Acredito
que 99% das pessoas que possuem algum tipo de rede social estejam a par do fato
escabroso ocorrido em um Bourbon de Porto Alegre. Um homem aparentemente comum
molesta uma criança em um local público, demostrando mais do que uma atitude
repulsiva, uma total falta de medo – aquele sentimento inibitório que, na
melhor das hipóteses, nos tira de muitas situações perigosas. Sessenta e dois
anos, casado e aparentemente pai de duas jovens do sexo feminino – olha a
ironia!
Quando fui até seu Facebook, senti
pena daquelas pessoas que estavam ali, expostas, abraçadas a ele. Depois fui
observando outros detalhes... ele dizia trabalhar na Jocum Brasil – uma
entidade missionária sem fins lucrativos, que logo deu um jeito de soltar uma
nota avisando que a criatura do mal apenas havia feito parte de um treinamento
com eles há 30 anos atrás e que não existia vínculo algum depois disso. Li
também, abismada, que sua única postagem escrita dizia “É urgente, precisamos
estar cheios da vida de Deus!” e me peguei pensando na imagem equivocada que algumas
pessoas têm Dele. Observei fotos de criança e fiquei pensando que se eu fosse
mãe de alguma das que tiveram contato com esse monstro, viveria me questionando
sobre o que eu, talvez, não tenha percebido, e as consequências disso...
O vídeo é chocante. Mas confesso que
se não tivesse visto as imagens, pensaria que era só mais um boato misturando
redes sociais, companha Zaffari e Bourbon e aberrações humanas. Eu precisei
enxergar a cena grotesca e repulsiva para alertar pessoas que passeiam com a
minha filha, por exemplo, de que fatos absurdos dessa proporção podem
acontecer. Mas eu não vi a menina... não a identifiquei e nem busquei isso. Li
o boletim de ocorrência e só me detive no nome dos pais do molestador – e fiquei desejando que não estivessem mais
vivos para se pouparem de tamanha desilusão (considerando que tenham sido pais
decentes e emocionalmente saudáveis, para não entrar em meandros da Psicologia,
que envolvem repetição de comportamentos parentais).
O que quis dizer com isso? Que não vi o nome da
mãe da menina, que não reparei na criança e que não fiquei buscando saber de
quem se tratava. Porque minha forma de lidar com situações desta natureza é
identificar o responsável pela dor e, se possível, auxiliar a vítima – mas na
impossibilidade disso, focar no que precisa ser extinto. Escrevo, porque muito
tem me chamado a atenção a enxurrada de posts e mensagens de pessoas que
mudaram totalmente o foco: crime hediondo de abuso sexual para o crime previsto
no ECA, de divulgação de imagens de menor de idade. Calma! Não estou dizendo
que um crime anula o outro, mas só um pouquinho, né?! Busquei enlouquecidamente
em meus recursos internos, alguma ressonância com esse sentimento de “Que absurdo
mostrar uma criança sendo molestada”, mas só encontrei identificação com o que
gritava “Que chocante saber que um adulto é capaz de algo tão estúpido”.
Podia ter sido mais discreta a publicação dessas
imagens? Podia! Podiam ter colocado uma tarja no rosto da menina? Podiam e até
deviam! Mas o fato está aí, escancarado e sendo esfregado na nossa cara. Até
quando iremos tirar do foco o que realmente importa, colocando o nosso “rabinho
entre as pernas” e estimulando que a revolta seja abafada pela anuência, pela
anulação?
Pois eu estou RE-VOL-TA-DA! – por favor, não me
peçam diplomacia num caso como este. E garanto que, se tivermos a oportunidade
de perguntar a essa menina daqui a vinte anos, se alguma coisa em sua infância
lhe traumatizou, provavelmente não será a sua imagem (não identificável,
diga-se de passagem) exposta.
E já que resolvi falar o que eu penso mesmo, vou
dizer mais uma coisinha: acredito piamente na mudança interna, no
aperfeiçoamento humano, na transformação de vida. Mas há casos em que a minha
humanidade grita e não há o que me faça
acreditar em conversão – esse é um dos casos. Desejo que seus parceiros de cela
(porque ele há de tê-los algum um dia) o tratem com “muito carinho”! (E que
Deus me perdoe pela falta de compreensão com algumas falhas humanas)
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Pós-graduanda em Atendimento Educacional Especializado

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