Tuesday, September 09, 2014

Texto Zero Hora (agosto/2014)




Dia dos pais é uma data onde inevitavelmente lembro-me da infância – da minha, principalmente. Infância tão diferente das que vejo hoje em dia… Eu, que lido diariamente com muitas delas, percebo o quanto são diferentes de mim, quando criança. Algumas semelhanças existem, obviamente! Mas a essência se perdeu um pouco.
Crianças, na minha época, eram crianças até os dez, doze anos! E eram crianças mesmo, como pede uma infância saudável. Crianças que brincavam de boneca com toda aquela parafernália que adorávamos carregar pra baixo e pra cima, vizinhança afora. Os vizinhos não eram apenas vizinhos: eram amigos. E era lá, na casa do “vizinho-amigo” que passávamos as tardes brincando e fazendo um lanchinho nos intervalos.
Antes de anoitecer, todos estávamos em casa para o banho, o jantar e o sono. Meus pais não ligavam para o meu celular. Aliás, não havia celular naquela época. Nós, crianças, passávamos o dia incomunicáveis, e ninguém recorria à polícia por esse motivo. Tínhamos uma liberdade maior, uma responsabilidade maior e uma credibilidade maior.
As facilidades do mundo moderno fizeram das crianças, seres frágeis e pouco verossímeis. E mais: seres de uma urgência impressionante!
Durante a minha infância, mais do que esperar a noite para falar com meu pai, eu precisava esperar o aniversário para ter uma festa, as férias de verão para ir à praia, o término da época de provas para poder voltar a brincar a tarde inteira na rua, o Natal ou o dia das crianças para ganhar um presente... Era a espera que nos fazia ter os olhos brilhando – mais do que o próprio presente! Almejar era o que nos causava frio na barriga. Ganhar um brinquedo e pegar o encarte que vinha na caixa para desejar o próximo, e calcular quando haveria uma nova data comemorativa para ganhá-lo, era o que nos movia.
O desejo e a capacidade de espera fizeram grande diferença na personalidade de quem viveu a infância na mesma época que eu.
E lógico que não pretendo propor que voltemos àquela época quase que “remota”, de um passado “distante”, mas o resgate do desejo e da capacidade de espera, é muito importante. E podemos fazê-lo a todo momento, nos pequenos detalhes do dia a dia. Como pais, como professores, como cuidadores…
Exigir que se espere na fila, que aguarde a sua vez de falar, que se coloque no lugar do outro e avalie se sua ação foi boa, que escolha um brinquedo apenas, que aguarde uma nova data especial para ganhar um presente de maior valor, que não leve para a escola brinquedos frágeis, que opte por um lanche com sobremesa ou um cinema com pipoca, enfim… são coisas pequenas, que fazem uma diferença enorme quando eles forem como nós: adultos. Quando não nos terão mais por perto tomando partido ou intervindo para desfazer mal entendidos.  
Dia dos pais serve pra isso também. Mais do que pra dar um abraço apertado e agradecer pelo que fizeram por nós, serve para relembrarmos o que fizeram de tão bom, que podemos repeir com nossos filhos.
Hoje, quase dia dos pais, me dou conta de que me tornei uma adulta. E embora como adulta ainda tenha um pai, não o tenho todos os dias... Não vejo meu pai todos as manhãs quando acordo, ele não me leva mais na escola, não me cobra estudo e boas notas, não me compra guloseimas, nem me pede para parar de cutucar seu banco enquanto dirige. A infância se foi e sobrou um pai que ocupa um novo lugar na minha vida. Meu pai deixou de ser, aos meus olhos, um ser meio divino, intocável, quase sagrado e passou a ser um cara mais simples, mais humano. Apenas um bom exemplo. E esse “apenas” é muito maior do que tudo que eu poderia sentir.
Ele deixou de ser tão presente enquanto presença física, mas grande parte do que eu sou, devo a ele. É isso que desejo a todos os pais nesse dia: que se façam presente, positivamente, na vida dos filhos, mesmo quando não puderem mais estar no comando de suas vidas. Que ensinem seus pequenos a serem protagonistas bem sucedidos de seus destinos.
Esse é o maior legado que um bom pai pode deixar. No dia dos pais, presenteie seu filho!
Lisandra Pioner

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