Sunday, June 07, 2015

A dependência tecnológica


Eu já havia iniciado este texto, quando vi uma propaganda na TV, que falava sobre um filme que mostrava crianças prisioneiras de um jogo de videogame. Ficção? Eu penso que não exatamente.
Dia desses me deparei com uma mãe angustiada com a crise emocional de seu filho desde que ela, num ímpeto maternal de fazer o bem, retirou todos os aparelhos eletrônicos dele. Segundo ela, a criança estava tendo um baixo rendimento no colégio e na ânsia de regular o foco do menino para aquilo que realmente é importante, tirou dele o que, na visão dela, iria fazê-lo repensar. E realmente o fez repensar. Mas também o fez se desesperar! E diante do desespero dele, ela também se desesperou.
Pais e mães estão percebendo o quanto a tecnologia está presente na vida deles e de suas crianças, mas entram em choque quando percebem que essa importância passou dos limites há bastante tempo. E isso geralmente ocorre quando esquecem o celular em casa e seu dia simplesmente parece um emaranhado de problemas, até que dê um jeito de resgatá-lo. Mas o problema maior surge quando observam que seus pequenos estão tanto – ou mais – subordinados à sedução desleal de aparelhos eletrônicos. Aí sim, a questão passa a ser grave.
Vejo pais e mães apavorados com a desorientação de seus filhos diante da abstinência tecnológica. As crianças parecem perder – e realmente perdem – o rumo diante da iminente “catástrofe” de não ter o que fazer para ocupar seu tempo. É a dependência tecnológica, um vício psicológico, que tem transformado crianças em subordinados da modernidade. Por isso, o filme que passou na TV não é tão fictício assim. Conta a verdadeira história que observamos diariamente: crianças prisioneiras de jogos, de grupos de whatsapp, de redes sociais...
Independente do causador da dependência, só o fato de um ser humano precisar de algo – com exceção de oxigênio, água e alimento – já mostra que há algo de errado. Gostar é uma coisa, necessitar é outra.
Quando isso acontece com crianças, mais uma vez há uma falha na educação. E acreditem, o caso dessa mãe não é uma história isolada. Cada dia mais, famílias se deparam com o fato de terem um dependente mirim em suas casas. E embora haja casos em que essa dependência já esteja instalada, há muitos outros em que é possível fazer algo antes que seja tarde.
Pra começar, a tecnologia não deve ser usada para preencher o tempo. O tempo deve ser preenchido com estudo, leitura, tarefas do colégio, esportes, auxílio nas atividades de casa (criança pode ajudar!). E então, após tudo feito e organizado, aí vem o momento de lazer, que pode ser dividido entre tecnologia e alguma atividade, de preferência ao ar livre (andar de bicicleta, skate, jogar futebol, conversar com os amigos, etc.). Mas o tempo deve ser restrito. Dá trabalho? Ahhhh dá! Dá trabalho dizer não e ouvir uma lenga-lenga interminável de “só mais 10 minutinhos”, de “prometo que só mais essa partida”, de “é muito importante, juro que já vou sair”. Isso vai fazer você se obrigar a ser mais dura. Vai exigir que saia da zona de conforto e se imponha. Vai fazer você ter que sair da frente do computador, da televisão, do livro, ou seja lá o que você esteja fazendo, e vá até ele, se certificar de que sua vontade foi acatada. A maternidade e a paternidade também são feitas disso: cansaço! Mas isso vai lhe salvar de ver aquele pequeno ser um dia sofrer da privação de algo que não foi feito para ser bengala de inseguros. A tecnologia veio para servir à humanidade e não o contrário.
Agora, se o problema já estiver na sua frente e seu filho – ou filha, pois não é “privilégio” apenas de meninos – já demonstrar sintomas de dependência de toda essa parafernália, o segredo é enfrentar o problema urgentemente e se preparar, pois a batalha é árdua e enfadonha.
Lisandra Pioner

Professora, Psicopedgoga e Colunista do jornal Zero Hora

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