A gente
escuta histórias absurdas por aí, lê outras tantas em redes sociais, fica
sabendo de consequências drásticas, relacionadas a pessoas que sofreram bullying... e então, em um dia
aparentemente comum, uma história como essas (a princípio tão distantes da
nossa realidade), adentra nossa casa...
Você deve saber o que é cyberbullying. Uma palavra estrangeira, pra explicar um conceito
muito conhecido por todos nós: a covardia. O ser humano, dentro das suas
imensas limitações emocionais, em muitos momentos transforma sua insegurança,
sua inveja, sua cobiça, sua baixa autoestima e até mesmo suas sombras (a parte
não muito boa, que todos temos), em ações... e essas ações, muitas vezes são
violentas, excludentes e que só demonstram uma fraqueza (emocional, psicológica
e de caráter) enorme. Aliás, que outro motivo alguém teria para agir de forma
desleal, se não for por se considerar muito fraco?
O
Cyberbullying tem a ver com práticas de agressão moral, organizadas por grupos,
contra uma determinada pessoa. A intenção geralmente é ridicularizar e/ou
perseguir. Com o aumento do uso das redes, essa prática tem se tornado cada vez
mais comum – infelizmente. A internet é um oásis pros covardes! Acontece todos
os dias, e muitas vezes o jovem que sofre, não conta a ninguém, por medo. E o
que pratica, se esconde por trás desse sentimento que causa no outro, e
alimenta a crença de que “não vai dar nada”.
Só que
independente das motivações psicológicas do praticante, o bullying – seja ele
feito através da internet ou cara a cara – deixa marcas. É muito difícil
explicar a uma criança, que sofreu uma situação vexatória ou amedrontadora, que
a pessoa que o fez, tem “problemas”, que é preciso ter um olhar mais piedoso
para com ela... e quando a criança é tua filha, vou dizer que é ainda mais
imensamente custoso.
Porém, como
acredito que aconteça com tudo nessa vida, uma hora há um retorno, existe uma
consequência. E foi exatamente isso que aconteceu no caso da minha filha.
A Maria
Antônia vinha demonstrando alguns momentos de maior irritação e tristeza. Volta
e meia reclamava de um colega que falava grosserias e de algumas meninas, que a
excluíam de momentos na escola. Eu, partidária de tentar sempre incentivar a
criança a se resolver sem intervenção de adultos, pedi a ela que tentasse
relevar, que procurasse outras meninas, que falasse ao menino que as grosserias
dele não eram legais e que ofendiam. Algum tempo depois, mais precisamente na
segunda, 3 de junho, ela chegou em casa e me mostrou uma foto que estava
circulando pelos grupos de whatsapp dos colegas de escola (com participantes
entre 11 e 12 anos – pasmem!). A foto era dela, e em cima da foto, palavras
ofensivas que a censura não me permite reproduzir.
Crianças,
seja lá por quais razões, escolheram-na para mostrarem ao mundo (e
principalmente a suas próprias famílias), que ainda não possuem maturidade para
estarem livres, leves (embora leveza não combine nenhum pouco com a situação) e
soltas pelo mundo de ninguém, que é o espaço cibernético. Não sei se isso
aconteceu outras vezes, mas sei que dessa vez, escolheram a pessoa errada para
“brincar”.
A história
começou com uma criança envolvida e terminou com quatro! Uma delas criou e passou
a um colega e todas as outras repassaram a foto. Entendem? Quem assiste
passivamente a situação humilhante de alguém, é conivente. Quem participa, repassando material abusivo, é cúmplice!
Dessas quatro crianças, três foram suspensas da escola. Mas em todas as quatro famílias,
houve algo em comum: choro e a fala de que JAMAIS pensaram que seus filhos eram
capazes de algo assim.
Será que
era preciso chegar a esse ponto?
Quando falo
que somos nós, adultos, que precisamos dar as diretrizes e mostrarmos o que é
certo e bom e o que é errado e mau, há quem diga que “não há essa necessidade,
e que aos poucos as crianças aprendem e também, que não há maldade em ações
infantis”. Então vou repetir aqui (e continuarei a repetir para todo, sempre):
pode não haver maldade genuína no ato de uma criança, mas isso não a livra de
fazer muito mal a uma outra (como no caso que descrevi), porque nesse caso, não
é a intenção, mas a ação que vale.
E vou dizer
mais! Eu vejo isso nas salas de aula, corredores e pátios de todas as escolas
pelas quais já passei... há crianças oprimidas por colegas, há crianças que não
têm noção do quanto podem interferir emocionalmente na vida do outro e há
adultos que não conseguem passar a noção de empatia e compaixão aos seus
pequenos (provavelmente porque também não possuem).
Então pra
finalizar, sabe aquela mentira que seu filho lhe contou sobre não ter tema?
Sabe aquela vez que você foi chamada na escola para conversar sobre as frases
inadequadas ditas a vários coleguinhas? E aquelas vezes em que ele levou
materiais dos colegas escondidos na mochila? Pois é... se você não explicar que
é errado, ele não vai descobrir sozinho. E pior! Quando esses pequenos atos
começarem a ser proporcionais a sua idade, vai acabar descobrindo através dos
outros (geralmente sem nada de amorosidade) que tudo na vida tem uma
consequência. Tudo mesmo.
Lisandra Pioner
Professora e Psicopedagoga

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