A necessidade de se ser criança, enquanto se é criança
Basta estudar um pouco da história da
humanidade para nos depararmos com as mais diversas interpretações da infância,
dependendo da época e da origem do povo em referência. O que me faz acreditar
que o sentido dessa fase é dado conforme a cultura e o conhecimento das
pessoas.
Vivemos em pleno século XXI e as
indagações acerca de como lidar com a infância – e os infantes – prosseguem.
Aliás, isso é ótimo! Porque são exatamente as dúvidas que nos fazem progredir
em relação aos mais diferentes assuntos. As certezas nos boicotam, pois não nos
impulsionam à busca de novas visões, novas propostas, novos desafios.
Porém, tanto a Ciência quanto a
Educação progrediram muito e exatamente por isso, não temos mais o direito de
fazer “ensaios” com nossas crianças. Já há formas de prevermos, embasadas em
estudos, as consequências de determinados experimentos.
Uma das coisas que tem se contestado
cada dia mais, é a importância de se viver efetivamente a infância, de se ser
criança, na fase certa. E mesmo o conhecimento e as informações sendo cada dia
mais acessíveis ao grande público, ainda observo famílias transbordando de
vaidade ao se depararem com seus pequenos de, não mais do que 4 aninhos, lendo.
Eles mal sabem pular num pé só, não têm a menor noção de lateralidade, não
abotoam suas camisas, muito menos amarram seus cadarços, mas... já “leem”! E lá
correm os pais, ansiosamente exultantes, às redes sociais para gritarem a todos
que possuem um pequeno gênio como descendente. Lamento por quem acha que juntar
sílabas é ler e – mais ainda – por quem não
sabe que existe uma infinidade de pré-requisitos para que se aprenda a ler de
forma competente.
As crianças já não podem mais brincar
na rua, como antigamente – muito se perdeu em convivência e amizades – e agora,
não satisfeitos, daremos continuidade a uma geração de decodificadores da língua que só usam sapatos
com velcro!
Lógico que o exagero acima não passa
de uma metáfora, mas tirando os excessos, não podemos ser coniventes com uma
alfabetização tão falha, que inicia com a criança aprendendo a consciência
fonêmica e, em idade escolar, vai para uma instituição aprender a brincar! É
disso que as crianças estão sentindo falta: menos formalidade e mais
ludicidade!
Antes de ler, a criança precisa de um
aparato íntegro e harmonioso de habilidades físicas, neurológicas e emocionais. Precisam trabalhar percepção, esquema
corporal e temporal, entre tantos outros pontos. Portanto, antes de se
vangloriar quando seu pequeno começar a juntar letrinhas, verifique o quanto de
autonomia e espontaneidade infantil ele ainda possui. Se sua resposta for
“pouca”, é hora de lhe oportunizar vivências infantis.
Permita que sua criança brinque, aproveite,
arrisque-se, faça uso de todo o seu potencial corporal – ajudará muito (e em
tudo)!
Lisandra Pioner
Pedagoga e Psicopedagoga

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