Sunday, January 26, 2014

A possibilidade dos pais



Criamos uma família, organizamos espaços para abrigá-la, passamos por situações agradáveis, por outras complicadas, ou então, simplesmente não idealizamos essa família e ela acontece e nos surpreende!
Então eles chegam de mansinho... aqueles seres minúsculos que abrigamos durante intermináveis meses dentro da nossa barriga (ainda olho a minha e não acredito que um ser humano esteve ali dentro um dia!). Tirados de seu primeiro abrigo, já demonstram independência. Se não nas vontades, nas necessidades. Logo estão exibindo que possuem mais do que urgências fisiológicas como fome, sede e dor; possuem sim, vontades individuais e únicas. Possuem seus próprios desejos.
Quando pequenos contornamos a fissura por doces, o sonho por cada brinquedo novo que a televisão ou o amiguinho ostentam, a falta de vontade de escovar os dentes a cada refeição ou de lavar as mãos antes delas. Mas de repente somos surpreendidos por novos anseios – tão maiores quanto sua própria altura ou idade. Eles já estão adolescendo – o florescer do ser humano.
 Amigos que insistimos que não são boas companhias, festas que teimamos em tentar proibir, roupas que olhamos com desdém, celulares que rezamos para que sejam atendidos ao primeiro toque... Quando nos tornamos pais ou mães, até descrentes de religiões, passamos a acreditar em algo.
O que fazer quando eles crescem? O que fazer com aquele pedaço da gente que criou personalidade e volta e meia nos afronta?
Chega um momento que não interessa o quanto somos parceiros, carinhosos, bons ouvintes, animados, modernos, corujas... eles vão preferir os amigos!
Chega uma fase em que não importa quantos conselhos, quantos pedidos, quantas conversas tivemos... eles irão tomar suas próprias decisões (e elas muitas vezes não serão as melhores – Aliás, alguém conhece um outro jeito de aprender a tomar decisões certas sem ser tomando várias erradas antes?).
Esse é o futuro de todos os pais e mães: sentirem-se órfãos de seus próprios filhos! Faz parte do amadurecimento deles, enquanto cidadãos do mundo! Faz parte do nosso, enquanto genitores e cuidadores.
Por mais cansativa e batida que seja essa afirmação, devemos repeti-la a nós mesmos todos os dias: Nossos filhos não são nossos! Eles criarão asas e voarão, tecendo seus próprios destinos através de suas escolhas (independente de serem boas ou não; independentes de concordarmos ou não; independentes de estarmos perto ou não). Ser mãe e pai é também nos despirmos um pouco da nossa mania de soberania, de propriedade, de superioridade.
Quem pensa que ser mãe ou pai é ser instrutor, não sabe de nada. Na maioria das vezes é ser instruído, ser desacomodado em nossas certezas, ser instigado a mudar convicções.
Nossa possibilidade vai até ali, ali onde começa a liberdade de escolha que demos a eles ou os privamos. Por isso a necessidade de ensinar a selecionar, a discernir, a classificar.
E rezemos sempre – seja lá qual for a sua crença! Dessa ajuda celestial eu não abro mão.
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista da Zero Hora

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