Wednesday, August 30, 2017

Pequenas corrupções diárias

         


   Hoje eu quero falar com você. É, você mesmo. Você que para em fila dupla pra deixar o seu filho na porta do colégio – porque você tem pressa e não pode estacionar para deixá-lo, mas a pressa dos outros, pouco lhe importa.
Você! Você que tranca o estacionamento. Você que para bem no meio do caminho – como se tivesse planejado estrategicamente o lugar para que todos fossem espectadores – e calmamente sai do carro, abre o porta-malas, pega a mochila, fecha o porta-malas, coloca a mochila nas costas do rebento, dá-lhe um beijinho e espera que ele entre; aí sim, entra em seu carro e arranca – enquanto uma fila imensa de paspalhos educados lhe assistem, sem querer fazer escândalo.
Você aí. Que sabe que a fila imensa é para entrar na escola do seu filho ou na rua da escola, e ao invés de ficar no seu lugar, vai indo “distraidamente” pelo lado e quando está no local perfeito – nem tão perto pra ser o primeiro a entrar, nem tão longe para ser o quarto ou o quinto – liga o pisca e... se mete na frente dos doze que lá estão há cinco minutos!
Você pensa que isso não é nada, não é mesmo? Você acha que isso é só uma gentileza da humanidade com a sua ânsia de prioridade e que não fará mal a ninguém... sabe por que acha isso? Porque é um egocêntrico mimado que comete pequenas corrupções diárias e tem o desplante de ostentar a frase “Fora Temer!”, “Fora Dilma!” –  ou seja lá qual a frase de ordem da vez – na sua foto do Facebook. Sabe qual a diferença entre você e esses políticos corruptos todos? A oportunidade! Porque a essência dos atos é a mesma: o egocentrismo genuíno!
Podemos até não notar, mas somos nós, seres humanos comuns que dificultam ainda mais a convivência em sociedade. O governo desonesto, os atos ilícitos, as aparentes injustiças do destino são, sem dúvida, entraves, incômodos... mas o que acaba conosco de verdade, o que nos causa estresse, o que nos faz criarmos doenças psiquiátricas novas a cada década, o que nos presenteia com uma gama de transtornos de ansiedade imensa é o mal motorista, o vizinho mal educado, o colega invejoso, o chefe mal humorado, o filho ingrato, a mãe superprotetora, o marido que reclama o tempo inteiro, a esposa que nunca está satisfeita, a atendente da farmácia que é estúpida, o empacotador do supermercado que nem te olha. É a falta de gentileza que nos deprime. É a falta de empatia que nos segrega. É a falta de respeito que nos inflama.
O parcelamento do salário é um imenso problema, sim. A insegurança ao sair de casa é decepcionante. A Reforma Trabalhista é preocupante. A taxa crescente de desemprego é alarmante. A inflação é perturbadora. Mas tudo isso pode ser amenizado – atentem para o amenizado, porque não estou romantizando a crise, não –  com pequenas doses de delicadeza diárias. E somos nós que podemos distribuí-las pelo mundo afora – começando pelos locais que você frequenta.
Você aí... tente! Não custa nada e o retorno positivo é garantido!

Lisandra Pioner

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