Dia dos pais é uma data onde
inevitavelmente lembro-me da infância – da minha, principalmente. Infância tão
diferente das que vejo hoje em dia… Eu, que lido diariamente com muitas delas,
percebo o quanto são diferentes de mim, quando criança. Algumas semelhanças
existem, obviamente! Mas a essência se perdeu um pouco.
Crianças, na minha época, eram
crianças até os dez, doze anos! E eram crianças mesmo, como pede uma infância
saudável. Crianças que brincavam de boneca com toda aquela parafernália que adorávamos
carregar pra baixo e pra cima, vizinhança afora. Os vizinhos não eram apenas
vizinhos: eram amigos. E era lá, na casa do “vizinho-amigo” que passávamos as
tardes brincando e fazendo um lanchinho nos intervalos.
Antes de anoitecer, todos estávamos em
casa para o banho, o jantar e o sono. Meus pais não ligavam para o meu celular.
Aliás, não havia celular naquela época. Nós, crianças, passávamos o dia
incomunicáveis, e ninguém recorria à polícia por esse motivo. Tínhamos uma
liberdade maior, uma responsabilidade maior e uma credibilidade maior.
As facilidades do mundo moderno
fizeram das crianças, seres frágeis e pouco verossímeis. E mais: seres de uma
urgência impressionante!
Durante a minha infância, mais do que
esperar a noite para falar com meu pai, eu precisava esperar o aniversário para
ter uma festa, as férias de verão para ir à praia, o término da época de provas
para poder voltar a brincar a tarde inteira na rua, o Natal ou o dia das
crianças para ganhar um presente... Era a espera que nos fazia ter os olhos
brilhando – mais do que o próprio presente! Almejar era o que nos causava frio
na barriga. Ganhar um brinquedo e pegar o encarte que vinha na caixa para
desejar o próximo, e calcular quando haveria uma nova data comemorativa para
ganhá-lo, era o que nos movia.
O desejo e a capacidade de espera fizeram
grande diferença na personalidade de quem viveu a infância na mesma época que
eu.
E lógico que não pretendo propor que
voltemos àquela época quase que “remota”, de um passado “distante”, mas o resgate
do desejo e da capacidade de espera, é muito importante. E podemos fazê-lo a
todo momento, nos pequenos detalhes do dia a dia. Como pais, como professores,
como cuidadores…
Exigir que se espere na fila, que
aguarde a sua vez de falar, que se coloque no lugar do outro e avalie se sua
ação foi boa, que escolha um brinquedo apenas, que aguarde uma nova data
especial para ganhar um presente de maior valor, que não leve para a escola
brinquedos frágeis, que opte por um lanche com sobremesa ou um cinema com
pipoca, enfim… são coisas pequenas, que fazem uma diferença enorme quando eles
forem como nós: adultos. Quando não nos terão mais por perto tomando partido ou
intervindo para desfazer mal entendidos.
Dia dos pais serve pra isso também.
Mais do que pra dar um abraço apertado e agradecer pelo que fizeram por nós,
serve para relembrarmos o que fizeram de tão bom, que podemos repeir com nossos
filhos.
Hoje, quase dia dos pais, me dou
conta de que me tornei uma adulta. E embora como adulta ainda tenha um pai, não
o tenho todos os dias... Não vejo meu pai todos as manhãs quando acordo, ele
não me leva mais na escola, não me cobra estudo e boas notas, não me compra
guloseimas, nem me pede para parar de cutucar seu banco enquanto dirige. A
infância se foi e sobrou um pai que ocupa um novo lugar na minha vida. Meu pai
deixou de ser, aos meus olhos, um ser meio divino, intocável, quase sagrado e
passou a ser um cara mais simples, mais humano. Apenas um bom exemplo. E esse
“apenas” é muito maior do que tudo que eu poderia sentir.
Ele deixou de ser tão presente
enquanto presença física, mas grande parte do que eu sou, devo a ele. É isso
que desejo a todos os pais nesse dia: que se façam presente, positivamente, na
vida dos filhos, mesmo quando não puderem mais estar no comando de suas vidas.
Que ensinem seus pequenos a serem protagonistas bem sucedidos de seus destinos.
Esse é o maior legado que um bom pai
pode deixar. No dia dos pais, presenteie seu filho!
Lisandra Pioner

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