Saturday, April 28, 2018

Até onde podemos ir?



Você já parou para pensar sobre a diferença entre humildade e humilhação? Segundo o dicionário, uma das definições de humildade é “virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza”. Gosto dessa definição. Todos nós temos nossas debilidades, nossas limitações, nossas sombras. Humildade é admiti-las – primeiro a nós e depois ao mundo. Já humilhação, é “submeter alguém a rebaixamento moral”, é obediência ao autoritarismo.
Pedia eu, no início da minha carreira, que Deus me ajudasse a nunca ser obrigada a fazer aquilo que não acreditava. Achava isso humilhação. Confesso que algumas vezes o fiz. Nesses quase 20 anos de profissão, já ouvi lamúrias e fingi que acreditei; desculpei atividades não entregues porque sabia que não iria dar em nada; trabalhei conteúdos que não achava adequado para a série; deixei de falar o que pensava – muitas vezes!
Em dezembro do ano passado, entrei em uma loja para comprar um presente de Natal e encontrei o gerente falando ao telefone com uma cliente. Ele estava aparentemente contrariado e imagino que a mulher do outro lado da linha, ainda mais. Ele explicava, exausto, que havia avisado sobre o fato de o notebook vendido para ela não conter o pacote Office – acho que 90% deles não vêm com o pacote, não é?! -, mas acho que ela não entendia. Foi então que ele, da sua humilde posição de gerente, decidiu, em pleno ato da ligação, que compraria um Pacote Office do seu bolso e daria à cliente. Quando desligou, o ouvi dizer que não queria se incomodar. Achei humilhante.
Então lembrei de uma história pessoal, ocorrida há pouco tempo, em uma escola onde trabalhei – na verdade, uma escola para a qual dei o melhor de mim e que não posso negar, me deu muitas alegrias também. Mas a lembrança que tive, foi de um triste e marcante episódio. Próximo à entrega dos boletins do 1º trimestre, a coordenadora me chama em sua sala e pergunta como está uma aluna. Respondo que está melhor do que em março, porém, ficou abaixo da média na maior parte das disciplinas - notas entre 5 e 6, sendo que a média era 7. Foi então que algo inesquecível aconteceu. Ela me contou que a mãe da menina havia ido procurá-la, muito apreensiva. Em um rompante, ameaçou a filha de que se ela tirasse alguma nota abaixo da média, não ganharia festa de aniversário. Só que, vendo que as notas das provas eram bem baixas, preocupou-se com a promessa feita, porque no fundo, não queria deixar a filha sem festa. E é aí que eu entro! A coordenadora, calmamente me falou: “Essa menina era muito pior no ano passado. Esse ano ela parece que está realmente querendo estudar, então peço que coloque todas as notas acima de 7. Não vamos nos incomodar com isso”. Foi uma das grandes humilhações da minha história profissional! Eu tinha uma filha... precisava pagar meu aluguel, as prestações do meu carro e só trabalhava ali. Então fiz o que ela me pediu. Com humildade reconheço meu grande erro. Aliás, não sei porque eu me surpreendi com a ordem – disfarçada de pedido -, se menos de um ano antes, fui a uma reunião onde apresentavam todas as minhas pesquisas sobre ortografia e gêneros textuais, como sendo inovações de uma outra coordenadora – mas isso é outra história! O fato é que a vida vai dando dicas e é a gente que às vezes não enxerga.
Num misto de consciência pesada e raiva, por passar por aquilo, virei um empecilho! Vivia mal humorada, odiava ir trabalhar, estava sempre dando opinião – principalmente quando era contra alguma coisa. Não deu dois meses e fui demitida. Acho que a humilhação não valeu à pena. Mas a humildade de admitir meu erro e de perceber que ser submissa àquele ponto, não era pra mim, foi libertador!
Hoje, após difíceis momentos, costumo me perguntar “até onde posso ir” sem me descaracterizar, sem me machucar, sem me humilhar. Não há dinheiro que pague a paz de espírito. E não há salário que pague nossa integridade moral.
E você, já se perguntou? Até onde você pode ir?

Lisandra Pioner é pedagoga e psicopedagoga

Monday, April 16, 2018

O pijama da discórdia e outras confusões da atualidade




Semana passada tomei conhecimento de um canal no Youtube, onde uma mãe, com plena consciência de que está em um processo de evolução, confidencia a suas seguidoras, todos os encantos e desencantos de ser mãe, esposa e mulher. Alguns vídeos – muito interessantes – trazem questões superimportantes acerca dos mais variados assuntos, fazendo com que nos questionemos e nos demos conta de que algumas questões importantes sequer passam pela nossa cabeça e que precisam de algo para dar um start e fazer como que passemos a refletir.
Até aí tudo lindo. Porém, em um dos vídeos – cujo excelente tema é “flexibilidade” – ela se autoquestiona sobre o fato de sua filha – uma menina de 3 anos – ter tido recentemente, uma fase de não querer tomar banho, não querer colocar casaco, não querer pentear o cabelo, não querer colocar o pijama. Ela diz que ficava atordoada com todas as recusas, toda a tristeza e todo o choro que essas situações geravam na menina. Dizia não saber como agir, pois percebia o sofrimento da filha e não queria que a menina se sentisse ignorada em seus desejos. Contou também que recebeu dicas de várias mães. E uma das dicas dadas por muitas delas, foi colocar a menina para dormir de uniforme da escola, e desta forma não colocaria o pijama – objeto da discórdia – já estaria arrumada para o colégio, e não seria contrariada.
Foi então que eu pensei “alguma coisa está errada nessa história toda”. Será possível que o fato de uma criança querer usar uma determinada roupa – imprópria – para uma determinada situação, precisa gerar um embate desse tamanho? Será que o adulto da situação não se responsabilizará pela tomada de decisão? Será que é a criança que haverá de solucionar essa questão, agindo de forma totalmente instintiva – o que é compreensivo, dado o fato de que tem apenas 3 aninhos de vida?
Estou citando um fato, mas ele não é isolado – infelizmente. A confusão entre autoridade e autoritarismo, entre limite e a falta dele, entre o que é lição e o que é castigo está todos os dias sendo esfregada na nossa cara – e só não enxerga quem não quer. Querem exemplos? Lá vai: quando a criança escolhe onde a família passará as férias; quando a criança decide onde almoçarão no domingo; quando a criança diz que irá de vestido num frio de 7ºC; quando diz que está cansada pra fazer o tema e não faz mesmo; quando joga bola em plena sala de casa – mesmo os pais tendo avisado que poderá quebrar algo; quando resolve que não quer comer de jeito nenhum, ou quer comer um chocolate minutos antes do jantar.
Percebem a desordem, a perturbação, a confusão de papéis? Algumas famílias confundem proteção com isolamento da realidade. Aí então as crianças crescem em bolhas cuidadosamente criadas por seus cuidadores – numa ânsia injusta de preservar o rebento de toda e qualquer dor – e cruelmente estouradas em algum momento, pela vida – algoz infalível.
Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga
Whats: (51)99252.1533