Thursday, July 23, 2015

Aula particular ou atendimento psicopedagógico?


Aula particular e atendimento psicopedagógico são coisas distintas. Aula particular é uma espécie de reforço dos conteúdos escolares e resgate de conteúdos ainda não bem assimilados ou compreendidos. Geralmente dura 1 hora e é realizado na quantidade de vezes que família e professora considerarem necessária, sendo que muitas vezes há um “intensivo” em época de avaliações. Já o atendimento psicopedagógico é realizado, na maioria das vezes, de 1 a 2 vezes por semana, e não tem a intenção de revisão de conteúdos ou execução de tarefas escolares. Cada sessão costuma durar 45 minutos e a intenção primordial do tratamento é auxiliar a criança que possui algum entrave na aprendizagem, a descobrir-se, valorizar-se e encontrar estratégias que o auxiliem em sua dificuldade.
Essa busca de estratégias não é através de aula, de explicações de conteúdos ou de treino. É através de um trabalho minucioso e muitas vezes demorado, onde o profissional e o paciente precisam desenvolver um vínculo e depois, através de jogos, conversas e brincadeiras, perceber quais as fragilidades, os pontos fortes e as possibilidades de trabalho. Em muitos casos, só esse movimento de atenção à criança já faz com que seu funcionamento modifique e até progrida na escola – local em que a dificuldade apareceu. Existem casos diferentes, que não são problemas, mas transtornos ou dificuldades de aprendizagem e que exigem estratégias específicas para um tratamento eficaz. Tudo depende de avaliação e tratamento com um profissional capacitado e competente.
O papel do professor particular é bem mais específico e dinâmico no que diz respeito a conteúdo, organização e estudo. Se a criança não tem dificuldade ou problema algum de aprendizagem, apenas precisa de um auxílio em disciplinas ou conteúdos restritos, o caso pode ser de aula particular. Mas é importantíssimo salientar uma coisa: em 99% das vezes, não adianta contratar um professor para dar aula apenas dias antes das avaliações. A criança começa a tirar notas baixas e não compreender algo, após acumular questões não compreendidas. Então aula particular como “pronto-socorro”, só serve para alunos com pouquíssimas dúvidas, que precisam rever detalhes – o que é uma raridade!
Alguns pais pensam que economizam ao fazerem 1 aula por semana ou parando sempre que há uma “folga” de provas. E infelizmente, na maioria das vezes, a criança não consegue atingir os objetivos, pois 1 hora pra estudar meses de déficit de compreensão é quase nada! E depois de compreender, precisa treinar, estudar, verificar se realmente aprendeu. Isso não se faz em 1 hora. Mas se não há outro jeito, lógico que 1 hora com um bom professor é melhor que nada. Mas aí a família precisa acompanhar e exigir que essa criança estude em casa.
Nem professor particular, nem psicopedagogos fazem milagres.
Lisandra Pioner

Professora e Psicopedagoga

Tuesday, July 21, 2015

A frieza do mundo adulto...


Sim. Eu sempre fui defensora – e continuo sendo – da legitimidade da dor infantil. Sei que as crianças podem sofrer tanto – ou mais – que um adulto... o que muitas vezes muda, é o motivo dessa dor. Mas convenhamos, ficar medindo dor é uma coisa um tanto quanto desnecessária, pra não dizer idiota. Então vamos ao que interessa! O que quero dizer com isso é que, embora eu saiba – e lembre bem – que a infância não é o período colorido e doce que 90% dos adultos pintam, tenho me visto cada vez mais desacreditada nesse mundo adulto em que vivo...
Cresci, me sustento, trabalho no que amo, tenho total liberdade – e arco com todo o significado dessa palavra – vivo do jeito que consigo, tentando me enquadrar no que esperam de mim – sem me enquadrar tanto a ponto de me descaracterizar, porque é exatamente aí que reside a minha maior característica: não concordar com o que não concordo – mas aí me pego, querendo ou não, vivendo conforme uma adulta. Aceitando o que não está certo. Fazendo o que não concordo. Agindo como não gostaria.
Costumo dizer às crianças, que todas as fases são boas. Que embora a infância seja muito legal, crescer faz parte da viagem e já que somos obrigados a isso, temos que fazê-lo da melhor forma – como tudo, aliás. Em primeiríssimo lugar, digo que não devemos fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem conosco – e que por mais clichê e boba, essa deveria ser a máxima de todas as máximas. Digo que precisamos ser éticos. Que não interessa se agiram certo conosco, o que importa é fazermos o certo – independente de qualquer coisa. Que devemos ter valores firmes, nas sem perdermos a flexibilidade. Digo que fofoca é a pior coisa que o ser humano inventou. E que quem fala de alguém pra gente, fala da gente pra alguém. Digo que devemos confiar em poucos, mas sem exigir demais deles, pois o maior erro está na expectativa que criamos em relação às pessoas. Digo que devemos nos preservar, mas devemos ter opinião sempre. Tento explicar que mesmo que ter bens materiais seja bom, diante da grandiosidade do Universo, isso é muito pequeno e que as minhas maiores conquistas, sem dúvida alguma, não podem ser medidas em moeda alguma, porque foram sentidas. Digo que nem tudo que a gente pensa deve ser dito. Que antes de apontar o dedo e falar dos defeitos dos outros, devemos ver que aí já está o nosso grande defeito: apontar o defeito alheio. Que sem esforço ninguém chega a lugar nenhum, a não ser que tenha uma família abastada ou seja um grande “puxa-saco”, mas que daí a vitória não tem o mesmo sabor. Que todo mundo espera reconhecimento e que isso muitas vezes está num elogio, num bilhetinho, num abraço... Digo sempre, sempre, sempre que valorizo muito mais a dedicação e a força de vontade que a inteligência inata e desleixada – definitivamente não faço parte dos que acham isso charmoso. E digo que seria tão bom se eles nunca perdessem a leveza e a alegria da infância...
É isso que mais sinto falta do lado de cá – o lado dos adultos... falta de menos dedos apontados. De mais honestidade e sorriso sincero. Sinto falta da quase inexistência de inveja – ou pelo menos a inveja que não agride. Sinto falta de ser menos lesada por um sistema opressor e individualista, que coloca à prova diariamente o que tento passar às minhas crianças.
Me sinto infeliz quando vejo o que pago de imposto. Me sinto decepcionada quando vejo gente que convive e que tenta difamar, ofender e magoar o outro – porque eu estou bem longe de ser simpática, mas estou bem mais longe de ser má. Me sinto triste quando percebo que tem gente que trabalha tanto e conquista tudo com uma dificuldade dolorida e que perde tudo de repente – seja por um rompante da natureza ou por um esquema corrupto. Me sinto desacreditada quando vejo políticos roubarem da saúde (principalmente)... como alguém pode dormir, viajar pelo mundo, comer em bons restaurantes, sabendo que tem gente morrendo por sua culpa, agonizando de dor em um corredor de hospital mal conservado? Eu não entendo essas coisas... Eu não compreendo a lógica adulta... e se compreender coisas desse tipo me fizer ser conivente, não quero entender nunca.
E penso mais sobre isso... a gente reclama dos grandes erros o tempo todo. Reclama do que fazem conosco. Reclama da impunidade, da baixaria, da falta de vergonha na cara... mas o pior é que se a gente olhar com um pouquinho mais de atenção, muitos de nós fazemos – proporcionalmente ao nosso poder – coisas tão desprezíveis quanto as que reclamamos.
Sabe aquele jeito de estacionar de forma oblíqua, num estacionamento não oblíquo? Tá errado.
Sabe aquela paradinha de 5 minutos na vaga de idoso ou deficiente? Tá errado.
Sabe aquele troco que recebemos a mais e aceitamos, afinal somos roubados pelo sistema o tempo todo? Tá errado.
Sabe aquela troca de pista repentina no trânsito sem dar pisca? Tá errado.
Sabe aquela roupa que você usou e devolveu pra loja? Tá errado.
Sabe aquele comentário maldoso da sua colega de trabalho, dizendo que a “fulana” tem regalias, e que você passou adiante? Tá errado.
Sabe aquela ofensa que você presenciou e se omitiu? Tá errado.
Sabe aquele papel que você tenta jogar no lixo e não acerta, então deixa ali jogado no chão mesmo? Tá errado.
Sabe aquele livro que você pediu emprestado e nunca devolveu? Tá errado.
Sabe aquilo que você encontrou, sabendo quem era o dono, e usou a lógica do “achado não é roubado”? Tá errado.
Sabe aquele cara comprometido que você fica de vez em quando, já que o “comprometido é ele e não você”? Tá errado.
Eu posso ser tachada de chata, de politicamente correta, de eterna insatisfeita ou eterna adolescente descontente com a realidade... mas eu acho que eu prefiro ser tachada de tudo isso, a aceitar o inaceitável.


Tenho me sentido cansada, exausta às vezes... um professor precisa acreditar na evolução, na mudança... um professor pode perder tudo, menos a fé no ser humano. Mas eu confesso que às vezes perco, desacredito, me questiono se não estou perdendo tempo, me importando com quem não se importa: a humanidade. O bom é que isso dura poucas horas – Tá. Ás vezes alguns dias. – e geralmente é quando estou longe das crianças... São elas que me humanizam, são elas o meu bálsamo da juventude – não da pele, porque essa só botox e olhe lá!, mas do coração, afinal, no final de tudo, há de ser ele o que realmente importa.
Lisandra Pioner

Friday, July 17, 2015

Só não seja chato…


Seja religioso, conformado, imprudente, crítico, saudosista, recordista, irônico, antipolítico, curioso, preguiçoso, seja o que você quiser, mas por favor, não seja chato!
Chato é aquele cara que, quando encontra algo em que acredita, precisa visceralmente fazer com que todos acreditem também. Acreditem e enalteçam. Acreditem e façam propaganda. Acreditem e queiram convencer a todos de que aquilo sim, é o melhor.
O chato costuma falar mais do que ouvir. E quando começa a falar, não para até que alguém – em um misto de bom senso e coragem – troque de assunto. Ele não entende que tudo em excesso é chato.
Falar demais é chato. Defender exageradamente uma ideia é chato. Querer ter sempre razão é chato. Falar apenas um assunto é chato. Tentar convencer todo mundo de algo é chato.
Num mundo que tenta o tempo inteiro ser tão politicamente correto – ao menos online, porque off-line a gente sabe que é outra história – a coisa mais fácil é se tornar um chato. Eu poderia elencar os chatos virtuais por assunto... então vamos lá!
O chato detox. É aquele cara que só toma suco verde de manhã, se entope de chia, só consome orgânico e olha incrédulo quando te vê pedindo algum alimento sem antes inspecionar se tem glúten ou lactose.
O chato humanizado. Esse geralmente é interpretado majestosamente pelo gênero feminino. É aquela que, depois de ver nas estatísticas a absurda quantidade de partos por cesariana que os médicos fazem, decidiu que não se precisa mais de médico, nem de hospital, nem de material esterilizado. Tudo é uma questão de voltarmos aos velhos e bons tempos em que se segurava na mão da parteira – hoje chamada de doula – abria as pernas, dava meia dúzia de urros e... BUÁÁÁ! Lá estava aquele ser gordinho, cabeludinho e saudável. A única diferença é que agora isso precisa ser registrado em dezenas de fotos, 3 horas exaustivas de filmagem e alguém pra dar um tapa no visual quando a mãezinha estiver suando muito.
O chato ostentação. É aquele que necessita mostrar tudo o que adquiriu nos últimos dias. Pra isso faz post de hora em hora, contando por onde anda, mostrando a quantidade de sacolas e claro, a marca importada no relógio de pulso, na direção da caranga e até no café que segura.
O chato racauchutagem. Mais um assunto que perambula muito mais pelo mundo feminino, mas que volta e meia aparece num cabelo acaju – de algum desavisado sobre as ciladas do tingimento aos cabelos brancos. Esse tipo de chata é aquele que a gente nunca sabe se está olhando pra uma boneca inflável – porque o cabelo é megahair, a pele é “botocada”, os dentes são quase azuis de tanto clareamento a laser, a barriga parece que foi passada a ferro e os peitos estão quase sempre estourando a blusa (sem contar que correm o sério risco de atrapalhar na hora da mastigação da pessoa, não permitindo abrir muito a boca sem bater neles) – ou só pra alguém que não aceita até hoje ter rodado no concurso pra Paquita.
O chato cultural. É aquele que quer sempre dar pitaco no programa de final de semana de todos os amigos. Praça? Só com um bom livro a tira colo. Cinema? Desde que não seja americano. Shopping? Coisa de gente vazia. Televisão? O que é televisão?
O chato maromba. Aquele! O que só posta foto na academia. Que faz o antes e depois a cada 2 semanas. Que vive munido de whey protein e flatos. Que posta todos os dias da semana algo que inicia ou encerra com o mantra “Força, foco e fé”. Aquele que não bebe nada alcoolico, que não deixa de treinar um dia, que só se alimenta de frango, batata doce, brócolis e ovo – sem a gema, que fique bem claro! – e que usa o mesmo suplemento dado aos equinos, mas finge que o corpão é produto de boa alimentação, bom treino e bom sono. Ahã.
O chato religioso. Aquele que já aprontou horrores na vida, mas que de repente, decide mudar. E mudar significa falar que “só o Senhor dá vida, auxilia, cativa, protege, ama, cumpre, tem poder”. E isso precisa estar na postagem de bom dia e na de boa noite... sendo que entre uma e outra ele continua aprontando horrores!
Óbvio que esse é apenas um texto exagerado. A gente sabe que de chato, todos temos um pouco – Tá. Alguns muito, eu sei. Escrevi de uma forma caricata, pois o cotidiano é como fofoca, se não houver exagero, não tem graça!

Bom findi!