Há
13 anos atrás eu equilibrava meus dias em manhãs e tardes de trabalho em uma
escola de educação infantil e revezava as noites entre faculdade, TCC e estágio
no Setor de Orientação Educacional de uma escola pública. Eram dias cansativos
e encantadores.
Quatro
coisas ficaram na minha memória desde aquele estágio:
1ª)
a dificuldade de atingir aqueles jovens e velhos adultos, cansados de um dia
inteiro de trabalho e de uma vida fatigante;
2ª)
a imagem exaurida de muitos professores, que me diziam “Quero te reencontrar
daqui há 10 anos… vamos ver se tu continuará com tanta vontade de trabalhar e
modificar as coisas”;
3ª)
o convite, ao final do estágio, do diretor para que eu permanecesse trabalhando
no colégio com um contrato;
4ª)
a carta da orientadora à faculdade que eu fazia. Carta essa, que mais parecia
uma poesia do que uma avaliação do meu estágio.
Pois
ontem, 13 longos anos de trabalho e dedicação após, recebo um e-mail dessa
mesma orientadora contando da alegria que sentiu ao me ler nas páginas da Zero
Hora. Dizia ela o quanto ficou “feliz e orgulhosa por uma pessoa que muito
lutou e conquistou espaços”. Dizia que lembrava das minhas “lutas e empenho”
durante o estágio… Chorei de emoção. Chorei porque o reconhecimento é o maior
presente que eu já ganhei em toda a minha vida. Chorei porque não há nada nesse
mundo que eu faça com mais amor do que ser educadora. Pra isso eu durmo pouco,
pra isso eu estudo sempre, pra isso eu vejo uma oportunidade em cada situação,
pra isso eu deixo tantas vezes de ter lazer, pra isso eu me privo de muitos
momentos ao lado da minha filha…
Talvez
seja por isso que, quando me sinto injustiçada, sofro tanto. O bom é que me reinvento
na escrita… deixo no papel, o que afeta minha alma e meu coração.
Tenho
percebido, nessa mais de uma década de trabalho diário em sala de aula, uma
mudança no perfil do professor. Uma necessidade de mudança, pelo menos.
Pra
ser um professor – não me refiro a ser um professor medíocre – é preciso muito
mais do que faculdade de Pedagogia – aqui me refiro aos de educação infantil e
anos iniciais. É preciso conhecimento de conteúdo, de Psicologia, de
desenvolvimento infantil, de Psiquiatria, de terapia holística, de religiões,
de teoria sistêmica, de Psicopedagogia, de Psicomotricidade e de dificuldades e
transtornos de aprendizagem.
Mas
ainda é preciso mais! É preciso muita paciência, inteligência emocional,
resiliência e eu até diria, com o perdão do sarcasmo, “sangue de barata”.
O
professor, há muito tempo deixou de atender as crianças. O professor hoje,
atende as famílias. Atende a falta de compreensão do aluno em relação a algum
conteúdo dentro da sala de aula, e tantas outras ausências que acontecem fora
dela.
E
mais! O professor atende, entre aquelas quatro paredes, o resultado ineficiente
de todo um sistema que deveria estar na base do desenvolvimento da criança –
seja pela inexistência, seja pela incompetência de quem deveria estar fazendo
algo. E tantas vezes não é recompensado, sequer reconhecido.
Há
dias em que eu coloco a velha capa de heroína do mundo – aquela que comecei a
usar lá no meu estágio, aos 20 e poucos anos – e com orgulho vou fazendo o que
compete a mim e a todos os outros. Mas há dias em que questiono se toda essa
onipotência não provoca uma exaustão degradante e inútil.
Pra
quem acha – do alto da sua ignorância – que ser professor é fácil, afirmo com
todas as certezas de que disponho, que tirando a Medicina, desconheço profissão
mais árdua.
Ainda
não sei o porquê de a Pedagogia ser uma faculdade barata… e também não entendo
o porquê de não ter uma banca rigorosíssima, ao final do curso, para que só
siga adiante quem realmente tem “nervos de aç”o e sabe exatamente o que quer. Ahhh…
talvez seja pela remuneração vergonhosa dispensada a esses profissionais. E
pelo reconhecimento miserável.
E
pra finalizar, um desejo de todo o meu coração:
“Que
os bons não percam a coragem de seguir adiante.”
Lisandra
Pioner
Professora,
Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

No comments:
Post a Comment