A grande necessidade humana é encontrar um significado para suas vidas. Para que esse “encontro” se dê, é necessário que se deixe o egocentrismo de lado e se transcenda. O desenvolvimento de nossos recursos internos (emoção, imaginação, intelecto) é muito importante para essa busca.
Bruno Bettelheim, terapeuta austríaco, trabalhou durante muito tempo com crianças gravemente perturbadas, tentando restaurar um significado na vida delas. Durante sua jornada percebeu que era essa falta de propósito que acabava acarretando inúmeras outras dificuldades. Percebeu também, o impacto dos cuidadores na vida das crianças e a dificuldade desses, em compreenderem que a mente delas não funciona como as suas, precisando de tempo e meios para um amadurecimento. Foi então que percebeu a influência positiva dos contos de fadas, através de suas simbologias, para a criança.
Os contos despertam a curiosidade e estimulam a imaginação da criança, ensinando sobre os problemas interiores e as soluções corretas para dissipá-los. A vida para as crianças é desconcertante, instigante, amedrontadora. A idéia que temos quando adultos, de que a infância é fácil e tranqüila é um tanto fantasiosa. Quando crianças, vivemos medos, dúvidas angustiantes, culpas. As crianças precisam de auxílio para resignificarem coerentemente esse turbilhão de sentimentos. Os contos são uma forma de reorganização interna, pois lhe dão idéias de como solucionar alguns entraves, conduzindo-as, implicitamente, às vantagens do comportamento moral, além de aliviarem pressões pré-conscientes e inconscientes. Os contos basicamente transmitem que as dificuldades são inevitáveis, mas que se encararmos os acontecimentos inesperados – mesmo que aparentemente injustos – com coragem, dominaremos todos os obstáculos e seremos vitoriosos. São sugestões de forma simbólica, sobre como elas podem lidar com questões difíceis e crescerem.
Vejamos algumas características presentes na maioria dos contos de fadas:
1) a presença breve e categórica de um dilema existencial, sem detalhes cansativos e desnecessários;
2) a presença sedutora do mal, que muitas vezes encontra-se temporariamente vitorioso;
3) o grande atrativo do herói, não por promover a moralidade, mas por ter astúcia e não desistir da luta, vencendo.
O inconsciente infantil
O crescimento implica em domínio de diversas questões que povoam o inconsciente humano, como: decepções narcisistas, rivalidades fraternas, dilemas edípicos, necessidade de autovalorização e individualidade. Enquanto não existir uma compreensão e uma aceitação dessas questões, o inconsciente está sendo reprimido, fazendo com que a mente consciente seja forçada a manter um controle tão rígido sobre a personalidade, podendo fazer com que esta fique “gravemente mutilada” (p.16, Bettelheim). Por isso a necessidade de se permitir que algum conteúdo inconsciente apareça e seja trabalhado na imaginação, reduzindo riscos para a personalidade.
Os próprios pais, muitas vezes, na ânsia de protegerem seu rebento, impedem que a realidade lhes seja apresentada, mostrando apenas o lado bom das coisas. As crianças, por sua vez, sabem que elas mesmas não são boas o tempo todo. A contradição entre o que sentem e o que lhes dizem os pais, faz com que sintam-se extremamente culpadas, julgando-se “montros”.
A psicanálise mesmo foi criada com a intenção de capacitar o ser humano a aceitar sua natureza problemática sem ser derrotado, porém a cultura erroneamente deseja que o lado ruim do homem seja “esquecido”, sublimado, e acabou influenciando a visão da grande maioria das pessoas q hoje a consideram a ciência que procura tornar a vida mais fácil.
“Moral da história”
Os contos de fadas possuem personagens ou bons ou maus – diferente da ambivalência complexa que caracteriza as pessoas reais. Porém, é preciso um certo amadurecimento psicológico na criança, para que ela compreenda essas ambigüidades características do ser humano. Quando isso acontecer, compreenderão que existem muitas diferenças entre as pessoas e conseqüentemente precisarão optar pelo que querem ser. E essa escolha costuma ser feita não em cima do que é certo ou errado, mas de quem lhe desperta simpatia ou antipatia. A pergunta será “Com quem quero parecer?”.
Os contos oferecem soluções no nível de compreensão das crianças, mostram que é possível ter sucesso, que é necessário partir para o mundo (crescer) e desta forma, encontrar um outro ser com quem será capaz de viver “feliz para sempre”, e mostra também, que muitas vezes o herói vive isolado por um tempo, assim como as crianças da sociedade moderna que não possuem mais a segurança de famílias numerosas, mas que indo aos poucos, com abnegação, será guiado e receberá auxílio, quando preciso.
Mas é importante que essas interpretações restrinjam-se ao mundo dos adultos. Para as crianças, os ensinamentos são eficazes quando continuam no subconsciente e uma interpretação se traduziria em invasão. É importante a sensação de que seus pais compartilham suas emoções, mas que não conheçam seus pensamentos até que eles mesmo decidam compartilhá-los.
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