Sim. Eu sempre fui defensora – e continuo sendo
– da legitimidade da dor infantil. Sei que as crianças podem sofrer tanto – ou
mais – que um adulto... o que muitas vezes muda, é o motivo dessa dor. Mas
convenhamos, ficar medindo dor é uma coisa um tanto quanto desnecessária, pra
não dizer idiota. Então vamos ao que interessa! O que quero dizer com isso é
que, embora eu saiba – e lembre bem – que a infância não é o período colorido e
doce que 90% dos adultos pintam, tenho me visto cada vez mais desacreditada
nesse mundo adulto em que vivo...
Cresci, me sustento, trabalho no que amo, tenho
total liberdade – e arco com todo o significado dessa palavra – vivo do jeito
que consigo, tentando me enquadrar no que esperam de mim – sem me enquadrar
tanto a ponto de me descaracterizar, porque é exatamente aí que reside a minha
maior característica: não concordar com o que não concordo – mas aí me pego,
querendo ou não, vivendo conforme uma adulta. Aceitando o que não está certo.
Fazendo o que não concordo. Agindo como não gostaria.
Costumo dizer às crianças, que todas as fases
são boas. Que embora a infância seja muito legal, crescer faz parte da viagem e
já que somos obrigados a isso, temos que fazê-lo da melhor forma – como tudo,
aliás. Em primeiríssimo lugar, digo que não devemos fazer aos outros o que não
gostaríamos que fizessem conosco – e que por mais clichê e boba, essa deveria
ser a máxima de todas as máximas. Digo que precisamos ser éticos. Que não
interessa se agiram certo conosco, o que importa é fazermos o certo –
independente de qualquer coisa. Que devemos ter valores firmes, nas sem
perdermos a flexibilidade. Digo que fofoca é a pior coisa que o ser humano
inventou. E que quem fala de alguém pra gente, fala da gente pra alguém. Digo
que devemos confiar em poucos, mas sem exigir demais deles, pois o maior erro
está na expectativa que criamos em relação às pessoas. Digo que devemos nos
preservar, mas devemos ter opinião sempre. Tento explicar que mesmo que ter
bens materiais seja bom, diante da grandiosidade do Universo, isso é muito
pequeno e que as minhas maiores conquistas, sem dúvida alguma, não podem ser
medidas em moeda alguma, porque foram sentidas. Digo que nem tudo que a gente
pensa deve ser dito. Que antes de apontar o dedo e falar dos defeitos dos
outros, devemos ver que aí já está o nosso grande defeito: apontar o defeito
alheio. Que sem esforço ninguém chega a lugar nenhum, a não ser que tenha uma
família abastada ou seja um grande “puxa-saco”, mas que daí a vitória não tem o
mesmo sabor. Que todo mundo espera reconhecimento e que isso muitas vezes está
num elogio, num bilhetinho, num abraço... Digo sempre, sempre, sempre que
valorizo muito mais a dedicação e a força de vontade que a inteligência inata e
desleixada – definitivamente não faço parte dos que acham isso charmoso. E digo
que seria tão bom se eles nunca perdessem a leveza e a alegria da infância...
É isso que mais sinto falta do lado de cá – o lado
dos adultos... falta de menos dedos apontados. De mais honestidade e sorriso
sincero. Sinto falta da quase inexistência de inveja – ou pelo menos a inveja
que não agride. Sinto falta de ser menos lesada por um sistema opressor e
individualista, que coloca à prova diariamente o que tento passar às minhas crianças.
Me sinto infeliz quando vejo o que pago de
imposto. Me sinto decepcionada quando vejo gente que convive e que tenta
difamar, ofender e magoar o outro – porque eu estou bem longe de ser simpática,
mas estou bem mais longe de ser má. Me sinto triste quando percebo que tem
gente que trabalha tanto e conquista tudo com uma dificuldade dolorida e que
perde tudo de repente – seja por um rompante da natureza ou por um esquema
corrupto. Me sinto desacreditada quando vejo políticos roubarem da saúde
(principalmente)... como alguém pode dormir, viajar pelo mundo, comer em bons
restaurantes, sabendo que tem gente morrendo por sua culpa, agonizando de dor
em um corredor de hospital mal conservado? Eu não entendo essas coisas... Eu
não compreendo a lógica adulta... e se compreender coisas desse tipo me fizer
ser conivente, não quero entender nunca.
E penso mais sobre isso... a gente reclama dos
grandes erros o tempo todo. Reclama do que fazem conosco. Reclama da
impunidade, da baixaria, da falta de vergonha na cara... mas o pior é que se a
gente olhar com um pouquinho mais de atenção, muitos de nós fazemos –
proporcionalmente ao nosso poder – coisas tão desprezíveis quanto as que
reclamamos.
Sabe aquele jeito de estacionar de forma
oblíqua, num estacionamento não oblíquo? Tá errado.
Sabe aquela paradinha de 5 minutos na vaga de
idoso ou deficiente? Tá errado.
Sabe aquele troco que recebemos a mais e
aceitamos, afinal somos roubados pelo sistema o tempo todo? Tá errado.
Sabe aquela troca de pista repentina no trânsito
sem dar pisca? Tá errado.
Sabe aquela roupa que você usou e devolveu pra
loja? Tá errado.
Sabe aquele comentário maldoso da sua colega de
trabalho, dizendo que a “fulana” tem regalias, e que você passou adiante? Tá
errado.
Sabe aquela ofensa que você presenciou e se
omitiu? Tá errado.
Sabe aquele papel que você tenta jogar no lixo e
não acerta, então deixa ali jogado no chão mesmo? Tá errado.
Sabe aquele livro que você pediu emprestado e
nunca devolveu? Tá errado.
Sabe aquilo que você encontrou, sabendo quem era
o dono, e usou a lógica do “achado não é roubado”? Tá errado.
Sabe aquele cara comprometido que você fica de
vez em quando, já que o “comprometido é ele e não você”? Tá errado.
Eu posso ser tachada de chata, de politicamente
correta, de eterna insatisfeita ou eterna adolescente descontente com a
realidade... mas eu acho que eu prefiro ser tachada de tudo isso, a aceitar o
inaceitável.
Tenho me sentido cansada, exausta às vezes... um
professor precisa acreditar na evolução, na mudança... um professor pode perder
tudo, menos a fé no ser humano. Mas eu confesso que às vezes perco,
desacredito, me questiono se não estou perdendo tempo, me importando com quem
não se importa: a humanidade. O bom é que isso dura poucas horas – Tá. Ás vezes
alguns dias. – e geralmente é quando estou longe das crianças... São elas que
me humanizam, são elas o meu bálsamo da juventude – não da pele, porque essa só
botox e olhe lá!, mas do coração, afinal, no final de tudo, há de ser ele o que
realmente importa.
Lisandra Pioner