A era do desequilíbrio
Sempre pensei que o silêncio tudo
tinha a ver com reflexão. Não que todo o silêncio esconda um raciocínio atento,
mas certamente não há meditação, sem paz. E aí está o problema! Como refletir
em meio a tanto estardalhaço?!
Vivemos em uma sociedade onde o
sistema judiciário precisa intervir até mesmo na forma com que famílias educam
seus filhos. Aliás, o que é a “Lei da Palmada”? Lógico que não sou a favor de
que se bata em crianças. Óbvio que tenho certeza absoluta de que é possível
educar um ser humano sem que seja necessário levantar um dedo sequer. Mas o que me chama a
atenção é a incompetência em gerirmos nossos próprios atos cotidianos. Vivemos
descompensados! Não estamos dando conta das nossas obrigações básicas.
Precisamos que nos fiscalizem para que não sucumbamos à desordem generalizada.
Exigimos que nossos filhos sejam
educados à mesa, mas em casa damos comida na boca. Queremos que na escola sejam
autônomos em relação a suas necessidades fisiológicas, mas na tranquilidade do
nosso lar fazemos a higiene por ele. Solicitamos que respeitem os professores,
mas na hora em que enxergamos o tema de casa verbalizamos em alto e bom som que
a professora “perdeu a noção”, tamanha a quantidade de tarefas. Obrigamos a
colaborar na arrumação do quarto do amiguinho, mas quem organiza sua caixa de
brinquedos somos nós. Chamamos sua atenção para que sejam gentis, mas xingamos
o motorista que nos corta a frente. Pedimos para que sejam honestos, mas não
devolvemos o troco que recebemos a mais. Quremos que sejam responsáveis, mas
organizamos por eles os materiais do dia seguinte na mochila. Fazemos questão
de que tenham seus direitos respeitados, mas paramos em cima da faixa de
pedestre, ignorando que quem anda a pé também possui direitos.
Há um equívoco determinante no dia a
dia das famílias contemporâneas. Um abismo entre os hábitos e as exigências. Nossa
vida está no piloto automático. Fazemos barulho demais e silenciamos de menos.
Nos apressamos, agimos com imprudência, nos precipitamos, adiantamos os
acontecimentos, pulamos etapas. Em contrapartida, impedimos a autonomia dos
nossos filhos, lhes suprindo todas as faltas – tão necessárias à constituição
de um ser humano psíquica e emocionalmente saudável – ou lhes cobrando em
excesso e os punindo se não nos respondem com o esperado.
A Era do desequilíbrio! A
instabilidade, a desarmonia e a perturbação fazem parte da nossa rotina. E há
os que realmente acreditam que isso seja um efeito do “progresso”. Progresso
não seria sinônimo de evolução? Pois tenho outra visão do que seja evoluir, se
desenvolver...
O silêncio opera milagres em um meio
turbulento. A busca incessante pela paz tão almejada, provavelmente está no
silêncio que nos desabituamos a fazer.
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

No comments:
Post a Comment