Sunday, April 26, 2015

Texto do jornal Zero Hora (abril/2015)


Estava vendo uma reportagem essa semana sobre a chacina ocorrida no litoral gaúcho. Às tristes imagens de mães sofrendo pela desordem natural das coisas, somaram-se inúmeras outras cenas  em minha cabeça. Cenas de famílias preocupadas com o desaparecimento dos filhos, pais levando suas não mais crianças a clínicas de reabilitação, mães desesperadas fazendo reconhecimento de corpos por causa de trágicos acidentes após fenomenais bebedeiras… Mas nem há necessidade de citar catástrofes. Posso lembrar também, de mães que se mostram perdidas em reuniões de escola, verbalizando o pavor de não terem controle sobre crianças de não mais que 13 anos, ou pais preocupados com o rumo que a educação (ou a falta dela) está acarretando na postura dos filhos. São crianças imediatistas, egocêntricas, ansiosas, desatentas, imaturas (ou excessivamente “maduras”, parecendo mais com adolescentes), que não sabem se colocar no lugar do outro, que enfrentam, que não respeitam, que não aceitam limites…
A estrutura da família pós-moderna mudou e não é de hoje que os pais estão mais ausentes da vida de suas crianças. Mas especialmente hoje em dia, mais do que nunca, a educação encontra-se terceirizada. Os pais, em muitos casos, participam como meros coadjuvantes do que é mais essencial para o futuro de seus filhos, que é o aperfeiçoamento da índole. Isso quando não são apenas espectadores!
Nós adultos, pouco tempo temos para dar conta de tudo aquilo de que somos incumbidos. A sociedade nos exige muito e como marionetes vamos fazendo tudo aquilo que alguém, em algum momento, resolveu decidir que nos competia. Exatamente assim… sem questionar, no piloto automático vamos fazendo o que dizem que devemos fazer. E somado a isso, vamos criando necessidades que não tínhamos, originando situações que temos visto por todos os lugares, seja nos grandes centros ou nas mais precárias periferias.
Nos deparamos o tempo todo com famílias cuja situação financeira é ótima, mas estão dilaceradas emocionalmente. Ou famílias em situação econômica crítica, que tantas vezes (talvez exatamente por isso), também encontram-se despedaçadas.
De uma coisa eu tenho certeza: se não cuidarmos dos nossos filhos, alguém dará um jeito de fazer isso por nós. Às vezes é a escola, em outras são os avós, algumas o vizinho prestativo… mas não podemos esquecer de que em grande grande parte das vezes será o traficante, o alcoolista que “mora” no bar do bairro, o grupo de amigos que vira as noites em festas, a família com valores completamente arbitrários…
A vida é exatamente isso: um eterno refletir, questionar-se e adaptar-se. Tens filho? Então cuide dele. Não delegue essa tarefa a outra pessoa, muito menos a quem não confia.

A criação de uma criança exige tempo, abdicação, resignação, muitas vezes exige até sacrifícios. Mas poder estar perto, vivenciando cada novidade, compartilhando cada nova descoberta e um dia ter a oportunidade de se deslumbrar com uma resposta admiravelmente bem colocada daquele pequeno ser que demos à luz, é um prazer inenarrável, que não há satisfação pessoal ou profissional que supere! Acredite!

Monday, April 06, 2015

O papel do Orientador Educacional


Minha formação é, antes de qualquer coisa, “Orientação Educacional”. Quase não consegui estar habilitada para Anos Iniciais, não fosse minha teimosia (tão peculiar) em não me conformar com as coisas que considero erradas… Não entendia o motivo de eu poder dar aula para professores de Anos Inicias em formação, mas não poder dar aula para crianças. Então, após um árduo processo burocrático junto à Secretaria da Educação, meu diploma veio com um carimbo incluindo essa possibilidade ao meu currículo.
Além de orientadora, sou psicopedagoga institucional. Mas posso dizer, com toda a humildade do mundo, que nem a faculdade, nem a especialização me ensinaram muita coisa a respeito desses dois lugares tão importantes dentro de uma instituição educacional.
Mas meus 13 anos de formação, somados aos meus 35 de sensibilidade visceral me mostraram para que serve o Setor de Orientação Educacional das escolas… o inesquecível SOE, para  muitas crianças!
O orientador faz parte da equipe gestora. É um dos grandes responsáveis (ou deveria ser) pela garantia de um processo de aprendizagem íntegro e calcado em dedicação, seriedade e competência. Ele também trata (ou deveria) de questões ligadas às relações humanas. E para isso, não pode (ou não poderia) ficar dentro da sua sala, apenas aguardando casos complicados, ou “apagando incêndios”, como costuma-se dizer. Esse profissional precisa (ou deveria) estar à frente, se antecipar, ser sensível e pró-ativo o suficiente para antever questões latentes.
Circular pelos espaços, conviver com os alunos e os professores, conhecer um pouco sobre cada família e cada turma é um pouco da dinâmica que está (ou deveria) intrínseca ao trabalho do orientador.
Além disso, o orientador lida com as mais diversas angústias, as mais diferentes especificidades, as mais incríveis singularidades e os mais desesperadores assuntos que rondam os aspectos da aprendizagem humana. E quando falo em “aprendizagem humana”, falo sobre saúde, falo sobre ambiente e falo, principalmente, sobre afetos.
O orientador precisa saber o que fazer, o que dizer e até a quem encaminhar, quando necessário. Costumo dizer que entre instituição, família, estudante e professor, o orientador educacional é o “adulto da relação” (ou deveria ser), pois é ele quem intermedia toda essa conexão complexa, tantas vezes inundada por sentimentos confusos e ocultos.
Para simplificar, eu poderia listar uma quantidade enorme de atribuições. Aliás, farei isso, porque realmente penso que é necessário catalogar, enumerar e refletir a respeito de cada uma delas. Pois bem…. o orientador:
*Conhece a legislação;
*Media conflitos;
*Auxilia os membros da instituição no conhecimento de comportamentos esperados e identificação de comportamentos inadequados, além dos casos relativos a problemas e dificuldades de aprendizagem;
*Participa e zela pela execução do Projeto Político Pedagógico da escola;
*Escuta e dialoga com os membros da comunidade escolar;
*Orienta estudantes em relação ao seu desenvolvimento pessoal, escolar e até profissional, primando por atitudes, emoções e valores éticos;
*Trabalha com projetos que organizam a sua atuação, fazendo com que esteja no cerne das questões relativas à aprendizagem e comportamento;
*Auxilia o professor no ajuste de sua atuação em relação a casos específicos;
*Busca informações sobre diagnósticos dados a alunos, e as leva ao professor e a todos os membros atuantes da escola, auxiliando no entendimento e melhor atuação destes com a criança;
*Tece uma rede de diálogo entre todos os profissionais que atuam com os alunos, como: neurologistas, psicopedagogos, psicólogos, fonoaudiólogos, etc.;
*Cuida dos interesses do aluno e do professor, fazendo questão de que o trabalho em sala de aula se dê da melhor forma possível, porque sabe que, em primeiro lugar está a garantia de que a aprendizagem se efetive;
*Exige informações que façam diferença no processo de ensino-aprendizagem, como diagnósticos de estudantes.
E acima de tudo, o orientador estuda (ou deveria). Ele nunca deixa de aprender e de compartilhar seus conhecimentos.
Por isso, creio que não há como ser um bom orientador e um orientador de gabinete ao mesmo tempo. São posições totalmente antagônicas! Pra quem está se formando ou está querendo mudar de rumo profissional, desejando uma bela sala e uma confortável cadeira, aconselho a desistir, porque o mercado está saturado deste perfil de profissional.
As escolas estão implorando por orientadores atuantes! Orientadores que volta e meia frequentem as salas de aula, porque é lá dentro que a gente aprende a lidar com os personagens que lá estão. Não existe milagre, nem sorte. Existe gente que se esforça para que as coisas mudem.
Lisandra Pioner

Professora, psicopedagoga e colunista da Zero Hora