Há
quase duas décadas trabalho com pessoas diariamente, e nesse tempo pude perceber
que, independente da faixa etária, ocupamos determinados lugares e também colocamos
as pessoas de nosso convívio em espaços pré-determinados. Existe aquela irmã
que chegou pra nos fazer companhia; aquele pai que é nosso porto-seguro; aquela
mãe que é responsável por todas as nossas vicissitudes; aquele professor que
enxergou algo tão bom em nós, que ninguém havia visto antes; aquele chefe que
nos desconsiderou de forma tão intensa, que nos fez desistir da carreira;
aquele marido/esposa que acabou com nossos sonhos; aquele filho que veio pra
nos trazer felicidade...
Volta e meia a gente precisa de alguém
que nos encante ou se responsabilize por nossos desencantos. E quando alguém
chega – seja de mansinho ou de supetão – e nos pede pra que nos
responsabilizemos por nossas próprias agruras ou expectativas, a dor é intensa,
é imensa, mas pode ser libertadora!
O papel do psicólogo é muito esse. Quantas
vezes tive vontade de perguntar à minha, quem ela pensava que era, pra dizer que
eu deveria tomar as rédeas das minhas próprias emoções ao invés de atirar no
colo de alguém, esse poder todo! Quem ela pensava que era... Pois é... acho que
ela “não passa de alguém” que estudou sobre comportamento humano e que por isso
consegue, através de uma escuta comprometida e ativa, perceber, sem se misturar
à emoção, o que eu não conseguia – por estar imbuída, encharcada, impregnada de
sensações. Com ela aliás, tenho percebido que no fundo, embora às vezes
doloroso, é mais fácil estar no comando total do que acontece, do que deixar
essa possibilidade toda das mãos de qualquer um.
O papel do professor também é um pouco esse...
desfazer algumas convicções, mostrar que às vezes passamos uma vida esperando
por algo que nunca vai ser como sonhávamos, apontar novos caminhos, enaltecer
possibilidades, tirar o foco das limitações, ensinar como (re)visitar novos
lugares emocionais ou lançar um novo olhar para antigos lugares... E isso
também não é fácil. Não é fácil para o professor, que por sua ética profissional
precisa por em evidência alguns assuntos delicados. E não é fácil pras famílias,
que precisam rever expectativas, refazer objetivos, “re-olhar”...
O professor assumiu um novo lugar em uma sociedade
nova. Sociedade da diversidade evidente, da insatisfação latente, da voracidade,
do tédio, das urgências desnecessárias, das necessidades dispensáveis. Foi-se o
tempo em que saber explicar um conteúdo era suficiente.
Diante de toda essa mudança – profissional, social,
emocional, educacional – vamos nos adaptando aqui, nos remodelando ali, nos
flexibilizando acolá. Fácil não é, mas impossível, menos ainda. Às vezes é só
questão de ocuparmos e deixarmos ocuparem novos lugares.
Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga


