Não é segredo pra ninguém que minha
mãe e eu nunca tivemos uma relação muito próxima (quem não sabe disso, não sabe
por falta de oportunidade). De toda a minha infância, tenho algumas raras
lembranças... ela penteando meus cabelos enquanto víamos Chacrinha em um sábado
à tarde; eu segurando sua mão, aos prantos, enquanto rezávamos na entrada do
colégio (estudava em colégio católico), implorando para que não me deixasse naquele
Jardim de Infância que eu detestava; ela saindo de pantufas para trabalhar, só
se dando conta disso na esquina de casa; ela me perguntando se eu havia passado
perfume e diante da negativa, me entupindo de almíscar (um miniperfume
fedorento, que se não me falha a memória, é da marca Phebo) no meio da rua,
fato que me fez passar uma manhã de aula inteirinha ouvindo dois colegas (o
Ricardo Luciano e o Jader!) debocharem da minha “catinga”; eu me despedindo
dela na frente do colégio, quando descia do ônibus e ela permanecia; e eu
ligando para meu pai, avisando que minha irmã estava quase nascendo, numa
gelada noite de domingo, enquanto assistíamos o Globo de Ouro. São lembranças da
infância de uma menina insegura, desajeitada e extremamente tímida. Lembranças
de uma infância que já se foi há muito tempo, e talvez por isso, se encontre
meio distorcida. Mas foram essas lembranças que, provavelmente, me fizeram ser
o que e como sou hoje.
Sempre fui uma menina quieta,
introvertida, pensativa, observadora. Nunca me destaquei em quase nada além da
escrita. Não era bonita, nem falante, nem engraçada, nem divertida, nem
simpática, nem boa em esportes... passava muito mais tempo acompanhada da minha
principal característica, a introspecção, do que batendo papo com a família e
com os amigos.
Passei toda a minha adolescência
numa mistura de tentativa de ajuste, com rebeldia. Isso fazia minha mãe
enlouquecer. Brigávamos muito. Percebia o quanto o meu jeito a desagradava... Deve
ser difícil ver um pedaço de ti importunar...
Anos mais tarde engravidei. Tinha
26 anos e ainda era uma adolescente. Enquanto minha barriga crescia,
amadurecia.
Durante minha gravidez pensava
muito na importância de ser uma boa mãe... o quanto eu precisava me aceitar
para aceitar a pessoinha que estava chegando. Tive nove longos meses para
pensar e repensar minha vida (desde a minha infância). Nove longos meses para
me aproximar da minha mãe por um motivo simples e íntegro: estávamos no mesmo
patamar.
Foram meses de grande aprendizado.
Meses em que me distanciei para me (re)aproximar. Meses em que me coloquei em
segundo plano e planejei o que podia. Meses de leveza e tensão quase que
concomitantes.
Esses meses transformaram muitas
coisas. Transformaram uma promessa em um ser humano (encantador). Transformaram
uma relação delicada em uma relação coesa. Transformaram uma adolescente em uma
mulher. Transformaram uma mãe em uma avó.
E foi através dessas transformações
que tive a mais surpreendente e encantadora descoberta: tudo é passageiro. É a
gente que eterniza os acontecimentos e as situações através das emoções que
elas nos provocam.
Hoje, minha mãe é a melhor
reinvenção dela mesma. Ser avó me parece uma oportunidade de reeditar o que não
ficou bem escrito.
Desejo nesse dia das mães, que ela
sinta-se feliz por essa oportunidade e que eu, um dia, possa ter a mesma
chance.
Lisandra Pioner
Professora, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

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