Todos
os anos é a mesma coisa. Muitas crianças do meu convívio se deparam com uma
novidade na família: a chegada de um novo membro! E não costuma ser um membro
qualquer, não. É nada mais, nada menos que: um irmãozinho – ou irmãzinha,
claro!
Os
motivos são os mais diversos: foi sem querer, a mãe sempre quis um casal, o pai
queria muito uma parceria pro futebol, o mais velho parecia tão sozinho,
enfim... independente do porquê, a chegada de uma nova criança mexe com toda a
estrutura familiar e isso não tem nada a ver com classe social ou vontade. A
existência de um novo indivíduo dentro de uma estrutura, causa mudanças em
todas as instâncias. As pessoas precisam se adaptar primeiro à ideia, depois
esquematizam a nova rotina, criam estratégias para as diferentes situações que
imaginam poder aparecer, preparam o ambiente e aos poucos, com o crescer da
barriga, crescem os sentimentos. E eles são os mais diversos! Ansiedade, medo,
amor, angústia, alegria... e aos poucos também, vai se criando uma expectativa
de quem será esse novo ser. Quando os pais são de primeira viagem, na maioria
das vezes aguardam – com impaciência – para que logo aquela fofura chegue e
preencha a vida deles de mamadeiras, fraldas e sorrisos desdentados, mas quando
é o segundo, muitas vezes aquele novo bebê vem com uma esperança: fazer melhor
que antes! E o melhor muitas vezes significa ser menos aflito, mais paciente e seguro,
relaxar mais, criticar menos. Para muitos pais, é uma nova chance.
Percebo
que em diversos casos, a preparação da estrutura física é muito maior do que a
emocional. Talvez a maioria das famílias não tenha percebido o quanto aquele
bebê vai mexer com a criança que já está lá e que até então, por mais que diga
que quer conhecer logo o mano, era filho único. Ninguém passa incólume à
chegada do caçula. E muito dessa nova interação familiar se dará pela forma com
que esses pais tratarão a situação. O filho mais velho muitas vezes precisa
aprender a se virar de repente, pois toda a atenção que tinha deixa de ser dele!
Ou o pequeno chora demais, ou é lindo demais, ou é calmo demais, ou é esfomeado
demais... As visitas chegam com presentes – para o caçula, lógico – enchem a
casa de brinquedos, pegam no colo, elogiam e o maior, muitas vezes está à margem
de toda essa movimentação. Vendo tudo e não sendo visto.
A
desculpa de que é só enquanto o irmãozinho é pequeno, às vezes dura a vida
inteira. E assim, o primogênito vai tentando se adaptar e buscar a atenção
perdida da forma que percebe tê-la mais rapidamente – e que nem sempre é a
maneira mais adequada. Mas é a que ele dispõe.
Sei
que o aumento da família não deve ser decisão de uma criança. E que muitas
vezes um irmão é o maior presente que um filho pode ganhar de seus pais. Porém,
muito me preocupa o quanto essa família está realmente estruturada
emocionalmente para receber mais um integrante, sem que seja oneroso a alguém –
principalmente se esse alguém for uma outra criança. E esse preparo vai muito
além de possibilidades materiais.
Quantas
vezes ouvimos “como podem dois filhos, criados pelos mesmos pais, da mesma
forma, serem tão diferentes”? Simples. Além de haver uma questão pessoal de
temperamento, nunca são os mesmos pais, porque a gente muda o tempo inteiro. E
como se não bastasse, há uma questão de afinidade que não convém falar agora,
mas que não há como ignorar. Seja pela semelhança ou exatamente pelo oposto,
pais são seres humanos e têm mais conexão com um ou outro filho. Mas é o adulto
que precisa regular essa manifestação, para que haja espaço para todos. Afinal,
é na família que o papel de cada um se legitima.
Lisandra
Pioner
Texto de 13 de junho de 2015, da coluna No divã (Zero Hora)

No comments:
Post a Comment