina, se exercita, se treina. E é imensamente mais fácil quando se é criança. E é ainda mais fácil, quando se é pai ou mãe. Mas ser empático com os próprios filhos, não é mérito algum. Se os filhos nada mais são do que extensão de nós mesmos, estaremos apenas nos cuidando e nos beneficiando.
De seres humanos narcisistas, conectados a tudo e desconectados do outro, já temos um grande contingente. O que precisamos agora é de altruísmo. E quando nos tornamos pais, ganhamos a oportunidade de aprendermos a ser empáticos – se ainda não somos. E a oportunidade de criarmos crianças empáticas – um verdadeiro presente para o mundo! Aproveitemos essa vantagem!
(Texto de julho de 2016, do Jornal Zero Hora)

Lisandra Pioner

Mundo melhor para os filhos ou filhos melhores para o mundo?


Tenho sentido medo do futuro. Sinceramente tenho sentido muito medo... não medo de morrer ou de ficar doente. Meu medo é de permanecer lúcida tempo suficiente para ver o que será do planeta daqui a vinte ou trinta anos. Falo do clima, do excesso de lixo, da miséria, do desemprego, da desonestidade. Mas me refiro principalmente às relações. Já pensou no que será das relações interpessoais daqui a um tempo?
Hoje em dia a tolerância é quase zero. As pessoas se estressam por muito pouco, a condescendência virou artigo de museu, a gentileza caiu em desuso.
Podemos pensar que daqui a décadas estaremos velhinhos e talvez, com a sabedoria que só o tempo traz, tudo isso irá mudar. Mas já pensou que a geração que vai ser adulta nessa mesma época será composta pelas crianças de hoje? E que nós somos seus exemplos?
Me preocupo com crianças que têm como referência adultos que param em fila dupla, passam sinal vermelho, não param na faixa de pedestre, jogam lixo pela janela do carro, não separam o lixo, dão presentes no lugar de presença, humilham o garçom, estacionam na vaga de cadeirante, xingam o porteiro, fazem intriga pelo Whatsapp, espalham mentiras, tentam derrubar o adversário ao invés de tentar superá-lo, fazem pouco caso do esforço dos outros, não compartilham, inventam desculpas para suas falhas e para as falhas de seus filhos, não ajudam quem precisa, são estúpidos com os humildes, desencorajam os ousados, trapaceiam, falam mal pelas costas, exigem dos outros o que não fazem, debocham, ludibriam, são desleais, arrogantes e impulsivos.
Se hoje já percebemos a liquidez das relações, imagine daqui mais um tempo. Quem é que terá paciência para conviver? Para deixar seu egocentrismo em segundo plano e abdicar de sua soberania?
Nossos filhos são filhos e filhas da era do “Vou te processar”, do “Tô pagando pra isso”, do “Se não fizer como eu quero, vou procurar outro lugar”. Não serão eles, com comportamentos assim cristalizados na memória, que modificarão alguma coisa. É preciso começar agora, começar por nós mesmos.

Antes de pensarmos em um mundo melhor para os nossos filhos, será que não é hora de pensarmos em filhos melhores para o nosso mundo?
(Texto publicado em Junho de 2016, no Jornal Zero Hora)

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora

A possibilidade dos pais...


Criamos uma família, organizamos espaços para abrigá-la, passamos por situações agradáveis, por outras complicadas, ou então, simplesmente não idealizamos essa família e ela acontece e nos surpreende!
Então eles chegam de mansinho... aqueles seres minúsculos que abrigamos durante meses dentro da nossa barriga. Tirados de seu primeiro abrigo, já demonstram independência. Se não nas vontades, nas necessidades. Logo estão exibindo que possuem mais do que urgências fisiológicas como fome, sede e dor; possuem sim, vontades individuais e únicas. Possuem seus próprios desejos.
Quando pequenos contornamos a fissura por doces, o sonho por cada brinquedo novo que a televisão mostra ou o amiguinho ostenta, a falta de vontade de escovar os dentes a cada refeição ou de lavar as mãos antes delas. Mas de repente somos surpreendidos por novos anseios – tão grandes quanto sua própria altura ou idade. Eles já estão adolescendo – o florescer do ser humano.
 Amigos que insistimos que não são boas companhias, festas que teimamos em tentar proibir, roupas que olhamos com desdém, celulares que rezamos para que sejam atendidos ao primeiro toque... Quando nos tornamos pais ou mães, se antes sem fé, passamos a acreditar em algo, nem que seja só para pedir proteção a eles.
O que fazer quando eles crescem? O que fazer com aquele pedaço da gente que criou personalidade e volta e meia nos afronta?
Chega um momento que não interessa o quanto somos parceiros, carinhosos, bons ouvintes, animados, modernos, corujas... eles vão preferir os amigos!
Chega uma fase em que não importa quantos conselhos, quantos pedidos, quantas conversas tivemos... eles irão tomar suas próprias decisões (e elas muitas vezes não serão as melhores – Aliás, alguém conhece um outro jeito de aprender a tomar decisões certas sem ser tomando várias erradas antes?).
Esse é o futuro de todos os pais e mães: em algum momento, sentirem-se órfãos de seus próprios filhos! Faz parte do amadurecimento deles enquanto cidadãos do mundo! Faz parte do nosso, enquanto genitores e cuidadores.
Por mais cansativa e batida que seja essa afirmação, devemos repeti-la a nós mesmos todos os dias: Nossos filhos não nos pertencem! Eles criarão asas e voarão, tecendo seus próprios destinos através de suas escolhas (independente de serem boas ou não; independentes de concordarmos ou não; independentes de estarmos perto ou não). Ser mãe e pai é também nos despirmos um pouco da nossa mania de soberania, de propriedade, de superioridade.
Quem pensa que ser mãe ou pai é ser instrutor, não sabe de nada. Na maioria das vezes é ser instruído, ser desacomodado em suas certezas, ser instigado a mudar convicções.
Nossa possibilidade vai até ali, ali onde começa a liberdade de escolha que demos a eles ou os privamos. Por isso a necessidade de ensinar a selecionar, a discernir, a classificar. Dá trabalho, mas vale a pena.

E independente da fé, rezemos sempre! Nessas horas, de uma ajudinha celestial  não se abre mão.
(Texto publicado no Jornal Zero Hora em maio de 2016)

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora

Wednesday, April 13, 2016

Errar faz parte do processo de aprendizagem

          

                      Muitas famílias me procuram para questionar algumas dificuldades de seus filhos. Uma dessas dificuldades são os erros ao executarem alguma tarefa – principalmente as de Língua Portuguesa. São erros de ortografia, erros de concordância, erros de interpretação.
            A primeira coisa que costumo dizer é que antes de nos apavorarmos com o dito cujo, é necessário observarmos a natureza desse erro. É um erro recorrente ou ele está sendo observado só recentemente? É um erro estático ou a criança às vezes acerta e depois volta a errar? É um erro que acontece quando a criança está na aula ou ocorre em qualquer momento?
            A natureza do erro é muito importante para que se consiga traçar uma estratégia eficaz. Se o erro se alterna com acerto, a criança pode estar testando hipóteses. Se ele acontece sempre, ela pode não ter compreendido o conteúdo. Se ocorre mais na sala de aula, pode ser distração – já que a quantidade de fatores interferindo é muito maior do que em casa.
            Além disso, professores e estudantes muitas vezes questionam a respeito da correção. Não em relação a corrigir ou não, pois penso que essa dúvida já está sanada, tendo em vista que há alguns anos se insiste na importância de corrigir o que não está certo. Porém, o modo como se dá essa correção é que irá interferir no processo de compreensão da criança. Portanto, esqueça o “corrigir pela criança”. Professor que corrige – sozinho – os erros dos seus alunos está impedindo que haja reflexão sobre ele.
Corrigir caderno é um exemplo típico de equívoco cometido por inúmeros profissionais que muitas vezes estão em sala de aula há décadas! Apontar erros na correção do caderno, verificar a natureza da maioria dos erros cometidos, perceber se a criança faz as correções que deveria – quando solicitado –, observar caligrafia, ortografia e noção de espaço e concluir com um bilhete, é o mais adequado e útil a se fazer. Aliás, o caderno é o retrato do processo de aprendizagem do estudante, portanto, precisa de uma intervenção sutil.
No início da idade escolar os erros precisam, obviamente, ser apontados e corrigidos individualmente, mas conforme a criança vai crescendo e amadurecendo, conquista a possibilidade de, junto com o professor e seus colegas, pensar a respeito do erro que cometeu e corrigi-lo. Só assim terá a grande chance de não voltar a cometê-lo.
Em suma, a atitude dos adultos diante dos erros da criança deve ser sempre a de transformá-lo em uma situação de aprendizagem. E errar faz parte desse processo. Aliás, não há outra forma dele acontecer.

             Lisandra Pioner
Professora, Psicopedagoga e Colunista do Jornal Zero Hora 

Monday, March 14, 2016

Família e tecnologia


         Na minha infância, as crianças brincavam, brigavam, falavam umas das outras, faziam reclamações para os adultos e antes que o turno da aula acabasse, já estavam todas se falando novamente.
Naqueles tempos o professor, embora já fosse desvalorizado economicamente, era respeitado – sinônimo de uma valorização profissional. Às vezes, era até visto como uma autoridade quase inatingível – o que discordo totalmente, já que é a proximidade e o afeto que unem aluno e professor, e facilitam a aprendizagem.
         Na época, a grande maioria das famílias se ocupava efetivamente com a educação das crianças – a parte das “palavrinhas mágicas”, do não debochar dos outros, do saber esperar a sua vez e por aí vai, fazia parte daquela fatia que cabia aos pais ensinar.
         Na minha infância também não existia muita tecnologia. Celular era um sonho distante – assim como carros que voam, hoje em dia. Então tudo o que “facilita” a vida da gente, e que fazemos graças a ele – o celular – não existia também. Redes sociais e whatsapp não faziam sequer parte dos nossos sonhos – nossa imaginação não ia tão longe assim! E os pais, quando se encontravam, falavam de coisas importantes, pois o tempo era escasso e deveria ser bem aproveitado.
         Hoje as coisas mudaram muito...  existe muito recurso tecnológico e pouca mente saudável para usá-lo. As tecnologias hoje unem famílias, agregam pessoas, incendeiam relações, maculam imagens. As pessoas encontraram formas de trocar informações, compartilhar angústias, comentar impressões e de estarem mais perto umas das outras – ou afastarem-se definitivamente! É através desses mesmos recursos que famílias se “conhecem”, se ajudam, se respaldam, se apoiam, e muitas vezes, se inflamam.
         O imediatismo da atualidade não nos permite reflexão. Vomita-se percepções e exige-se posicionamento instantâneo. Não é à toa que vivemos uma época de relações tão voláteis – desde os casamentos até as confrarias de mães ou vizinhas.
Tenho observado, com o passar dos anos, como mãe e como profissional da educação, que tecnologia é uma arma letal, quando mal utilizada. Aliás, como tudo na vida, ela pode beneficiar ou prejudicar: quem está no comando é o ser humano – e é aí que mora o perigo!

Lisandra Pioner
Professora, Psicopedagoga e Colunista da ZH