Escola de
Pais
Gostaria de iniciar a coluna
deste sábado fazendo um pedido muito especial: se desejarem ser pais ou mães,
se preparem para isso tanto quanto se preparariam para assumir um cargo
importantíssimo e de uma responsabilidade singular. O cargo de suas vidas!
Infelizmente não temos vestibular
ou seleção para maternidade e paternidade, sem contar que organicamente podemos
sê-lo praticamente crianças ainda, mas isso não nos dá o direito de colocarmos
uma nova vida no mundo. Porque ser mãe ou pai vai muito além de termos
capacidade de gerar e de suprir financeiramente uma criança. Precisamos ter
capacidade de provê-la emocionalmente. E para isso, é necessário estarmos
inteiros, supridos de nós mesmos, imunes à corrosão de nossas frustrações e aos
danos causados pela negação da realidade dura.
Estamos vivendo uma nova era em
relação às mais diversas áreas. A maioria esmagadora da população adulta sai
para trabalhar, portanto tem menos tempo para questões do cotidiano doméstico –
e se inclui aí, tempo para os filhos. Essa escassez de tempo tem uma
repercussão quase que imediata no desenvolvimento emocional e até mesmo
educacional das crianças. Porém, o reflexo imediato não é o mais preocupante. O
que realmente merece um olhar ainda mais atento é a somatização de todas essas
“repercussões” e o que isso pode ocasionar em um futuro (não tão distante).
Já é sabido pela maioria das
pessoas, que qualidade de tempo não se mede necessariamente pela quantidade de
horas que passamos com nossos pequenos, mas sim, por toda a dedicação e troca
que fazemos naquelas poucas horas que estamos juntos. No entanto, da mesma
maneira que não se faz um bom estudante ou um bom profissional sem perseverança,
também não se fazem bons pais, sem a dedicação de tempo exclusivo e irrestrito.
E essa tomada de responsabilidade para si, que pais conscientes devem fazer,
não auxilia apenas a criança, mas também os próprios pais, que muito evoluem ao
assumirem seus compromissos parentais.
A construção da personalidade e do
caráter e os valores sociais e culturais se formam, em grande parte, na infância.
Portanto, essa terceirização generalizada das crianças terá consequências
sérias. E nós, profissionais das áreas da Educação e Psicologia, já estamos
sentindo.
A oferta de modelos e referências
de comportamento, o estabelecimento de limites e bons hábitos, a preparação
para a autonomia, o ensinamento de tarefas simples e indispensáveis como falar,
comer e fazer a higiene, a criação de uma rotina e o estímulo à socialização
saudável, são apenas algumas das responsabilidades de pais e mães que, se
estiverem ausentes enquanto presença física, estarão legitimando sua
irresponsabilidade diante do compromisso com uma vida. Isso chama-se
negligência. E a negligência de hoje, cobrará juros altíssimos amanhã.
Temos assistido a um número
surpreendente e preocupante de crianças sendo encaminhadas a atendimentos
especializados não por causas orgânicas e genéticas, mas em função de um meio empobrecido
de estímulos, regras e organização. Não é pequena a porcentagem de vezes que
precisamos, mais do que organizar a vida da criança, auxiliar os pais nessa estruturação.
Mas o mais adequado seria, sem dúvida, fazermos isso anteriormente à existência
desse pequeno ser. Se progredimos em tantos âmbitos, prevendo acontecimentos
dos mais variados, por que temos que expor um outro ser humano a experiências?
Será que não podemos antecipar os fatos, impedindo que nossos próprios filhos
sejam cobaias de nossas habilidades enquanto cuidadores?
Nos preparamos para uma
entrevista, para uma seleção de emprego, para um concurso, para um primeiro
encontro, para uma banca de mestrado, para uma cirurgia, para fazermos uma
compra, até para irmos ao médico! Então por que não nos preparamos para encarar
essa jornada encantadora e ao mesmo tempo árdua e séria, com integridade,
retidão, lisura e prazer (que também é indispensável)?
Mais do que as crianças, os pais
estão precisando de escola. Já demonstramos aptidão para o “cargo” quando
assumimos uma postura de aprendizes. Portanto, preparem-se: antes e durante
essa nobre missão!
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

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