Sunday, November 02, 2014

Texto Zero Hora, de 1º de novembro

A necessidade de se ser criança, enquanto se é criança

Basta estudar um pouco da história da humanidade para nos depararmos com as mais diversas interpretações da infância, dependendo da época e da origem do povo em referência. O que me faz acreditar que o sentido dessa fase é dado conforme a cultura e o conhecimento das pessoas.
Vivemos em pleno século XXI e as indagações acerca de como lidar com a infância – e os infantes – prosseguem. Aliás, isso é ótimo! Porque são exatamente as dúvidas que nos fazem progredir em relação aos mais diferentes assuntos. As certezas nos boicotam, pois não nos impulsionam à busca de novas visões, novas propostas, novos desafios.
Porém, tanto a Ciência quanto a Educação progrediram muito e exatamente por isso, não temos mais o direito de fazer “ensaios” com nossas crianças. Já há formas de prevermos, embasadas em estudos, as consequências de determinados experimentos.
Uma das coisas que tem se contestado cada dia mais, é a importância de se viver efetivamente a infância, de se ser criança, na fase certa. E mesmo o conhecimento e as informações sendo cada dia mais acessíveis ao grande público, ainda observo famílias transbordando de vaidade ao se depararem com seus pequenos de, não mais do que 4 aninhos, lendo. Eles mal sabem pular num pé só, não têm a menor noção de lateralidade, não abotoam suas camisas, muito menos amarram seus cadarços, mas... já “leem”! E lá correm os pais, ansiosamente exultantes, às redes sociais para gritarem a todos que possuem um pequeno gênio como descendente. Lamento por quem acha que juntar sílabas é ler e – mais ainda –  por quem não sabe que existe uma infinidade de pré-requisitos para que se aprenda a ler de forma competente.
As crianças já não podem mais brincar na rua, como antigamente – muito se perdeu em convivência e amizades – e agora, não satisfeitos, daremos continuidade a uma geração de  decodificadores da língua que só usam sapatos com velcro!
Lógico que o exagero acima não passa de uma metáfora, mas tirando os excessos, não podemos ser coniventes com uma alfabetização tão falha, que inicia com a criança aprendendo a consciência fonêmica e, em idade escolar, vai para uma instituição aprender a brincar! É disso que as crianças estão sentindo falta: menos formalidade e mais ludicidade!
Antes de ler, a criança precisa de um aparato íntegro e harmonioso de habilidades físicas, neurológicas e emocionais. Precisam trabalhar percepção, esquema corporal e temporal, entre tantos outros pontos. Portanto, antes de se vangloriar quando seu pequeno começar a juntar letrinhas, verifique o quanto de autonomia e espontaneidade infantil ele ainda possui. Se sua resposta for “pouca”, é hora de lhe oportunizar vivências infantis.
Permita que sua criança brinque, aproveite, arrisque-se, faça uso de todo o seu potencial corporal – ajudará muito (e em tudo)!

Lisandra Pioner
Pedagoga e Psicopedagoga

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