Me julguem, mas eu fiquei com pena do Eike.
Melhor! Não me julguem, porque ao menos eu tenho coragem de expor o que penso e
sinto, custe-me o que custar. E num mundo onde a coragem está em desuso, penso
que atitudes como essa são dignas, ao menos, de um pouquinho de admiração.
Ontem, assistindo à entrevista do Eike Batista,
me vi pensando nas voltas que o mundo dá e no quanto tudo se transforma. Lógico
que sei que ele está lá por conta própria! Seja por uma cobiça gigantesca, por
uma falta de limites absurda ou pela crença, cada vez mais errônea, de que “não
dá nada” nesse país, lá estava um homem que teve, aparentemente, tudo o que um
ser humano poderia desejar. Da Lamborghini exibida na sala a uma das mulheres
mais desejadas do país ostentando uma coleira com seu nome! Ele teve muito mais
do que a maioria esmagadora do Brasil terá na vida. E mesmo assim, senti pena
dele.
Logo a piedade cedeu lugar à vergonha por estar tendo
aquele sentimento e pensei na população carcerária de pobres que nunca tiveram
grandes oportunidades na vida. Quanta dessa gente maltratada pela miséria,
discriminação e humilhação é diariamente presa sem termos o menor conhecimento.
E quantos desses jamais terão a piedade de alguém e muito menos uma pessoa que
escreva sobre o que sente em relação a eles...
Saí da frente da televisão ainda meio incomodada
e reflexiva e fui cozinhar. Então meu marido surpreendeu-me dizendo que estava
sentindo um pouco de piedade do Eike. E eu pensei “O que faz a gente ter esse
sentimento por um cara que tinha infinitamente muito mais que nós – financeiramente falando – e não termos pelo
batedor de carteira sem estudo e abusado na infância” ? Ou melhor! O que nos faz termos sentimentos
controversos, como raiva e dó, por ambos, mas darmos importância maior ao Eike?
Então hoje acordei pensando que precisava
escrever a respeito disso – mais pra organizar minhas ideias do que qualquer
outra coisa –, mas antes passei os olhos pela Zero Hora e o que eu encontro?! A
coluna do David Coimbra com o título “Fiquei com pena do Eike”! Confesso que
senti uma pontinha de alívio... mais alguém, além do pessoal aqui de casa,
sentiu o mesmo.
Penso no que o Eike está pensando sobre os rumos
que sua vida vem tomando... Coisas como “Por que fiz essas escolhas?”, “Como
cheguei a esse ponto?”, “O que vai acontecer comigo a partir de agora?”, “O que
meus filhos – e não estou entrando no mérito de serem inconsequentes ‘filhinhos
de papai’, porque não se julga amor fraterno – e as pessoas que me são caras
estão pensando de mim?”, devem, em algum momento ter passado pela sua cabeça...
Comentando isso com uma amiga, ela logo me deu a seguinte previsão do futuro: “Daqui
a alguns dias ele sai da cadeia, e mesmo pobre tem muito mais do que a gente
terá pelo resto da vida!”. Talvez ela tenha razão, mas eu ainda acredito que
ninguém passa incólume por um presídio. Uns aprendem a serem ainda mais cruéis,
outros a se revoltarem contra uma sociedade que tem o despautério de submeter
seres humanos a condições desumanas, outros a nunca mais voltarem pra lá. Mas
independente do resultado, ninguém passa ileso emocionalmente por uma
experiência dessas. Talvez nem nós, meros expectadores.
Lisandra Pioner
Professora, Psicopedagoga e Colunista da ZH

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