Minha formação é, antes de qualquer
coisa, “Orientação Educacional”. Quase não consegui estar habilitada para Anos
Iniciais, não fosse minha teimosia (tão peculiar) em não me conformar com as
coisas que considero erradas… Não entendia o motivo de eu poder dar aula para
professores de Anos Inicias em formação, mas não poder dar aula para crianças.
Então, após um árduo processo burocrático junto à Secretaria da Educação, meu
diploma veio com um carimbo incluindo essa possibilidade ao meu currículo.
Além de orientadora, sou
psicopedagoga institucional. Mas posso dizer, com toda a humildade do mundo,
que nem a faculdade, nem a especialização me ensinaram muita coisa a respeito
desses dois lugares tão importantes dentro de uma instituição educacional.
Mas meus 13 anos de formação, somados
aos meus 35 de sensibilidade visceral me mostraram para que serve o Setor de
Orientação Educacional das escolas… o inesquecível SOE, para muitas crianças!
O orientador faz parte da equipe
gestora. É um dos grandes responsáveis (ou deveria ser) pela garantia de um
processo de aprendizagem íntegro e calcado em dedicação, seriedade e
competência. Ele também trata (ou deveria) de questões ligadas às relações
humanas. E para isso, não pode (ou não poderia) ficar dentro da sua sala,
apenas aguardando casos complicados, ou “apagando incêndios”, como costuma-se
dizer. Esse profissional precisa (ou deveria) estar à frente, se antecipar, ser
sensível e pró-ativo o suficiente para antever questões latentes.
Circular pelos espaços, conviver com
os alunos e os professores, conhecer um pouco sobre cada família e cada turma é
um pouco da dinâmica que está (ou deveria) intrínseca ao trabalho do
orientador.
Além disso, o orientador lida com as
mais diversas angústias, as mais diferentes especificidades, as mais incríveis
singularidades e os mais desesperadores assuntos que rondam os aspectos da
aprendizagem humana. E quando falo em “aprendizagem humana”, falo sobre saúde,
falo sobre ambiente e falo, principalmente, sobre afetos.
O orientador precisa saber o que
fazer, o que dizer e até a quem encaminhar, quando necessário. Costumo dizer
que entre instituição, família, estudante e professor, o orientador educacional
é o “adulto da relação” (ou deveria ser), pois é ele quem intermedia toda essa
conexão complexa, tantas vezes inundada por sentimentos confusos e ocultos.
Para simplificar, eu poderia listar
uma quantidade enorme de atribuições. Aliás, farei isso, porque realmente penso
que é necessário catalogar, enumerar e refletir a respeito de cada uma delas. Pois
bem…. o orientador:
*Conhece a legislação;
*Media conflitos;
*Auxilia os membros da instituição no
conhecimento de comportamentos esperados e identificação de comportamentos
inadequados, além dos casos relativos a problemas e dificuldades de
aprendizagem;
*Participa e zela pela execução do
Projeto Político Pedagógico da escola;
*Escuta e dialoga com os membros da
comunidade escolar;
*Orienta estudantes em relação ao seu
desenvolvimento pessoal, escolar e até profissional, primando por atitudes,
emoções e valores éticos;
*Trabalha com projetos que organizam
a sua atuação, fazendo com que esteja no cerne das questões relativas à
aprendizagem e comportamento;
*Auxilia o professor no ajuste de sua
atuação em relação a casos específicos;
*Busca informações sobre diagnósticos
dados a alunos, e as leva ao professor e a todos os membros atuantes da escola,
auxiliando no entendimento e melhor atuação destes com a criança;
*Tece uma rede de diálogo entre todos
os profissionais que atuam com os alunos, como: neurologistas, psicopedagogos,
psicólogos, fonoaudiólogos, etc.;
*Cuida dos interesses do aluno e do
professor, fazendo questão de que o trabalho em sala de aula se dê da melhor
forma possível, porque sabe que, em primeiro lugar está a garantia de que a
aprendizagem se efetive;
*Exige informações que façam
diferença no processo de ensino-aprendizagem, como diagnósticos de estudantes.
E acima de tudo, o orientador estuda
(ou deveria). Ele nunca deixa de aprender e de compartilhar seus conhecimentos.
Por isso, creio que não há como ser
um bom orientador e um orientador de gabinete ao mesmo tempo. São posições
totalmente antagônicas! Pra quem está se formando ou está querendo mudar de rumo
profissional, desejando uma bela sala e uma confortável cadeira, aconselho a
desistir, porque o mercado está saturado deste perfil de profissional.
As escolas estão implorando por
orientadores atuantes! Orientadores que volta e meia frequentem as salas de
aula, porque é lá dentro que a gente aprende a lidar com os personagens que lá
estão. Não existe milagre, nem sorte. Existe gente que se esforça para que as
coisas mudem.
Lisandra Pioner
Professora, psicopedagoga e colunista
da Zero Hora

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