Tuesday, March 24, 2015

Ser professor...


Há 13 anos atrás eu equilibrava meus dias em manhãs e tardes de trabalho em uma escola de educação infantil e revezava as noites entre faculdade, TCC e estágio no Setor de Orientação Educacional de uma escola pública. Eram dias cansativos e encantadores.
Quatro coisas ficaram na minha memória desde aquele estágio:
1ª) a dificuldade de atingir aqueles jovens e velhos adultos, cansados de um dia inteiro de trabalho e de uma vida fatigante;
2ª) a imagem exaurida de muitos professores, que me diziam “Quero te reencontrar daqui há 10 anos… vamos ver se tu continuará com tanta vontade de trabalhar e modificar as coisas”;
3ª) o convite, ao final do estágio, do diretor para que eu permanecesse trabalhando no colégio com um contrato;
4ª) a carta da orientadora à faculdade que eu fazia. Carta essa, que mais parecia uma poesia do que uma avaliação do meu estágio.
Pois ontem, 13 longos anos de trabalho e dedicação após, recebo um e-mail dessa mesma orientadora contando da alegria que sentiu ao me ler nas páginas da Zero Hora. Dizia ela o quanto ficou “feliz e orgulhosa por uma pessoa que muito lutou e conquistou espaços”. Dizia que lembrava das minhas “lutas e empenho” durante o estágio… Chorei de emoção. Chorei porque o reconhecimento é o maior presente que eu já ganhei em toda a minha vida. Chorei porque não há nada nesse mundo que eu faça com mais amor do que ser educadora. Pra isso eu durmo pouco, pra isso eu estudo sempre, pra isso eu vejo uma oportunidade em cada situação, pra isso eu deixo tantas vezes de ter lazer, pra isso eu me privo de muitos momentos ao lado da minha filha…
Talvez seja por isso que, quando me sinto injustiçada, sofro tanto. O bom é que me reinvento na escrita… deixo no papel, o que afeta minha alma e meu coração.
Tenho percebido, nessa mais de uma década de trabalho diário em sala de aula, uma mudança no perfil do professor. Uma necessidade de mudança, pelo menos.
Pra ser um professor – não me refiro a ser um professor medíocre – é preciso muito mais do que faculdade de Pedagogia – aqui me refiro aos de educação infantil e anos iniciais. É preciso conhecimento de conteúdo, de Psicologia, de desenvolvimento infantil, de Psiquiatria, de terapia holística, de religiões, de teoria sistêmica, de Psicopedagogia, de Psicomotricidade e de dificuldades e transtornos de aprendizagem.
Mas ainda é preciso mais! É preciso muita paciência, inteligência emocional, resiliência e eu até diria, com o perdão do sarcasmo, “sangue de barata”.
O professor, há muito tempo deixou de atender as crianças. O professor hoje, atende as famílias. Atende a falta de compreensão do aluno em relação a algum conteúdo dentro da sala de aula, e tantas outras ausências que acontecem fora dela.
E mais! O professor atende, entre aquelas quatro paredes, o resultado ineficiente de todo um sistema que deveria estar na base do desenvolvimento da criança – seja pela inexistência, seja pela incompetência de quem deveria estar fazendo algo. E tantas vezes não é recompensado, sequer reconhecido.
Há dias em que eu coloco a velha capa de heroína do mundo – aquela que comecei a usar lá no meu estágio, aos 20 e poucos anos – e com orgulho vou fazendo o que compete a mim e a todos os outros. Mas há dias em que questiono se toda essa onipotência não provoca uma exaustão degradante e inútil.
Pra quem acha – do alto da sua ignorância – que ser professor é fácil, afirmo com todas as certezas de que disponho, que tirando a Medicina, desconheço profissão mais árdua.
Ainda não sei o porquê de a Pedagogia ser uma faculdade barata… e também não entendo o porquê de não ter uma banca rigorosíssima, ao final do curso, para que só siga adiante quem realmente tem “nervos de aç”o e sabe exatamente o que quer. Ahhh… talvez seja pela remuneração vergonhosa dispensada a esses profissionais. E pelo reconhecimento miserável.
E pra finalizar, um desejo de todo o meu coração:
“Que os bons não percam a coragem de seguir adiante.”
Lisandra Pioner

Professora, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

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