Criamos uma família, organizamos
espaços para abrigá-la, passamos por situações agradáveis, por outras
complicadas, ou então, simplesmente não idealizamos essa família e ela acontece
e nos surpreende!
Então eles chegam de mansinho...
aqueles seres minúsculos que abrigamos durante intermináveis meses dentro da
nossa barriga (ainda olho a minha e não acredito que um ser humano esteve ali
dentro um dia!). Tirados de seu primeiro abrigo, já demonstram independência.
Se não nas vontades, nas necessidades. Logo estão exibindo que possuem mais do
que urgências fisiológicas como fome, sede e dor; possuem sim, vontades
individuais e únicas. Possuem seus próprios desejos.
Quando pequenos contornamos a fissura
por doces, o sonho por cada brinquedo novo que a televisão ou o amiguinho
ostentam, a falta de vontade de escovar os dentes a cada refeição ou de lavar
as mãos antes delas. Mas de repente somos surpreendidos por novos anseios – tão
maiores quanto sua própria altura ou idade. Eles já estão adolescendo – o florescer
do ser humano.
Amigos que insistimos que não são boas
companhias, festas que teimamos em tentar proibir, roupas que olhamos com
desdém, celulares que rezamos para que sejam atendidos ao primeiro toque...
Quando nos tornamos pais ou mães, até descrentes de religiões, passamos a
acreditar em algo.
O que fazer quando eles crescem? O
que fazer com aquele pedaço da gente que criou personalidade e volta e meia nos
afronta?
Chega um momento que não interessa o
quanto somos parceiros, carinhosos, bons ouvintes, animados, modernos,
corujas... eles vão preferir os amigos!
Chega uma fase em que não importa
quantos conselhos, quantos pedidos, quantas conversas tivemos... eles irão tomar
suas próprias decisões (e elas muitas vezes não serão as melhores – Aliás, alguém
conhece um outro jeito de aprender a tomar decisões certas sem ser tomando
várias erradas antes?).
Esse é o futuro de todos os pais e
mães: sentirem-se órfãos de seus próprios filhos! Faz parte do amadurecimento
deles, enquanto cidadãos do mundo! Faz parte do nosso, enquanto genitores e
cuidadores.
Por mais cansativa e batida que seja essa
afirmação, devemos repeti-la a nós mesmos todos os dias: Nossos filhos não são
nossos! Eles criarão asas e voarão, tecendo seus próprios destinos através de
suas escolhas (independente de serem boas ou não; independentes de concordarmos
ou não; independentes de estarmos perto ou não). Ser mãe e pai é também nos
despirmos um pouco da nossa mania de soberania, de propriedade, de
superioridade.
Quem pensa que ser mãe ou pai é ser
instrutor, não sabe de nada. Na maioria das vezes é ser instruído, ser desacomodado
em nossas certezas, ser instigado a mudar convicções.
Nossa possibilidade vai até ali, ali
onde começa a liberdade de escolha que demos a eles ou os privamos. Por isso a
necessidade de ensinar a selecionar, a discernir, a classificar.
E rezemos sempre – seja lá qual for a
sua crença! Dessa ajuda celestial eu não abro mão.
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga e Colunista
da Zero Hora
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