Tuesday, July 11, 2017

Educação Emocional


Todos nós sabemos que o período escolar é uma fase enorme da vida do ser humano e que acontece em duas fases de desenvolvimento muito especiais e específicas em suas características: a infância e a adolescência. Pensar que em pleno momento de transição pessoal, o indivíduo precisa dar conta de aprendizagens importantes e de emoções totalmente novas, nos faz ter uma melhor dimensão da complexidade do que todos nós passamos. Mas não é exatamente porque “todos nós passamos” que é algo simples e fácil. O que determina se algo é fácil, não é a quantidade de pessoas que vivenciam a situação, mas a forma com que cada sujeito elabora aquela vivência.
            Quando falamos em dificuldade nos relacionamentos e bullying, por exemplo, não é diferente. Observo inúmeras instituições (escolares e familiares) exigindo posturas, sem sequer tocarem em assuntos de relevância singular, como inteligência emocional. Os estudantes, muitas vezes chegam à escola, segundo ambiente onde passam a maior parte do tempo (ou primeiro, em muitos casos), sem jamais terem falado em emoções, sem conseguirem nomear sensações, sem terem se frustrado. Verdadeiros analfabetos emocionais! E então surge uma série de complicações, que vez ou outra é vista como um problema da turma difícil, da professora incompetente ou da escola incompreensível e massificadora.
É difícil olhar para a própria responsabilidade diante dos acontecimentos, sim. É mais simples encontrar culpados, apontar algozes, condenar o que não está em nossas mãos. Mas por mais que a tomada de consciência exija de nós, pais e mães, é necessário que façamos nossa mea culpa e que consigamos trazer para dentro das nossas casas, a conversa aberta e generosa sobre emoções (com todo o protagonismo que o assunto merece).
Educar emocionalmente uma criança faz com que ela adquira habilidades para gerenciar seus sentimentos (e ações que resultam deles) e compreender os sentimentos dos outros. Desta forma, o desenvolvimento social e o aprendizado no ambiente escolar, ocorrem com muito menos entraves.

Considerar os sentimentos dos pequenos e oportunizar momentos para que eles os expressem, propicia uma melhor compreensão de questões tão subjetivas,  provoca mudança de comportamentos e uma série de outros benefícios. Experimentem!
(Texto de julho/2017, do jornal Zero Hora. Lisandra Pioner)

E se tudo der errado? (Já deu)

(OBS- os rostos foram tapados, a princípio, em função de serem menores de idade, mas acho que a verdade mesmo é que foi pela vergonha de se sujeitarem a isso)

Nosso povo já está um tanto acostumado a se deparar com notícias impactantes, por vezes assombrosas e, infelizmente, cada vez menos surpreendentes (tendo em vista que, embora nos cause ojeriza, logo passam a ser uma mera lembrança). Esta semana tivemos um exemplo desse tipo de acontecimento, quando tomou conta das redes sociais, a divulgação de fotos de duas escolas particulares do Rio Grande do Sul.
As mesmas solicitaram aos alunos do 3º ano, que viessem “fantasiados” de profissões que, segundo a visão deles, eram de pessoas que não deram certo na vida. Dentre estas profissões estavam gari, faxineira, atendente de lanchonete, garçom, entre tantos outros. Quando chegou ao conhecimento do público, foi um alvoroço só! O preconceito é cada vez menos tolerável pela maioria das pessoas. E embora ambas instituições tenham se defendido dizendo que jamais tiveram a intenção de discriminar qualquer trabalhador, foi assim que fizeram na prática.
As instituições de ensino são propagadoras de ideias e ideais. Não podemos ignorar esse fato (seria imprudência e irresponsabilidade)! Antes de qualquer evento, qualquer depoimento, qualquer atividade, precisa parar e pensar mil vezes se não há possibilidade de uma compreensão inadequada por alguém; se não é ofensivo, se não denigre a imagem e dignidade de outro ser. E mais! Se tem algo a acrescentar à sociedade, se fará seus estudantes refletirem, se proporcionará a oportunidade de evolução, seja a uma única pessoa, a um grupo ou a toda a comunidade escolar.
Escola não é apenas um local onde crianças e jovens passam parte do dia, recebendo informações para passar no vestibular. Não é apenas o lugar onde eles ficam enquanto os pais estão trabalhando. Escola é mais. E se não está sendo mais do que isso, precisa mudar urgentemente. Escola precisa ser o lugar onde as pessoas são convidadas a pensar; onde se aprende a conviver; onde se entende o que é respeitar; onde se ensina que flexibilidade é uma qualidade muito importante. É inadmissível que os pais e mães deixem seu bem mais precioso (os filhos), durante, pelo menos, doze anos, dentro de um lugar de onde ele sairá preparado apenas para entrar numa faculdade.
Pode parecer utópico, mas como já dizia Galeano, a utopia serve para que não paremos de caminhar. E sinceramente, se não é através da Educação que transformaremos esse mundo num lugar melhor, não sei mais de que forma poderá ser. Se tudo der errado, continuaremos a ter instituições de ensino agindo de forma equivocada quanto ao papel da Educação na sociedade. Mas se tudo der certo (e é isso que nos interessa), logo veremos profissionais engajados verdadeiramente em um propósito muito maior do que uma avaliação. Veremos profissionais obstinados a formar seres humanos mais íntegros, empáticos e compassivos.
(Texto de junho/2017, do jornal Zero Hora. Lisandra Pioner)

Para todas as mães (e pais)...



Para quem esperava um texto falando sobre a felicidade de ser mãe, ou sobre as vicissitudes dessa tarefa linda e árdua, lamento decepcionar. Esse será um texto para nós, mães (e para os pais), que todos os dias vivemos cheios de amor, de medos, de desafios, de angústias, de alegrias e de questionamentos.
            Você sabia que 1 em cada 5 crianças apresenta problemas de estresse e saúde mental, como ansiedade e questões emocionais? E que 50% desses distúrbios aparecem antes dos 14 anos? E 75% antes dos 24 anos? Ou seja, infância e adolescência cada vez mais, sendo fases de desenvolvimento em sua totalidade: capacidades aumentadas, tanto de saúde, quanto de doença. Só que não podemos responsabilizar um ser em formação por questões tão subjetivas e viscerais. Às vezes há questões genéticas envolvidas, mas na maioria esmagadora dos casos, as questões decisivas para a instalação e manifestação de uma perturbação emocional, são ambientais. É a falta do convívio, do interesse genuíno, do diálogo, da partilha de vivências e informações, da presença atenta, da escuta ativa. É a existência perturbadora daquela “presença ausente”, que tantas vezes não ampara como deveria.
            Falamos muito sobre as transformações sociais. Reclamamos do egoísmo, do trânsito, da violência, da corrupção, da falta de empatia, do tempo escasso, porém, poucas são as vezes em que paramos para refletir sobre a nossa responsabilidade no caos em que vivemos.
A gente vem de uma geração onde se debochava, se  competia, se humilhava, se puxava tapete, se mentia, e havia arrogância e todo o tipo de rebaixamento moral e tentativa de submissão. Aos poucos fomos nos tornando o que somos hoje e fazendo da sociedade, o que ela é (com suas evoluções, claro! Mas cheia de retrocessos também). E o pior é que muitos de nós atualmente ousa ironizar sobre questões sérias como o bullying, por exemplo. Quantas vezes ouve-se a frase “No nosso tempo um tirava sarro do outro e estamos todos vivos, mas hoje isso se chama bullying”.
Estamos vivos, mas às custas de quanto sofrimento! De quantos momentos cheios de sentimento de inadequação! De silêncios ensurdecedores, onde não sabíamos como tirar de dentro do peito toda aquela angústia frente a uma vida onde parecíamos não caber.
            O tempo passou e nos transformamos no que somos hoje... pais e mães cheios de vontade de acertar, mas muitas vezes sem saber falar e sem saber ouvir sobre sentimentos. Sem conseguir enxergar os filhos como eles realmente são ou legitimar suas ansiedades e dores.
Crianças e adolescentes se afligem,  se entristecem, se inquietam. É muito importante que saibamos reconhecer a autenticidade desses sentimentos e lhes estender a mão. Até porque uma coisa é certa, se não fizermos isso, alguém fará por nós – e possivelmente não será o alguém mais indicado.


(Texto de maio/2017, jornal Zero Hora. Lisandra Pioner)

Renovar é preciso



Páscoa tem a ver com vida nova, com mudança, libertação, olhar para si, olhar para o outro, enxergar-se no outro e enxergar o outro em si. É difícil, dá trabalho, exige uma sensibilidade e um posicionamento que não estamos acostumados. E como quase tudo aquilo que não é habitual, nos causa certo desconforto. Porém, o desconforto é apenas um sintoma de que algo dentro da gente está se desacomodando para que, logo ali adiante, acomode uma novidade.
Aproveitando todo o significado e apelo dessa data, tenho me inquietado com alguns costumes que vamos adquirindo ao longo da vida, sem nos questionarmos, refletirmos ou ponderarmos. Vamos vivendo dia após dia, repetindo ações e pensamentos de forma automática e muitas vezes sem sentido. Trabalhamos para adquirir mais do que o necessário, damos aos nossos filhos muito mais do que tivemos e mais do que eles precisam, perpetuamos a errônea ideia de que é preciso ter para ser e quase nunca nos damos conta de que na maioria das vezes, o essencial não custa um centavo sequer.
De forma alguma é apologia à pobreza ou demagogia. Encarem como um convite. Um convite para o autoquestionamento, para pensarmos, por exemplo, no quanto de responsabilidade temos (ao sermos pais e mães) de criar uma vida (com todas as implicações econômicas, orgânicas, sociais e emocionais que isso tem), e através dela, deixarmos nossa herança para o mundo. Porque é nossa responsabilidade sim, fazer dos nossos filhos pessoas capazes de serem felizes e de deixarem boas marcas na sociedade. É nossa responsabilidade sim, criar estratégias para preparar esses pedacinhos de gente, em futuros adultos seguros, lúcidos, sensíveis, solidários, altruístas, responsáveis, colaborativos e empáticos.
E se hoje vivemos em uma sociedade desigual, egoísta, superficial, onde as leis são subjetivas, onde vence quem tem mais poder (e isso geralmente é sinônimo de dinheiro), onde a máxima “cada um por si” impera e onde se busca ter alguma vantagem (seja lícita ou ilícita) em todas as ocasiões, é porque algo lá atrás falhou. Todos esses adultos que hoje convivem conosco, foram crianças um dia. E foi lá na infância que deixaram de aprender o que realmente faria a diferença em suas vidas.

Quem de nós já ensinou às crianças que agir implica em responsabilidades; que todos nós temos sentimentos e pensamentos bons e maus (e essa dualidade não é vergonhosa, mas apenas humana); que ter sentimentos ruins não nos torna alguém desprezível, mas sim o que fazemos com esses sentimentos; que muitas coisas em nosso entorno muda, quando modificamos a nós mesmos; que o outro sente exatamente como nós (o que às vezes muda, é a forma com que ele expressa isso); que absolutamente tudo o que fazemos nos espera mais à frente, ou seja, terá consequências; que jamais podemos tentar mudar o outro, pois isso é uma decisão apenas do outro; que quando alguém nos exige mudança, precisamos nos perguntar se isso é realmente o que nós desejamos; que opiniões são muito pessoais e por isso precisam ser respeitadas (e que é essa diversidade que enriquece a nossa existência); que qualquer coisa que custe a nossa paz, é cara demais; que a decepção nada tem a ver com o outro, mas com a nossa expectativa exagerada sobre ele; que nem sempre as pessoas vão gostar da gente e que isso não deve ser um problema; que se alguém não corresponde às nossas exigências, não significa que não esteja dando o melhor que pode; que silenciar é preciso; que reagir, na maioria das vezes, é uma péssima decisão; que se colocar no lugar do outro é a solução para quase todos os males do mundo? Quantos de nós já convergimos nossas forças educativas nisso? Não se faz uma sociedade diferente, repetindo erros. Portanto, renovemo-nos!

(Texto do Caderno Vida, jornal Zero Hora, de abril/2017. Lisandra Pioner)