Minha escrita surgiu por dois motivos
importantes – e eles permanecem íntegros até hoje! Primeiro, para reelaborar os
acontecimentos. Uma nova chance que eu dava a mim mesma para repensá-los e guardá-los
de uma forma mais agradável – o que nem sempre significou escrevê-los de forma
mais amena. Ao contrário! Muitas vezes lhe dei doses grosseiras de tragédia ou
comédia – dignas da minha sensibilidade.
Em segundo, para presentear a quem
muito valorizo e me importo. Considerava o pedaço mais bonito de mim, portanto,
era como se eu entregasse a quem amava, algo de mais precioso.
Hoje, lendo um dos livros da Coleção
Vida em Pedaços, do Carpinejar, senti o quanto escrever potencializa tanto as
lembranças quanto a competência dramática de quem escreve. Passei uma tarde terapêutica
com aquele livro aparentemente inofensivo – para os mais impassíveis – mas absolutamente
promissor – aos compassivos, como eu!
Comecei chorando de alegria e
perplexidade ao perceber fragmentos da minha história sendo contados por um
outro narrador, que não eu. Depois chorei em solidariedade, ri como se ainda
possuísse o ingênuo sarcasmo infantil, chorei de novo, refleti...
Li o que Mário e Diana Corso –
psicanalistas – escreveram a respeito dos livros e me chamou a atenção a frase
que, pra minha surpresa, mais tarde vim a descobrir que era um “plágio
consciente” (como bem definiu o próprio Mário no lançamento, na Livraria
Cultura) e que dizia: “...nunca é tarde para se ter uma infância feliz”.
A nossa infância para nós, já
adultos, nada mais é do que aquilo que recriamos ao unir cacos de memórias que
temos e também, daquilo que ouvimos falar sobre nós, enquanto infantes.
Eu, que trabalho diariamente com
crianças, jamais desdenho de suas dores, mas também percebo o quanto elas são
contornáveis – pela própria criança. Elas – as crianças – sabem de algo que nós
– os adultos – esquecemos com o passar dos anos: nada é definitivo ou
determinante!
Diana por sua vez, concluiu brilhantemente
que, algumas pessoas são órfãs pela sua incapacidade narrativa, ou seja, pela
impotência de reescrever suas percepções usando um filtro diferente.
Infância todos tivemos e suas
lembranças levaremos conosco. Mas somos nós que escolheremos se elas serão como
fardos a pesarem sobre nossas costas ou asas, que nos permitam voar mais alto
do que até então.
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e
Institucional e Colunista da Zero Hora

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