Que filhos deixaremos para o Brasil?
Vivemos no país do futebol, do carnaval, dos políticos
corruptos (infelizmente) e cada vez mais, do egocentrismo. Não é à toa que
escolhi esse tema. Amanhã, dia em que comemoramos a Independência do Brasil, me
questiono sobre que seres humanos estamos ajudando a formar e que ocuparão
todos os espaços do nosso país.
Temos o hábito de reclamar dos acontecimentos, de dizer que
o país não tem jeito, que quem está no poder não presta e que todas as pessoas
são passíveis de serem corrompidas pelo dinheiro, mas esquecemos que o adulto
de hoje, foi uma criança em algum momento de sua trajetória.
Em que momento a criança inocente se torna um adulto
inescrupuloso? Qual curva errada essa criança pegou e se transformou em um
adulto egoísta e egocêntrico?
Pois eu diria que desde que nasceu e aprendeu a solicitar
algum tipo de atenção, seja pra mamar, ser tirado do berço ou ter o olhar do
cuidador, a criança está se transformando no adulto que será futuramente – e
quem é mãe sabe que o “futuramente” chega num piscar de olhos!
Desde bebê, quando aquele pequeno ser é atendido em
absolutamente todas as suas necessidades, sem que lhes permitam um espaço para
desejar algo; ou quando, um pouco mais crescido, se recusa a emprestar sua
boneca para uma amiguinha e tem sua atitude respaldada por um “É o jeito dela!
Muito apegada aos seus brinquedos!”; ou ainda, quando mente a idade no cinema,
respondendo à solicitação dos pais, para pagar meia entrada; ou fura a fila na
cantina na escola e conta a todos, concluindo que passou na frente dos
“babacas”; ou quando percebe que recebeu um troco errado e não devolve;
enfim... são pequenos recortes do cotidiano de muitas pessoas, que passam pelo
olhar permissivo de muitos pais cansados e culpados. E são esses pequenos fatos
que influenciam na formação do caráter de uma pessoa.
Penso que um jovem que hoje paga para uma quadrilha
auxiliá-lo a passar no vestibular de forma fraudulenta, não começou a errar
nesse exato momento. Ou um jovem que é capaz de colocar fogo em um
mendigo. Ou um que bebe e sai dirigindo
em alta velocidade. Ou um homem que desvia milhões dos cofres públicos para sua
própria conta bancária. Todos esses casos que ouvimos exaustivamente nos
noticiários, não tiveram origem em uma terça-feira despretensiosa, às três da
tarde. Isso tudo se originou em anos e anos de pequenos detalhes do dia a dia,
onde adulto algum sinalizou o erro e o fez ser consertado.
Passamos do autoritarismo descabido para a licenciosidade, e
nessa transição, muitos valores se perderam. É hora de resgatar a
solidariedade, a honestidade, a generosidade da vivência em sociedade. Perceber
que o seus atos influenciam direta ou indiretamente a vida de muitas pessoas,
começa lá na obrigação de fazer a tarefa de casa diariamente, de jogar o lixo
na lixeira, de não furar a fila, de organizar a sua bagunça, de devolver o
troco dado a mais, de dividir os brinquedos.
Eduquemos nossos filhos e estaremos contribuindo
muito para a transformação desse país!
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Colunista da Zero Hora
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