Monday, March 14, 2016

Família e tecnologia


         Na minha infância, as crianças brincavam, brigavam, falavam umas das outras, faziam reclamações para os adultos e antes que o turno da aula acabasse, já estavam todas se falando novamente.
Naqueles tempos o professor, embora já fosse desvalorizado economicamente, era respeitado – sinônimo de uma valorização profissional. Às vezes, era até visto como uma autoridade quase inatingível – o que discordo totalmente, já que é a proximidade e o afeto que unem aluno e professor, e facilitam a aprendizagem.
         Na época, a grande maioria das famílias se ocupava efetivamente com a educação das crianças – a parte das “palavrinhas mágicas”, do não debochar dos outros, do saber esperar a sua vez e por aí vai, fazia parte daquela fatia que cabia aos pais ensinar.
         Na minha infância também não existia muita tecnologia. Celular era um sonho distante – assim como carros que voam, hoje em dia. Então tudo o que “facilita” a vida da gente, e que fazemos graças a ele – o celular – não existia também. Redes sociais e whatsapp não faziam sequer parte dos nossos sonhos – nossa imaginação não ia tão longe assim! E os pais, quando se encontravam, falavam de coisas importantes, pois o tempo era escasso e deveria ser bem aproveitado.
         Hoje as coisas mudaram muito...  existe muito recurso tecnológico e pouca mente saudável para usá-lo. As tecnologias hoje unem famílias, agregam pessoas, incendeiam relações, maculam imagens. As pessoas encontraram formas de trocar informações, compartilhar angústias, comentar impressões e de estarem mais perto umas das outras – ou afastarem-se definitivamente! É através desses mesmos recursos que famílias se “conhecem”, se ajudam, se respaldam, se apoiam, e muitas vezes, se inflamam.
         O imediatismo da atualidade não nos permite reflexão. Vomita-se percepções e exige-se posicionamento instantâneo. Não é à toa que vivemos uma época de relações tão voláteis – desde os casamentos até as confrarias de mães ou vizinhas.
Tenho observado, com o passar dos anos, como mãe e como profissional da educação, que tecnologia é uma arma letal, quando mal utilizada. Aliás, como tudo na vida, ela pode beneficiar ou prejudicar: quem está no comando é o ser humano – e é aí que mora o perigo!

Lisandra Pioner
Professora, Psicopedagoga e Colunista da ZH