Tuesday, September 22, 2015

Limusines, champagne e infância



Você pode estar pensando no que essas palavras do título têm em comum... Pois saibam que TUDO!
Dia desses ouvi o diálogo de duas mães a respeito do “rompante criativo” da filhinha de uma delas, que no seu aniversário de 8 anos, havia decidido comemorar em uma luxuosa limusine. A mãe da menina disse que inicialmente havia ficado um pouco receosa sobre a receptividade das outras mães, já que teriam que deixar suas pequenas andarem por aí sozinhas, em meio ao trânsito, porém, para sua surpresa, todas  incentivaram a escolha.
Então vamos às críticas de quem costuma ter opinião para (quase) tudo e de quem trabalha com, e estuda a infância há muito tempo.
Em primeiro lugar, de onde elas tiraram que há “criatividade” nessa escolha? Será que não sabem que está havendo um “surto modístico” (licença poética, por favor) que está enchendo o bolso das empresas que alugam carros desse tipo?! A mesma moda que nos anos 2000 mandava todos cantar “Parabéns a você” no Mc Donald’s e que há pouco tempo atrás lotava as casas de festas ao final da tarde e que depois passou a ser almoço... essa mesma febre agora passou a ser “automobilística ostentativa” (licença poética novamente!).
Limusine é o último grito (AAAAAAAAAhhhhhhh) em relação a festas infantis. Saiu diretamente dos filmes de Hollywood para a rotina de gente normal, como você e eu (eu, nem tanto assim...), fazendo apenas uma ou outra escala em programas de auditório que mudavam o visual e a casa de algum telespectador – e esse era recepcionado por um chofer devidamente paramentado e sua caranga.
Num aniversário, o momento apoteótico é a chegada da limusine! Ela precisa ser em algum lugar lotado, que é pra causar impacto - e inveja. Logo depois vem o alvoroço de entrar, se acomodar e apertar todos os botões possíveis. Mais tarde vem o passeio lento - quase um desfile - onde as crianças tomam alguma bebida colorida em taças de champagne – que é pra se sentirem mais adultas e poderosas! Se não estiver chovendo, o auge é a aniversariante convidar uma ou duas amigas especiais – causando fofoca e discórdia entre as preteridas – para que juntas, enfiem parte do corpo pelo teto solar e mostrem aos reles mortais que nessa vida há quem veio a passeio e pra brilhar... embora não seja o caso de todos.
Certo... tirando a ironia que fui obrigada a descarregar nessas mal traçadas linhas acima, isso realmente me preocupa. Me preocupa perceber a adultização, a precocidade, a vaidade, o exibicionismo, a ostentação.
Estamos vivendo em um mundo onde crianças se transvestem de adultos e adultos se disfarçam de eternos adolescentes. O que está havendo? Onde está o discernimento? Onde está a reflexão? Ninguém se questiona sobre o que acontece no entorno? Estão todos simplesmente seguindo a massa?
Me perdoem as famílias que acham diferente, divertido, chique; mas fazer um aniversário onde crianças brincam de ser adultos – escancarando a parte mais superficial que lhes cabe – passa uma mensagem – como tudo aquilo que fazemos! E a mensagem é a de que futilidade merece prestígio.
Se essa é realmente a mensagem, ótimo! Estão no caminho certo. Mas não é esse o mundo que eu pretendo habitar daqui a alguns anos.
Tudo tem seu tempo – e isso não é frase de livro de autoajuda. As fases precisam ser respeitadas, pois a cada uma cabe determinada parte da maturação – orgânica e emocional. E mais! Incentivar que crianças ajam como crianças, é parte do papel de cuidadores que se preocupam realmente com o futuro de suas crianças.
E pra quem pensa “Ahhhh... mas é só uma festinha...”; nesse caso é somente uma festinha, ontem foi só mais um celular de última geração, anteontem foi só a maquiagem para o aniversário de 7 anos, toda a semana é só a unha da caçula de 5 aninhos feita na manicure, semana que vem é só o silicone pra mais velha de 14 anos, que tem a autoestima muito baixa porque não tem peitão, lógico! E assim a gente vai indo...
E antes de se indignar comigo, pense: “Ahhhh, mas é só uma crônica...”!

Lisandra Pioner

Professora, Psicopedagoga e Colunista da ZH

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