Você já parou para pensar sobre a diferença
entre humildade e humilhação? Segundo o dicionário, uma das definições de
humildade é “virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza”.
Gosto dessa definição. Todos nós temos nossas debilidades, nossas limitações,
nossas sombras. Humildade é admiti-las – primeiro a nós e depois ao mundo. Já
humilhação, é “submeter alguém a rebaixamento moral”, é obediência ao
autoritarismo.
Pedia eu, no início da minha carreira, que Deus
me ajudasse a nunca ser obrigada a fazer aquilo que não acreditava. Achava isso
humilhação. Confesso que algumas vezes o fiz. Nesses quase 20 anos de
profissão, já ouvi lamúrias e fingi que acreditei; desculpei atividades não
entregues porque sabia que não iria dar em nada; trabalhei conteúdos que não
achava adequado para a série; deixei de falar o que pensava – muitas vezes!
Em dezembro do ano passado, entrei em uma loja
para comprar um presente de Natal e encontrei o gerente falando ao telefone com
uma cliente. Ele estava aparentemente contrariado e imagino que a mulher do
outro lado da linha, ainda mais. Ele explicava, exausto, que havia avisado
sobre o fato de o notebook vendido para ela não conter o pacote Office – acho
que 90% deles não vêm com o pacote, não é?! -, mas acho que ela não entendia.
Foi então que ele, da sua humilde posição de gerente, decidiu, em pleno ato da
ligação, que compraria um Pacote Office do seu bolso e daria à cliente. Quando
desligou, o ouvi dizer que não queria se incomodar. Achei humilhante.
Então lembrei de uma história pessoal, ocorrida
há pouco tempo, em uma escola onde trabalhei – na verdade, uma escola para a
qual dei o melhor de mim e que não posso negar, me deu muitas alegrias também.
Mas a lembrança que tive, foi de um triste e marcante episódio. Próximo à
entrega dos boletins do 1º trimestre, a coordenadora me chama em sua sala e
pergunta como está uma aluna. Respondo que está melhor do que em março, porém,
ficou abaixo da média na maior parte das disciplinas - notas entre 5 e 6, sendo
que a média era 7. Foi então que algo inesquecível aconteceu. Ela me contou que
a mãe da menina havia ido procurá-la, muito apreensiva. Em um rompante, ameaçou
a filha de que se ela tirasse alguma nota abaixo da média, não ganharia festa
de aniversário. Só que, vendo que as notas das provas eram bem baixas,
preocupou-se com a promessa feita, porque no fundo, não queria deixar a filha
sem festa. E é aí que eu entro! A coordenadora, calmamente me falou: “Essa
menina era muito pior no ano passado. Esse ano ela parece que está realmente
querendo estudar, então peço que coloque todas as notas acima de 7. Não vamos
nos incomodar com isso”. Foi uma das grandes humilhações da minha história
profissional! Eu tinha uma filha... precisava pagar meu aluguel, as prestações
do meu carro e só trabalhava ali. Então fiz o que ela me pediu. Com humildade
reconheço meu grande erro. Aliás, não sei porque eu me surpreendi com a ordem –
disfarçada de pedido -, se menos de um ano antes, fui a uma reunião onde
apresentavam todas as minhas pesquisas sobre ortografia e gêneros textuais,
como sendo inovações de uma outra coordenadora – mas isso é outra história! O
fato é que a vida vai dando dicas e é a gente que às vezes não enxerga.
Num misto de consciência pesada e raiva, por
passar por aquilo, virei um empecilho! Vivia mal humorada, odiava ir trabalhar,
estava sempre dando opinião – principalmente quando era contra alguma coisa.
Não deu dois meses e fui demitida. Acho que a humilhação não valeu à pena. Mas
a humildade de admitir meu erro e de perceber que ser submissa àquele ponto,
não era pra mim, foi libertador!
Hoje, após difíceis momentos, costumo me
perguntar “até onde posso ir” sem me descaracterizar, sem me machucar, sem me
humilhar. Não há dinheiro que pague a paz de espírito. E não há salário que
pague nossa integridade moral.
E você, já se perguntou? Até
onde você pode ir?
Lisandra Pioner é pedagoga e psicopedagoga

