Monday, December 01, 2014

Fragilidades e vida real (Texto Zero Hora - 29/11/2014)


Texto na íntegra:
Se eu precisasse mencionar apenas uma coisa que nunca concordei em relação à educação, seria o excesso de condescendência das escolas em relação a comportamentos inadequados. Calma! Não estou sugerindo aqui, o emprego do regime militar em todas as escolas do Brasil, mas se me permitem uma opinião da qual tenho grande convicção, é a de que estamos sendo condescendentes demais, generosos demais, libertinos demais, lascivos demais, benevolentes demais.
Entendo perfeitamente que o novo estilo de vida contemporânea, fez com que muitas coisas modificassem – inclusive a forma de encararmos a própria vida! Perdemos um pouco da direção, fomos além do que imaginávamos, ganhamos oportunidades nunca sonhadas e nos confundimos com tantas opções... tudo isso está tendo consequências importantíssimas. Estamos produzindo uma nova geração, com características muito singulares e específicas.
Mais do que nunca, tenho observado a infância com olhos de espanto – e que fique bem claro que não são os olhos infantis que estão espantados; são os meus! Tenho visto pequenos seres dignos de todo o amor do mundo, intolerantes a tudo de real que há. E cada vez mais, tenho percebido pais perdidos, culpados, devastados pela dor da distância (que a modernidade trouxe no pacote intitulado “Oportunidade”). E mais! A escola, lugar onde, a princípio, se deveria encaminhar tanta angústia e desorientação, está sendo conivente com tamanho desequilíbrio.
Crianças que gritam com os professores, escondem-se embaixo das classes, fogem da sala, coagem colegas, choram por ter a atenção chamada, decidem trocar de turma e até de colégio, debocham do que lhes parece incomum, desperdiçam materiais e tempo, e algumas vezes até agridem aqueles que ousam lhes desagradar, é cada vez mais comum! Não precisamos fazer parte das instituições para sabermos disso, pois basta abrirmos um jornal ou um site de notícias, que volta e meia estão estampadas manchetes de jovens (crianças e adolescentes) que sucumbiram à pressão da vida real e foram “às vias de fato”! Ou mesmo, basta ouvir um pouco das conversas de corredor quando vamos buscar os filhos na escola... geralmente todos sabem sobre “aquele coleguinha” que tem “um gênio difícil”. Rótulos!
O que fazem os pais? Se autoflagelam e transbordam desculpas; embora haja aqueles que consideram até “bonitinho” a falta de postura, pois retrata uma “personalidade forte” – às vezes me questiono se falta de educação também mudou de nome juntamente com todas as transformações modernas...
O que fazem muitas escolas? Observam. Apagam incêndios. Perdoam. Encaminham para um profissional da área da Psicologia ou Psiquiatria, que muitas vezes entopem os pobrezinhos de medicamento, quando na verdade precisavam apenas de organização e limite. Ou ainda, dão mais uma chance – ou duas, ou três, ou todas as que forem necessárias até o indivíduo se lançar para a faculdade.
Muitas dessas crianças passam de série em série com as recomendações necessárias, como: “Esse, embora não tenha nenhum diagnóstico, tem muitas questões emocionais...” e blábláblá. E então, mais um ano torturante passa. Ao final dele, mais recomendações –  já que as questões emocionais familiares somam-se às individuais, afinal, o pequeno não é mais tão pequeno assim – e lá vai o “professor-terapeuta” tomar conta daquele ser, rezando todas as noites para ter discernimento sobre o que fazer e a melhor forma e momento de agir.
Eu sou defensora de carteirinha do respeito – e até do incentivo – às diferenças, mas acima de tudo, sou defensora ferrenha do direito de aprender a ser forte e responsável por si mesmo.
Que seres estamos criando? Seres dependentes da nossa condescendência perpétua? Seres que precisarão da nossa eterna ressalva (Olha... ele é uma criança excelente, MAS...) ? Me desculpa, mas isso é egoísmo! Quero que meus alunos, meus pacientes, minhas crianças sejam autônomas, determinadas, independentes. Quero que não precisem de mim. Isso sim é amor: dar asas e apenas orientar o voo, como já dizia o poeta. Mas é orientar o voo! As crianças e jovens precisam de orientação. Chega de pensarmos que preparar para o vestibular é o essencial, porque ninguém está preparando para a vida – e isso sim é indispensável.
A vida, fora das paredes da nossa casa e da escola, é muitas vezes fria e cruel. O transeunte que cruza o caminho do seu filho em um dia que ele não está bem, não se interessará nem um pouco se ele tem problemas na família ou está sofrendo. O entrevistador do emprego dos sonhos da sua filha não está nem aí se justamente no dia da entrevista ela se sentiu triste ou se frustrou.
O mundo está pronto pra esmagar quem não tiver inteligência emocional. Não há pai, mãe, orientadora educacional, professor, psicopedagoga, psicólogo ou psiquiatra que poderá intervir na vida real. Aqui, do lado de fora, cada um precisa ser protagonista de sua própria vida e destino, saber fazer escolhas e se responsabilizar por elas.
Ensine e estimule seu filho a lidar com suas emoções e responsabilize-o pelas consequências de seus atos. Essa é uma herança impagável! E lembre-se de que é uma herança vitalícia – tanto na doação, quanto na colheita dos doces frutos!
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e colunista da Zero Hora