Tuesday, March 31, 2015

Novos relacionamentos dos pais, um caso a se pensar



Vou lhes contar uma história…
Conheci uma menina que chegou na casa da mãe contando que seu pai, que até então tinha uma namorada há alguns anos, estava namorando outra pessoa. A mãe estranhou e disse que deveria ser um mal entendido e perguntou o que fazia a criança imaginar que era um namoro. Foi aí que a menina disse que a moça andava “de pijama” pela casa. Naquele momento a mãe entendeu que o pai realmente devia ter trocado de namorada.
Uns dois meses depois, essa mesma mãe fica sabendo que é oficial: o pai está mesmo namorando! Mas detalhe: não é a moça do pijama!
Essa história nada tem de absurda ou incomum com dezenas de histórias que ouvimos por aí. A modernidade chegou às relações. A liquidez, refletida por Bauman, que trata a ideia de dissolução de valores, também.
E para a criança, qual a repercussão emocional que uma historinha como essa, aparentemente corriqueira e não traumática, pode causar?
A insegurança, a falta de valores, a dificuldade em firmar laços e organizar sentimentos.
Pai e mãe, quando não estão mais juntos, têm todo o direito de refazerem suas vidas. Aliás, eu diria que têm a obrigação de fazerem isso, sob pena de um dia virem a culpar a “paternidade/ maternidade” por sua solidão – os filhos crescem! Porém, os filhos precisam estar protegidos de toda essa montanha-russa emocional que cerca o início das relações.
Apresentar um companheiro aos filhos deve ser encarado com seriedade e muita responsabilidade. Por mais trivial que possa parecer, não é. Estamos falando de sentimentos, de relacionamentos, de emoções, de convivência… fatores que são alicerce para todas as áreas da vida.
A questão não é esconder ou mentir, mas discernir o que é importante e essencial do que não vale a pena escancarar socialmente. Nesses casos, cabe um excelente conselho:
Poupemos as crianças do que não é essencial!
Inconscientemente elas agradecerão – e a sociedade também!
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Tema de casa: oportunidade de rever o que aprendeu ou tortura familiar?


O tema, também conhecido como dever ou lição de casa, tem uma função muito específica e válida, desde que realizado da forma correta e orientada pelo professor.
O tema é uma excelente oportunidade da criança treinar os conhecimentos adquiridos em sala de aula e estudar. Para os professores, é um bom momento de verificar o que ainda não foi compreendido de forma eficiente, pois em casa, sem auxílio, a criança pode perceber no que ainda tem dificuldade e solicitar maior atenção do professor no dia seguinte. E até mesmo para os pais é uma boa oportunidade de acompanhar o que seu filho está aprendendo.
Além disso, há diferentes tipos de tema, conforme a intenção do professor. Há o tema que serve para rever conhecimentos trabalhados, há também temas em que o foco é pesquisar assuntos ainda não vistos – como se fosse um desencadeador de ideias – ou até mesmo temas para aprofundar assuntos vistos de forma superficial.
Independente do tipo de tarefa, é essencial que o professor explique qual a sua intenção ao dar aquela atividade. E mais importante ainda, os alunos entenderem qual a pretensão do professor.
Porém, para as famílias, muitas vezes a lição de casa é uma verdadeira tortura, pois, embora seja dada pelo professor, acaba refletindo exatamente a dinâmica familiar. Ou seja, se for dada a uma criança autônoma e independente, será feita dessa forma; porém, se for dada a uma criança acostumada a ter todas as suas vontades realizadas, uma criança que pouco produz em casa, exigindo atenção e disponibilidade dos adultos em tempo integral, será desempenhada da mesma maneira, ou seja, através de muita briga. Sabe por quê? Porque o funcionamento da família é este. A criança briga, grita, faz birra e os pais cedem. Então na hora do tema, esses mesmos pais querem que a criança entenda, quase que como num passe de mágicas, que então é hora de elas serem maduras e conseguirem desempenhar suas tarefas de forma autônoma.
Isso é humanamente impossível, tendo em vista que seres humanos funcionam através de hábitos. Não se clica em um botão milagroso, onde um comportamento se modifica instantaneamente. Nossas crianças não são máquinas!
E como se não bastasse, ainda há uma questão, vivenciada por muitos professores atualmente, que é a falta de responsdabilidade da criança e sua família em relação a essa tarefa. O professor não está dentro do ambiente familiar, portanto, não pode exigir que a tarefa seja desempenhada e entregue no dia correto. Quem tem que verificar isso? Quem tem que cobrar? Quem tem que abrir a mochila e ver se está tudo organizado? Quem tem que verificar se o tema não ficou em cima da mesa? Quem tem que exigir que o tema seja feito, independente de sono ou da preguiça? A família! Faz parte da função da família, por mais difícil que seja. (Aliás, se alguém disse que seria fácil, mentiu!) Não há outra forma de se trabalhar, que não seja através da parceria.
Família e escola, quando entenderem que devem ser extensão uma da outra, terão crianças bem sucedidas em todos os âmbitos!
O trabalho de cobrar e estar ao lado é muito menor que o de “consertar” mais tarde. Podem ter certeza!

Lisandra Pioner

Professora, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Tuesday, March 24, 2015

Ser professor...


Há 13 anos atrás eu equilibrava meus dias em manhãs e tardes de trabalho em uma escola de educação infantil e revezava as noites entre faculdade, TCC e estágio no Setor de Orientação Educacional de uma escola pública. Eram dias cansativos e encantadores.
Quatro coisas ficaram na minha memória desde aquele estágio:
1ª) a dificuldade de atingir aqueles jovens e velhos adultos, cansados de um dia inteiro de trabalho e de uma vida fatigante;
2ª) a imagem exaurida de muitos professores, que me diziam “Quero te reencontrar daqui há 10 anos… vamos ver se tu continuará com tanta vontade de trabalhar e modificar as coisas”;
3ª) o convite, ao final do estágio, do diretor para que eu permanecesse trabalhando no colégio com um contrato;
4ª) a carta da orientadora à faculdade que eu fazia. Carta essa, que mais parecia uma poesia do que uma avaliação do meu estágio.
Pois ontem, 13 longos anos de trabalho e dedicação após, recebo um e-mail dessa mesma orientadora contando da alegria que sentiu ao me ler nas páginas da Zero Hora. Dizia ela o quanto ficou “feliz e orgulhosa por uma pessoa que muito lutou e conquistou espaços”. Dizia que lembrava das minhas “lutas e empenho” durante o estágio… Chorei de emoção. Chorei porque o reconhecimento é o maior presente que eu já ganhei em toda a minha vida. Chorei porque não há nada nesse mundo que eu faça com mais amor do que ser educadora. Pra isso eu durmo pouco, pra isso eu estudo sempre, pra isso eu vejo uma oportunidade em cada situação, pra isso eu deixo tantas vezes de ter lazer, pra isso eu me privo de muitos momentos ao lado da minha filha…
Talvez seja por isso que, quando me sinto injustiçada, sofro tanto. O bom é que me reinvento na escrita… deixo no papel, o que afeta minha alma e meu coração.
Tenho percebido, nessa mais de uma década de trabalho diário em sala de aula, uma mudança no perfil do professor. Uma necessidade de mudança, pelo menos.
Pra ser um professor – não me refiro a ser um professor medíocre – é preciso muito mais do que faculdade de Pedagogia – aqui me refiro aos de educação infantil e anos iniciais. É preciso conhecimento de conteúdo, de Psicologia, de desenvolvimento infantil, de Psiquiatria, de terapia holística, de religiões, de teoria sistêmica, de Psicopedagogia, de Psicomotricidade e de dificuldades e transtornos de aprendizagem.
Mas ainda é preciso mais! É preciso muita paciência, inteligência emocional, resiliência e eu até diria, com o perdão do sarcasmo, “sangue de barata”.
O professor, há muito tempo deixou de atender as crianças. O professor hoje, atende as famílias. Atende a falta de compreensão do aluno em relação a algum conteúdo dentro da sala de aula, e tantas outras ausências que acontecem fora dela.
E mais! O professor atende, entre aquelas quatro paredes, o resultado ineficiente de todo um sistema que deveria estar na base do desenvolvimento da criança – seja pela inexistência, seja pela incompetência de quem deveria estar fazendo algo. E tantas vezes não é recompensado, sequer reconhecido.
Há dias em que eu coloco a velha capa de heroína do mundo – aquela que comecei a usar lá no meu estágio, aos 20 e poucos anos – e com orgulho vou fazendo o que compete a mim e a todos os outros. Mas há dias em que questiono se toda essa onipotência não provoca uma exaustão degradante e inútil.
Pra quem acha – do alto da sua ignorância – que ser professor é fácil, afirmo com todas as certezas de que disponho, que tirando a Medicina, desconheço profissão mais árdua.
Ainda não sei o porquê de a Pedagogia ser uma faculdade barata… e também não entendo o porquê de não ter uma banca rigorosíssima, ao final do curso, para que só siga adiante quem realmente tem “nervos de aç”o e sabe exatamente o que quer. Ahhh… talvez seja pela remuneração vergonhosa dispensada a esses profissionais. E pelo reconhecimento miserável.
E pra finalizar, um desejo de todo o meu coração:
“Que os bons não percam a coragem de seguir adiante.”
Lisandra Pioner

Professora, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

Tuesday, March 10, 2015

Os "nãos" necessários


Essa semana encontrei duas mães saindo de uma escola com seus respectivos filhos, sendo que um deles –  uma menina de mais ou menos quatro anos –  berrava rua afora. Bem na hora que eu passava por elas, uma das mães – a da criança que estava apenas caminhando – perguntou à outra o motivo do pranto. Então, calmamente a mãe explicou que a menina queria um gelo para colocar em um machucado, mas como ela considerou desnecessário, não pegou. Esse foi o motivo: a mãe simplesmente se recusou a fazer o que a filha queria! Foi então que ouvi da mãe questionadora: “Ah... por que não pegou? Pelo menos ela não iria estar chorando...” Respirei fundo e prossegui pensando... parece tão óbvio que fazer todas as vontades das crianças é extremamente maléfico, mas pra uma porcentagem considerável da população não é tão óbvio assim!
Então ligo a televisão hoje e escuto, no Jornal Nacional, que um estudo diz que crianças que são exageradamente elogiadas tendem ao narcisismo. Sério? Sério que precisava de um estudo para provar isto?
Uma criança que tem todos os seus desejos supridos – seja um gelo desnecessário no machucado, mais de um doce de sobremesa ou um novo telefone, mesmo que o seu esteja funcionando perfeitamente – não conseguirá ouvir “não” de ninguém, em momento algum. E quando ouvir – porque os “nãos” são inevitáveis – irá gritar, espernear, se rebelar, se vingar, ”jogar a toalha”.
O não pode até ser indigesto no início, mas é uma das primeiras palavras que aprendemos a falar e também uma das primeiras que precisamos ouvir.
Então, na falta dessa lição em algum momento da vida das pessoas, lá vão alguns “nãos” que podem ser muito úteis:
*NÃO dê tudo o que a criança pede;
*NÃO faça “trocas” que considere vantajosas apenas para a criança;
*NÃO volte atrás só para desfazer uma reação negativa que ela tenha;
*NÃO espere que a criança saiba o que deve ou não fazer, pedir ou ter. Se nem os adultos muitas vezes sabem, por que uma criança saberia? Quem dita as regras é você, adulto!
* NÃO seja complacente demais, acreditando que um dia, em um passe de mágicas, sua criança se tornará um jovem encantadoramente altruísta e um adulto maravilhoso. Temperamento e caráter são construídos dia após dia, através de trabalho árduo e alicerces sólidos.
E o mais importante de todos:
*NÃO confunda condescendência com amor.
Um “não”, na maioria das vezes, é muito mais impregnado de amor do que qualquer sim, imbuído de preguiça.
Lisandra Pioner

Professora, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora