Sunday, May 10, 2015

Transformações e reedições que só a maternidade (e a “voternidade”) proporcionam...


Não é segredo pra ninguém que minha mãe e eu nunca tivemos uma relação muito próxima (quem não sabe disso, não sabe por falta de oportunidade). De toda a minha infância, tenho algumas raras lembranças... ela penteando meus cabelos enquanto víamos Chacrinha em um sábado à tarde; eu segurando sua mão, aos prantos, enquanto rezávamos na entrada do colégio (estudava em colégio católico), implorando para que não me deixasse naquele Jardim de Infância que eu detestava; ela saindo de pantufas para trabalhar, só se dando conta disso na esquina de casa; ela me perguntando se eu havia passado perfume e diante da negativa, me entupindo de almíscar (um miniperfume fedorento, que se não me falha a memória, é da marca Phebo) no meio da rua, fato que me fez passar uma manhã de aula inteirinha ouvindo dois colegas (o Ricardo Luciano e o Jader!) debocharem da minha “catinga”; eu me despedindo dela na frente do colégio, quando descia do ônibus e ela permanecia; e eu ligando para meu pai, avisando que minha irmã estava quase nascendo, numa gelada noite de domingo, enquanto assistíamos o Globo de Ouro. São lembranças da infância de uma menina insegura, desajeitada e extremamente tímida. Lembranças de uma infância que já se foi há muito tempo, e talvez por isso, se encontre meio distorcida. Mas foram essas lembranças que, provavelmente, me fizeram ser o que e como sou hoje.
Sempre fui uma menina quieta, introvertida, pensativa, observadora. Nunca me destaquei em quase nada além da escrita. Não era bonita, nem falante, nem engraçada, nem divertida, nem simpática, nem boa em esportes... passava muito mais tempo acompanhada da minha principal característica, a introspecção, do que batendo papo com a família e com os amigos.
Passei toda a minha adolescência numa mistura de tentativa de ajuste, com rebeldia. Isso fazia minha mãe enlouquecer. Brigávamos muito. Percebia o quanto o meu jeito a desagradava... Deve ser difícil ver um pedaço de ti importunar...
Anos mais tarde engravidei. Tinha 26 anos e ainda era uma adolescente. Enquanto minha barriga crescia, amadurecia.
Durante minha gravidez pensava muito na importância de ser uma boa mãe... o quanto eu precisava me aceitar para aceitar a pessoinha que estava chegando. Tive nove longos meses para pensar e repensar minha vida (desde a minha infância). Nove longos meses para me aproximar da minha mãe por um motivo simples e íntegro: estávamos no mesmo patamar.
Foram meses de grande aprendizado. Meses em que me distanciei para me (re)aproximar. Meses em que me coloquei em segundo plano e planejei o que podia. Meses de leveza e tensão quase que concomitantes.
Esses meses transformaram muitas coisas. Transformaram uma promessa em um ser humano (encantador). Transformaram uma relação delicada em uma relação coesa. Transformaram uma adolescente em uma mulher. Transformaram uma mãe em uma avó.
E foi através dessas transformações que tive a mais surpreendente e encantadora descoberta: tudo é passageiro. É a gente que eterniza os acontecimentos e as situações através das emoções que elas nos provocam.
Hoje, minha mãe é a melhor reinvenção dela mesma. Ser avó me parece uma oportunidade de reeditar o que não ficou bem escrito.

Desejo nesse dia das mães, que ela sinta-se feliz por essa oportunidade e que eu, um dia, possa ter a mesma chance.

Lisandra Pioner
Professora, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

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