Tuesday, January 21, 2014

Texto ZH (Novembro 2)


Um olhar que vê
E então o ano praticamente passou e nos pegamos dizendo as mesmas coisas que dissemos no ano anterior... “O ano passou voando!”, “Já estamos em dezembro; agora vem a época de festas, férias e só voltamos a ter uma rotina depois do carnaval!”.
Realmente, para muitas coisas o ano acabou. Mas existem algumas mudanças providenciais que podem (e devem) ser modificadas hoje – independente de ser uma segunda-feira, dia internacional da força de vontade ou apenas um sábado, dia da semana que nos remete à falta de regras e alguns excessos.
Precisamos, urgentemente, modificar nosso olhar.
Minha vontade era parar por aqui e deixá-los pensando durante um tempo, na quantidade de significados que a palavra “olhar” pode ter. Mas como isso não é possível, quero me deter no olhar que vê, que considera, que percebe o que está no seu entorno – considerando, principalmente, os outros seres humanos.
Tenho estado muito atenta a essa falta de um olhar efetivo. Nos dias corridos em que vivemos as pessoas se olham, mas não se veem de verdade. Ignoramos o cara do carro ao lado, o pedestre querendo atravessar a rua, o colega precisando de um sorriso, o vizinho necessitado de uma ajuda com as sacolas de compras... Ignoramos as vagas pra idosos, a faixa de segurança, o sinal vermelho, o mendigo atirado na sarjeta, a criança fazendo malabarismo no sinal, o gari... E mais do que isso! Temos ignorado nossos filhos.
O que eles estão sentindo? Como são seus dias? Quais pessoas fazem parte de suas rotinas? O que estão aprendendo? Quem são seus professores? Quem são seus melhores amigos? Quem admiram? Quem lhes incomoda e por quê?
Viver em sociedade pressupõe solidariedade, responsabilidade, partilha, colaboração. Ter filhos significa multiplicar tudo isso por mil!
Se há uma resolução de final de ano que precisa ser colocada em prática emergencialmente pelas famílias contemporâneas, é o olhar para as crianças. As olhem, as vejam de verdade. Estendam seus ombros mais do que suas carteiras; dividam seu tempo, mais do que seus salários. Dinheiro não compra caráter, não determina gratidão, não constrói índole, não incentiva honestidade, não estimula honradez. E escola é uma instituição coadjuvante na educação. Ela existe para auxiliar as famílias; e não o contrário.
Sabem aquele peso da culpa que só nós – pais e mães – sentimos? Ele diminui vertiginosamente quando educamos os filhos com nossas “próprias mãos”, e não quando proporcionamos, financeiramente, tudo o que não tivemos na nossa própria infância.
Olhem e vejam suas crianças. Isso pode ser o que separa um ser humano com um futuro feliz, de um outro, cujo futuro é duvidoso.

Lisandra Pioner
Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Colunista da Zero Hora

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