Eu
já havia iniciado este texto, quando vi uma propaganda na TV, que falava sobre
um filme que mostrava crianças prisioneiras de um jogo de videogame. Ficção? Eu
penso que não exatamente.
Dia
desses me deparei com uma mãe angustiada com a crise emocional de seu filho
desde que ela, num ímpeto maternal de fazer o bem, retirou todos os aparelhos
eletrônicos dele. Segundo ela, a criança estava tendo um baixo rendimento no
colégio e na ânsia de regular o foco do menino para aquilo que realmente é
importante, tirou dele o que, na visão dela, iria fazê-lo repensar. E realmente
o fez repensar. Mas também o fez se desesperar! E diante do desespero dele, ela
também se desesperou.
Pais
e mães estão percebendo o quanto a tecnologia está presente na vida deles e de
suas crianças, mas entram em choque quando percebem que essa importância passou
dos limites há bastante tempo. E isso geralmente ocorre quando esquecem o
celular em casa e seu dia simplesmente parece um emaranhado de problemas, até
que dê um jeito de resgatá-lo. Mas o problema maior surge quando observam que
seus pequenos estão tanto – ou mais – subordinados à sedução desleal de
aparelhos eletrônicos. Aí sim, a questão passa a ser grave.
Vejo
pais e mães apavorados com a desorientação de seus filhos diante da abstinência
tecnológica. As crianças parecem perder – e realmente perdem – o rumo diante da
iminente “catástrofe” de não ter o que fazer para ocupar seu tempo. É a
dependência tecnológica, um vício psicológico, que tem transformado crianças em
subordinados da modernidade. Por isso, o filme que passou na TV não é tão
fictício assim. Conta a verdadeira história que observamos diariamente:
crianças prisioneiras de jogos, de grupos de whatsapp, de redes sociais...
Independente
do causador da dependência, só o fato de um ser humano precisar de algo – com
exceção de oxigênio, água e alimento – já mostra que há algo de errado. Gostar
é uma coisa, necessitar é outra.
Quando
isso acontece com crianças, mais uma vez há uma falha na educação. E acreditem,
o caso dessa mãe não é uma história isolada. Cada dia mais, famílias se deparam
com o fato de terem um dependente mirim em suas casas. E embora haja casos em
que essa dependência já esteja instalada, há muitos outros em que é possível
fazer algo antes que seja tarde.
Pra
começar, a tecnologia não deve ser usada para preencher o tempo. O tempo deve
ser preenchido com estudo, leitura, tarefas do colégio, esportes, auxílio nas
atividades de casa (criança pode ajudar!). E então, após tudo feito e
organizado, aí vem o momento de lazer, que pode ser dividido entre tecnologia e
alguma atividade, de preferência ao ar livre (andar de bicicleta, skate, jogar
futebol, conversar com os amigos, etc.). Mas o tempo deve ser restrito. Dá
trabalho? Ahhhh dá! Dá trabalho dizer não e ouvir uma lenga-lenga interminável
de “só mais 10 minutinhos”, de “prometo que só mais essa partida”, de “é muito
importante, juro que já vou sair”. Isso vai fazer você se obrigar a ser mais
dura. Vai exigir que saia da zona de conforto e se imponha. Vai fazer você ter
que sair da frente do computador, da televisão, do livro, ou seja lá o que você
esteja fazendo, e vá até ele, se certificar de que sua vontade foi acatada. A
maternidade e a paternidade também são feitas disso: cansaço! Mas isso vai lhe
salvar de ver aquele pequeno ser um dia sofrer da privação de algo que não foi
feito para ser bengala de inseguros. A tecnologia veio para servir à humanidade
e não o contrário.
Agora,
se o problema já estiver na sua frente e seu filho – ou filha, pois não é “privilégio”
apenas de meninos – já demonstrar sintomas de dependência de toda essa
parafernália, o segredo é enfrentar o problema urgentemente e se preparar, pois
a batalha é árdua e enfadonha.
Lisandra
Pioner
Professora,
Psicopedgoga e Colunista do jornal Zero Hora