Thursday, June 04, 2015

A matéria que causou polêmica...



Pela primeira vez, recebi alguns e-mails bem desaforados, criticando minha coluna na ZH. Defensores da "desescolarização", que segundo eles, não é o mesmo que educação domiciliar, (embora não saibam explicar o que se trata) ficaram bem chateados com o meu texto. Lá vai o texto:
A “desescolarização” em foco

Quando uma palavra recebe o prefixo “des” logo me vem à cabeça deixar algo, perder, retroceder. Em relação à palavra “desescolarização”, que tenho ouvido bastante ultimamente, não é diferente. Aliás, ouço isso com um misto de assombração e perplexidade.
A desescolarização, o ensino domiciliar ou o homeschooling (como alguns chamam, talvez porque o que seja estrangeiro é mais bem aceito) nada mais é do que a prática de dispensar a escola formal e ter o ensino desenvolvido pela família, em casa. Os adeptos dessa prática defendem que as escolas selecionam mal seus conteúdos, não respeitam as singularidades de cada criança e colocam até mesmo o bullying como um sério empecilho à ida das crianças para uma instituição de ensino.
Então fico imaginando todas as implicações (principalmente futuras) que essa decisão pode ter.
Uma família que decide deixar seu filho em casa, muitos deles alegando que lá cada indivíduo consegue criar seu próprio percurso curricular, ignora totalmente que a Educação está longe de ser apenas a transmissão de conteúdos formais. A Educação é um processo extremamente complexo e rico, que envolve interação, socialização, resolução de conflitos, saber lidar com a frustração, convivência, e uma infinidade de outras situações que somente um grupo grande e heterogêneo pode proporcionar. O sistema de ensino está em crise? Está. Não se trabalha autonomia, nem autoconfiança, nem conteúdos realmente significativos? Em muitas escolas não. Mas temos a possibilidade de buscar a que se encaixa melhor em nossas necessidades. E eu garanto que há escolas boas.
Além disso, quantos afetos envolvem uma família, quantas transferências acontecerão diante dessa nova modalidade de escolarização?
E por último e não menos importante (aliás, pelo contrário!), saber lidar com a vida real é um aprendizado que só se faz saindo a campo. A vida real exige estágio e não teoria. E o estágio é o período escolar. É lá que aprendemos a lidar com o outro (que na minha opinião, muitas vezes é o que de mais difícil há). Em algum momento a realidade vai bater na porta dessas crianças também, mesmo que já sejam adultos. E o que pensam que vai acontecer? Que por serem adultos as emoções estarão trabalhadas como que num passe de mágicas? Emoção se trabalha na prática. Não há outro jeito.
Temo pelo futuro. Em um mundo onde o egocentrismo, o egoísmo e individualismo  imperam, colocar crianças em redomas não me parece a decisão mais inteligente.

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

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