Um olhar que vê
E então o ano praticamente passou
e nos pegamos dizendo as mesmas coisas que dissemos no ano anterior... “O ano
passou voando!”, “Já estamos em dezembro; agora vem a época de festas, férias e
só voltamos a ter uma rotina depois do carnaval!”.
Realmente, para muitas coisas o
ano acabou. Mas existem algumas mudanças providenciais que podem (e devem) ser
modificadas hoje – independente de ser uma segunda-feira, dia internacional da
força de vontade ou apenas um sábado, dia da semana que nos remete à falta de
regras e alguns excessos.
Precisamos, urgentemente,
modificar nosso olhar.
Minha vontade era parar por aqui
e deixá-los pensando durante um tempo, na quantidade de significados que a
palavra “olhar” pode ter. Mas como isso não é possível, quero me deter no olhar
que vê, que considera, que percebe o que está no seu entorno – considerando,
principalmente, os outros seres humanos.
Tenho estado muito atenta a essa
falta de um olhar efetivo. Nos dias corridos em que vivemos as pessoas se olham,
mas não se veem de verdade. Ignoramos o cara do carro ao lado, o pedestre
querendo atravessar a rua, o colega precisando de um sorriso, o vizinho
necessitado de uma ajuda com as sacolas de compras... Ignoramos as vagas pra
idosos, a faixa de segurança, o sinal vermelho, o mendigo atirado na sarjeta, a
criança fazendo malabarismo no sinal, o gari... E mais do que isso! Temos
ignorado nossos filhos.
O que eles estão sentindo? Como
são seus dias? Quais pessoas fazem parte de suas rotinas? O que estão aprendendo?
Quem são seus professores? Quem são seus melhores amigos? Quem admiram? Quem
lhes incomoda e por quê?
Viver em sociedade pressupõe
solidariedade, responsabilidade, partilha, colaboração. Ter filhos significa
multiplicar tudo isso por mil!
Se há uma resolução de final de
ano que precisa ser colocada em prática emergencialmente pelas famílias
contemporâneas, é o olhar para as crianças. As olhem, as vejam de verdade.
Estendam seus ombros mais do que suas carteiras; dividam seu tempo, mais do que
seus salários. Dinheiro não compra caráter, não determina gratidão, não
constrói índole, não incentiva honestidade, não estimula honradez. E escola é
uma instituição coadjuvante na educação. Ela existe para auxiliar as famílias;
e não o contrário.
Sabem aquele peso da culpa que só
nós – pais e mães – sentimos? Ele diminui vertiginosamente quando educamos os
filhos com nossas “próprias mãos”, e não quando proporcionamos,
financeiramente, tudo o que não tivemos na nossa própria infância.
Olhem e vejam suas crianças. Isso pode ser o que
separa um ser humano com um futuro feliz, de um outro, cujo futuro é duvidoso.
Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Colunista da Zero Hora

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