Wednesday, January 22, 2014

Memórias...


Minha escrita surgiu por dois motivos importantes – e eles permanecem íntegros até hoje! Primeiro, para reelaborar os acontecimentos. Uma nova chance que eu dava a mim mesma para repensá-los e guardá-los de uma forma mais agradável – o que nem sempre significou escrevê-los de forma mais amena. Ao contrário! Muitas vezes lhe dei doses grosseiras de tragédia ou comédia – dignas da minha sensibilidade.
Em segundo, para presentear a quem muito valorizo e me importo. Considerava o pedaço mais bonito de mim, portanto, era como se eu entregasse a quem amava, algo de mais precioso.
Hoje, lendo um dos livros da Coleção Vida em Pedaços, do Carpinejar, senti o quanto escrever potencializa tanto as lembranças quanto a competência dramática de quem escreve. Passei uma tarde terapêutica com aquele livro aparentemente inofensivo – para os mais impassíveis – mas absolutamente promissor – aos compassivos, como eu!
Comecei chorando de alegria e perplexidade ao perceber fragmentos da minha história sendo contados por um outro narrador, que não eu. Depois chorei em solidariedade, ri como se ainda possuísse o ingênuo sarcasmo infantil, chorei de novo, refleti...
Li o que Mário e Diana Corso – psicanalistas – escreveram a respeito dos livros e me chamou a atenção a frase que, pra minha surpresa, mais tarde vim a descobrir que era um “plágio consciente” (como bem definiu o próprio Mário no lançamento, na Livraria Cultura) e que dizia: “...nunca é tarde para se ter uma infância feliz”.
A nossa infância para nós, já adultos, nada mais é do que aquilo que recriamos ao unir cacos de memórias que temos e também, daquilo que ouvimos falar sobre nós, enquanto infantes.
Eu, que trabalho diariamente com crianças, jamais desdenho de suas dores, mas também percebo o quanto elas são contornáveis – pela própria criança. Elas – as crianças – sabem de algo que nós – os adultos – esquecemos com o passar dos anos: nada é definitivo ou determinante!
Diana por sua vez, concluiu brilhantemente que, algumas pessoas são órfãs pela sua incapacidade narrativa, ou seja, pela impotência de reescrever suas percepções usando um filtro diferente.
Infância todos tivemos e suas lembranças levaremos conosco. Mas somos nós que escolheremos se elas serão como fardos a pesarem sobre nossas costas ou asas, que nos permitam voar mais alto do que até então.
Lisandra Pioner

Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Colunista da Zero Hora

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